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Assim que nascemos, choramos por nos vermos neste imenso palco de loucos

Do útero para o mundo, caminho inexorável que todos nós fazemos. Para os que têm fé, trata-se do milagre da vida; mas também para aqueles que não professam nenhuma fé, este também é um evento magnífico, indescritível e irrepetível. O nascimento é fato único. Este caminho vai dar no mundo. Então nosso assombro, nosso medo, nosso choro. Do nosso lado, um ser também único, que nos acolhe e nos dá o peito para o primeiro alimento. O choro emudece e somente o movimento dos músculos da boca fazendo esforço para conseguir alimento. É a primeira ideia que se sente: no útero o alimento vinha sem esforço; agora é preciso buscá-lo, sugá-lo, suar, e chorar quando não se consegue. Sem essa luta, morre-se antes de subir ao palco do mundo.

Vai demorar ainda um bom tempo até que cada pessoa se sinta no palco do mundo, para início das representações, puras loucuras de seres expulsos do paraíso uterino. A queda não está num longínquo passado, mas na repetição do primeiro caminho. A queda não é ato consciente. Somos expurgados para o palco dos loucos. Nosso destino, nossa sina!

A peça tem um tempo de duração, e cada um ainda pode escolher entre dois caminhos: o palco ou a plateia. Sim, a vida tem estas distinções; atores e plateia formam um todo, sem separação, com distinção, mas um dependente do outro. Todos loucos num mesmo teatro. A vida. A via. A loucura das representações.

Oscar Wilde, escritor e poeta irlandês, confirma o dito de Shakespeare ao dizer “o mundo pode ser um palco. Mas o elenco é um horror”. Em pleno século XXI, o elenco horroroso parece tomar o nosso palco. As representações são cada vez mais trágicas, cada vez mais cruéis, cada vez mais insuportáveis. O sangue derramado no palco escorre pela plateia. O sangue tem pernas e corre, sem rumo, sem destino, e cai em nosso inconsciente. Sim, no inconsciente. E ali vai formando uma crosta vermelha que encobre um vulcão. Pode explodir a qualquer momento. Então, mais sangue há de escorrer. Nem água mais se bebe, pois ela também foi contaminada pelo sangue derramado.

O desejo de fazer derramar sangue não mais será contido, pois no inconsciente nos foi reprimido outro desejo, o de paz, de solidariedade, de ajuda mútua. Sim. Foi reprimido. O palco das representações depende fundamentalmente da alteridade: de palavras, de gestos, de reações, dos risos, de palmas, de silêncio, de aplausos. Em cada ator, o cuidado para que o outro não tropece nas palavras e nos gestos. Cuidado para que o outro não esqueça. Cuidado para que o outro não desapareça.

A eliminação da alteridade faz aumentar o derramamento de sangue – elenco de horror. É o terror. Somente a morte fará cair a máscara das representações emboladas, enroladas, corruptas, sem sentido, e poderá ser a semente para uma nova criação, um novo céu, uma nova terra. Um novo palco.

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciência da Religião 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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