buscar
por

Ajudar os necessitados é fazer o Natal para todos

Um casal que aguarda o nascimento de seu bebê, previsto para dezembro, está sem casa e teme pela proximidade do parto sem lugar adequado. O que fazer? Não há dinheiro para o aluguel, e os pedidos de ajuda podem não ser atendidos, mas é necessário acreditar que alguém de bom coração se sensibilize e compadeça.

Ainda que haja semelhança com a história do nascimento do Menino Jesus, o relato não diz respeito à lembrança de sua chegada, celebrada há mais de 2000 anos em todo o mundo no dia 25 de dezembro. Trata-se de uma história atual, que com frequência ocorre próxima de nós, pois centenas de crianças nascem diariamente no seio de famílias que sobrevivem em condições de extrema pobreza, muitas sem um lar.

Dados divulgados em dezembro do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que cerca de 50 milhões de brasileiros, o equivalente a 25,4% da população, vivem na linha de pobreza e têm renda familiar equivalente a R$ 387,07.

reportagemmarlivania 1A história é do casal Adriano Cremasco de Souza e Marlivânia Coimbra. Eles moraram por mais de três anos em um depósito usado para guardar ferramentas utilizadas na construção civil. Os dois já são pais da pequena Maria Alice, de 4 anos, e aguardam a chegada de Cecília, que nascerá na primeira quinzena de dezembro.

 

Desempregado há três anos, Adriano foi admitido no início de novembro por uma construtora, mas o primeiro salário ainda não chegou. A família, que sobrevivia de alguns bicos e doações, se viu em situação ainda mais complicada ao ser informada que teria que deixar o depósito, porque a empresa proprietária do terreno dará início a obra de um edifício no local.
“Foi desesperador. Ficamos sem saída, pois não teríamos para onde ir como nossa filha pequena e a bebê. A tristeza tomou conta de mim e pensei até em tirar minha vida, mas Deus nos mostrou um caminho, nos enviou um anjo que nos ofereceu um lugar, uma ajuda maravilhosa, nos cedendo um quarto em sua casa. Eu tenho certeza que foi Nossa Senhora que nos ajudou, pois me vi na mesma situação dela quando se aproximou o nascimento de Jesus. Pedi seu auxílio e Ela olhou por nós.” garantiu Marlivânia.

O “anjo” atende pelo nome de Paulo Luiz Silveira e serve na Paróquia Nossa Senhora das Graças, em Coqueiral de Itaparica, Vila Velha. Paulinho, como gosta de ser chamado, conhece Adriano e Marlivânia há algum tempo e já os ajudou outras ocasiões. O primeiro contato foi quando Adriano, sabendo que Paulinho trabalhava como auxiliar de obra, pediu-lhe uma ajuda para pintar as paredes do depósito, repletas de mofo.

“Quando cheguei com a lata de tinta, vi a situação. Paredes só na lajota, um colchão para os três e caixas de papelão serviam de armário. A ajuda emergencial foi dada, mas não resolveu o problema. Este ano, quando me contaram que ficariam sem o abrigo, próximo ao nascimento do bebê, tomei a decisão de compartilhar minha casa com eles. Assim terei tempo para mobilizar outras pessoas para ajudar. A ideia é alugar uma casa para a família, garantindo que eles tenham um ano de aluguel pago para dar condições de se reestabelecerem”, contou.

reportagempaulo luiz silveira (15)A atitude de Paulinho traduz a prática que nos pediu o Papa Francisco ao instituir o Dia Mundial dos Pobres, um marco para que sejam realizadas ações concretas em prol dos menos favorecidos em todo o mundo. Com a data, Francisco nos convida a ir ao encontro dos nossos irmãos e irmãs necessitados, auxiliando-os na conquista de uma vida mais digna e colaborando no combate da pobreza.

“Eu gosto de ajudar, tive o exemplo do meu pai. Além da oração, Deus nos pede ação. Precisamos ser uma Igreja em saída”, comentou Paulinho.

Percebendo e sentindo que a ajuda aos necessitados precisa ir para além do Dia Mundial dos Pobres, que Dom Luiz Mancilha Vilela, então Arcebispo de Vitória, atualmente emérito e exercendo a função de Administrador Apostólico, pensou na Campanha do Natal Para Todos. A proposta é mobilizar grupos, movimentos, pastorais e paróquias para que proporcionem um Natal melhor às pessoas necessitadas, colaborando para que todo cristão reflita sobre sua missão no mundo e para que seja criada uma mentalidade de auxílio aos menos favorecidos durante todo o ano, intenção que vai ao encontro do desejo de Francisco.

O lançamento da Campanha ocorreu na Catedral Metropolitana de Vitória no Dia Mundial dos Pobres (18 de novembro), ocasião em que também houve o encerramento do Ano do Laicato. Dentro da proposta, tiveram início nesta data, diversas mobilizações que terão continuidade.

A assistente social Tânia Maria Silveira faz parte da Comissão Sócio Transformadora da Paróquia Nossa Senhora da Vitória (Catedral), responsável por um trabalho de solidariedade nos morros da região no Centro. Ela conta que desde o ano passado, a comissão realiza o cadastramento e acompanhamento das famílias necessitadas e sem teto, residentes no território da paróquia.

