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As influências do ambiente na formação da personalidade

A relação entre o ambiente e a formação da personalidade é um debate antigo. Existem velhas expressões populares, ainda hoje usadas, que indicam a presença deste assunto ao longo dos séculos. Por exemplo, “diga-me com quem tu andas e eu te direi quem tu és!”. Este provérbio alerta para as semelhanças encontradas entre as pessoas da mesma origem social, isto é, o mesmo berço familiar ou escolar, o mesmo local de trabalho ou bairro residencial, os frequentadores das mesmas festas, aqueles que professam a mesma religião… Existem igualmente expressões antigas que destacam as diferenças das pessoas com origens comuns: “Os dedos das mãos são irmãos, mas não são iguais!”. Enfim, através dos provérbios pode-se confirmar a preocupação social em compreender o binômio ambiente-personalidade.

De certo, a personalidade é explicada por um conjunto de características relativas ao modo peculiar de cada pessoa responder aos estímulos do ambiente. As respostas são individuais, únicas, inclusive quando as pessoas possuem fortes semelhanças. Isto pode ser verificado no seio da família observando as diferenças de comportamento dos filhos de um mesmo casal, até os gêmeos reagem de maneira diferenciada face às situações em que vivem. Para além do ambiente familiar encontramos perfis específicos entre as pessoas oriundas de uma mesma região, submetidas às mesmas condições de vida, por exemplo, populações vivendo em ambientes hostis, em situação de violência brutal. Neste ambiente encontram-se pessoas de perfil violento, mas há também pessoas pacifistas e não é raro encontrar aquelas que são indiferentes ao que acontece ao seu redor.  Portanto, os indivíduos que compartilham o ambiente não estão predeterminados a reagirem da mesma maneira às situações enfrentadas.

Posto isto, cabe se perguntar: Será que pouco importa o ambiente no qual vivem as pessoas? O propósito inicial foi destacar as peculiaridades do comportamento humano, pois de acordo com a neuropsicologia, “a personalidade é o estudo das variações e das diferenças individuais, onde o temperamento e o caráter são considerados traços da mesma”. São muitos os componentes da personalidade, tanto os elementos herdados, quanto os adquiridos ou socialmente aprendidos. Tudo contribui para a formação do mundo interno do indivíduo, tanto os fatores genéticos, biológicos, psicológicos, quanto os determinantes sociais, culturais, educacionais.

É por isso que não se pode julgar antecipadamente o comportamento de um ser humano ou de um grupo social. Os julgamentos precipitados e superficiais comumente decorrem de afirmações preconceituosas, que se baseiam em estereótipo, ou seja, em ideia preconcebida de alguém, geralmente repleta de afirmações genéricas, muitas vezes construídas sobre inverdades, tais como, “os ciganos são ladrões”; “os índios são preguiçosos”; “os favelados são bandidos”, etc.

Considerando as influências dos aspectos ambientais na formação da personalidade, os determinantes sociais da personalidade, que é o nosso tema de reflexão, o ponto inicial a destacar são os padrões da sociedade moderna, pois os indivíduos vivem em pequenos grupos inseridos numa sociedade global.

Graças aos avanços técnico-científicos a maioria da população vive interconectada e submetida às relações sociais globalizadas. Isto pode ser verificado desde o modelo de roupa que é definido pelas passarelas de moda da Europa, dos Estados Unidos, de São Paulo ou Vitória. O modo de viver é determinado pelas indústrias, pelos produtores de vestuário, de alimentos, de automóveis, enfim, pelo padrão de consumo globalmente instalado. O padrão mercantil consolidado no mundo interligado pelos meios de comunicação estabelece o estilo a ser usado e o comportamento dos usuários no processo de consumo. O mercado define o valor das coisas. Tudo é mercadoria. Consumismo. Até mesmo as pessoas “se vendem”! Esta é a linguagem adotada. De fato, as pessoas são vistas pelo valor que têm: Quanto custa a roupa e os acessórios que usam? O carro que possuem? A casa em que moram?  Onde passaram as férias? Qual o restaurante preferido? Quanto gastaram na festa de aniversário ou casamento? A lógica predominante faz as pessoas serem “coisificadas”, isto é, tornarem-se coisas, mercadorias, objetos de uso e… de descarte – não se pode esquecer disso!

A questão a se pensar é o fato de nem todos estarem incluídos no padrão de consumo. Bilhões de pessoas ficam fora ou estão precariamente inseridas nele. Apesar disso, os meios de comunicação insistem diariamente em afirmar que a felicidade depende do consumo das coisas oferecidas pelo mercado. As consequências da exclusão são desastrosas para a sociedade consumista. Dentre os dramas, assistimos aqueles que estão fora deste sistema buscar, de qualquer maneira, uma forma para entrar. Daí, surgem comportamentos irracionais: Endividamentos, roubos, corrupção, negligência, abandono de incapazes, etc.

Enfim, a lógica predominante influencia o comportamento, é verdade! Porém, vale lembrar que nem todas as pessoas não estão predeterminadas a reagirem da mesma maneira face às situações que enfrentam.

Tânia Maria Silveira
Mestre em Política Social pela Universidade Federal do Espírito Santo

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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