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As discussões eleitorais abalaram os laços afetivos. É possível restaurar?

Corre uma piada nas mídias sociais que sugere adiar o Natal para dar tempo de as pessoas fazerem as pazes depois das brigas nas eleições. Mas o Natal não vai ser adiado. Então, como fazer se foi perdida a admiração mútua e os laços afetivos foram abalados? Como trocar amigo oculto se nem me sinto mais amigo, e preferia mesmo ficar oculto?

As crenças divergentes, pela oposição entre os dois extremos fez aflorar muitos sentimentos. O principal foi o medo que tem a função de zelar pela nossa integridade e bem-estar. As fake-news, ou até mesmo notícias reais descontextualizadas, foram postadas aos milhares para reforçar o medo, estimulando diariamente o instinto de preservação. Como consequência muita raiva também foi gerada.

Segundo pesquisas, 42,5% dos eleitores usaram as mídias sociais como principal meio de informação nas eleições de 2018.

O conteúdo exibido nas redes sociais é priorizado por algoritmos, que medem o engajamento de uma pessoa a um assunto através dos likes, compartilhamentos ou buscas, e são usados para determinar o perfil de cada usuário e se outros posts semelhantes deveriam ser priorizados ou não para ele. Quanto mais uma pessoa compartilhava um tipo de post, mais recebia posts de conteúdo similar. Desta forma as convicções de cada lado foram sendo diariamente reforçadas. O reforço de uma crença torna essa crença cada vez mais forte, e com isto, muitas pessoas simplesmente não conseguiam ouvir argumentos do outro, nem mesmo os mais lógicos. O medo exige ações rápidas e se ele paralisa a ação pode levar ao pânico. É quando os controles emocionais se perdem, assim como a racionalidade e a capacidade de dar atenção a qualquer argumento fora do sistema de proteção.

O organismo humano sadio precisa de energia para agir diante de suas necessidades. A raiva é liberada pela frustração para a busca de estratégias de solução efetiva para os problemas. Apesar de ser desprezada pelos nossos valores sociais por ser confundida com a ira (energia destrutiva), a raiva é uma energia de ação construtiva, porque ela nos impulsiona a buscar nosso bem-estar perdido.

A simplificação em estereótipos, com a cristalização das crenças, foram piorando as relações: “Descobri que fulano é fascista/comunista!” Como posso amar uma pessoa assim? A decepção obriga a desconstruir a imagem que eu tinha dessa pessoa, mas não alerta para o fato que será também necessário desconstruir as minhas crenças exageradas deste esgotante processo eleitoral.

Quando a raiva é expressada, desconsiderando o outro, pode haver um momentâneo alívio, mas usualmente traz problemas futuros, assim não é solução inteligente. Usando a inteligência emocional (pensar antes de agir; avaliar as estratégias mais produtivas e só então agir) aprendemos a nos perguntar antes, porque estou com raiva (e a resposta nem sempre é fácil de achar) e, a buscar estratégias para expressar minha raiva: da maneira certa, na hora certa, com a pessoa certa e de modo certo para, então, conseguir superar o meu problema sem causar outro.

Afastar-se de todos só o vai fazer sentir-se sozinho. Não adianta mudar de grupo, pois em todos, sem exceção, você vai achar pessoas que pensam diferente de você. Aprender a viver com as diferenças, só vai lhe fazer crescer.

Optar por uma estratégia de buscar um distanciamento do problema é eficiente. Procure distanciar-se por algum tempo das mídias sociais e evite pessoas iradas. Observe a realidade de forma aberta e honesta e tente compreender as razões das crenças do outro. Pense de forma sistêmica. Afaste todos os chavões que levam seu pensamento ao aprisionamento e tente um espírito questionador, investigativo: qual o interesse do cidadão comum em defender esse posicionamento? Porque possuem esse interesse? (se cair no chavão: game over, pode recomeçar). Pesquise faça isso no Google, mas em janela anônima que não está atrelada ao seu perfil e aí você receberá informações mais neutras, não sujeitas às tendências de seu algoritmo. Considere, a princípio, toda informação “revoltante” que chegar através dos posts como suspeito e pesquise primeiro (sites oficiais) para depois se posicionar. Aos poucos vai descobrir que a realidade não é bem como estão pintando. Perceber que a verdade nunca está de um lado só e não alimentar a raiva ajuda muito a apaziguar as emoções, mas seus efeitos podem não chegar antes do Natal. Vamos então ver outras estratégias.

Esvaziar as emoções é permitir que elas fluam. Assim, antes de tudo cuide-se: consiga um tempo para você, tente acalmar seu interior buscando um relaxamento através de um passeio na praia, campo ou qualquer lugar onde a natureza predomine. Ponha os pés em contato direto com a terra/mar e se permita relaxar. Use seu corpo como um “fio terra” e deixe fluir a energia negativa que está em você.

Muitas vezes uma alternativa eficaz é minimizar a frustação, tirar por menos, não responder se provocado, mudar de assunto se a temperatura esquentar, ou seja, não deixar que a raiva tome conta. Deixar fluir. Mais do que evitar o problema isso é transcender ao mesmo.
Entenda que se você quer mesmo mudar uma pessoa, mude seu comportamento em relação a ela só assim você mudará o outro. Mesmo que você não se considere o responsável, mude você. Coloque-se no lugar do outro. Compreenda-o no contexto dele, um ser humano sujeito a erros como todos nós. Converse, dialogue. Perdoe e queira perdoar. O perdão não é um sentimento, é uma decisão, consequência de uma abertura pessoal. Restaurar os laços fica mais fácil assim.

Vania Reis
Psicóloga
vaniareis@gap-es.com.br

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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