Para Tânia, a pobreza é algo que só é percebido quando, de fato, as pessoas se aproximam dela. “Temos uma situação de miséria espalhada na cidade, mas quando subimos os morros ou vamos para os bairros de periferia, é que conseguimos ter noção de sua dimensão”, comentou.

Tânia conta que já se deparou com situações degradantes de sobrevivência. “Muitos vivem em cubículos, em locais que não podemos sequer chamar de casa. São amontoados onde falta tudo. Crianças, idosos, deficientes sobrevivendo sem a mínima condição”, relatou.

Em 2017, a Comissão, fez o cadastramento de cerca de 300 famílias nos Morros do Moscoso, da Piedade e Fonte Grande, e foram distribuídas mais de 300 cestas básicas. Antes do Congresso Eucarístico (Cear) novas visitas foram feitas e culminaram na ação social realizada dentro da programação do evento. Atualmente a equipe trabalha na montagem de um banco de dados das famílias mais carentes para um acompanhamento contínuo.

Para a Irmã Marlene Valani, Missionária Agostiniana Recoleta que também integra a comissão, a presença dos pobres em nossa sociedade é um sinal de que o país não está sendo governado para todos, e que os cristãos não estão seguindo Jesus.

“Nas primeiras comunidades cristãs, o pão era repartido conforme a necessidade de cada um, e entre eles não havia necessitados. É urgente uma evangelização que passe da cabeça ao coração, para que haja a partilha do pão segundo essas necessidades. Também é urgente em nosso país, a criação de políticas públicas que devolvam aos pobres o direito de viver”, alertou.

No Natal para Todos deste ano a comissão ampliou a participação dos voluntários, envolvendo o trabalho do Conselho Paroquial Pastoral e de todas as forças vivas da Paróquia, e até agora já são mais 200 famílias cadastradas. No dia 16 de dezembro acontece na praça da Catedral um momento de confraternização junto dessas pessoas, com atendimentos das pastorais, prestação de serviço, almoço, música, distribuição de cestas básicas, roupas e brindes para as crianças.

Em Vila Velha, a Paróquia Nossa Senhora das Graças se uniu à Paróquia Santo Antônio de Pádua, em Soteco, e juntas, com a participação de mais de 200 voluntários, realizaram no dia 18 pela manhã a ação social “Somos uma Igreja em saída”. Cerca de 500 pessoas foram acolhidas e puderam receber diversos atendimentos, entre eles, atendimentos e orientações médicas, odontológicas, psicológicas e jurídicas.

Um café da manhã foi servido a todos e durante a ação houve também o cadastramento de famílias carentes para que recebam cestas básicas até o Natal.

A ação foi uma sugestão da massagista Maria Lúcia de Almeida, que trabalha ativamente no auxílio a pessoas carentes nas comunidades. “A ideia era ajudar um grande número de pessoas ao mesmo tempo e levar Jesus aos nossos irmãos através de ações de solidariedade”, observou.

A ajuda chegou em boa hora, segundo a dona de casa Eliane dos Santos, que esteve na ação social para conseguir atendimento odontológico para a filha de 13 anos. “Cheguei da Bahia há três meses com meu marido e filha. Viemos em busca de trabalho, mas ainda não conseguimos nada, pois não conhecemos quase ninguém. Pedi ajuda e recebemos uma cesta básica. Foi o que garantiu que não passássemos fome”, contou Eliane.

Para o Pe. Gudialace Oliveira a assistência social aos pobres é uma função do Estado. Entretanto, para ele não é possível ver nossos irmãos passando fome e nada fazer. “Lutamos por um mundo mais justo, onde todos sejam tratados com igualdade, mas enquanto esse mundo não se concretiza, precisamos ajudar esses irmãos desfavorecidos” pontuou.

Até ao Natal todas as paróquias da Arquidiocese estão convocadas a organizar ações, eventos e campanhas com o intuito de prolongar o Dia do Pobre, instituído pelo Papa Francisco, fazendo com esta festividade seja cada vez mais para todos. Natal para Todos.

A reportagem cobriu os eventos das paróquias Nossa Senhora da Vitória, Nossa Senhora das Graças e Santo Antônio de Pádua, no Dia dos Pobres, mas também aconteceram ações em várias outras Paróquias neste dia.

Em Vila Velha, na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, moradores de rua foram convidados a um banho no ônibus solidário, a participação da missa da noite, e a um jantar na cantina da Matriz. Na Paróquia Santíssima Trindade, em Vila Capixaba, Cariacica, houve doação de roupas, sapatos e alimentos às famílias carentes. Na Paróquia São Francisco, no bairro São Francisco, em Cariacica, teve início uma campanha de arrecadação de alimentos não perecíveis que serão doados às famílias das comunidades carentes.

Em Maruípe, a comunidade São João Evangelista, em Alto Tabuazeiro, realizou uma missão nas casas das famílias e finalizou a data com a celebração de uma missa campal. A Paróquia São José deu início também a arrecadação de alimentos que podem ser entregues na secretaria paroquial.

 

Andressa Mian
Jornalista

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS