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Agressividades, palavras e tiros

Diante dos fatos horríveis da matança na boate em Orlando-EUA me surpreendo (quando não deveria mais) com os comentários a uma matéria sobre o assunto num grande portal de notícias na internet: “Esse atirador vai direto pro céu”; “Tiveram o que mereceram”; “Seria ótimo se o deputado Jean Wyllys estivesse na boate”; “Seres humanos constituem família, morreram 50 aberrações”; “Esse homem devia ganhar uma medalha”. E muitos, muitos outros comentários do mesmo naipe. Fico espantado com a desenvoltura com que tantos se manifestam nessa praça pública que é a internet, sem titubear de suas “verdades”, com orgulho até, expressando em alto e bom som suas agressividades. O que é isso? Meu Deus!

Parece que o comércio da felicidade a qualquer custo, o endurecimento mental decorrente desse consumo exagerado e da glamourização das banalidades e das imbecilidades vão rendendo algo que foge dos controles do próprio sistema, ou seja, por mais que se vendam infinitos modos de ser feliz são as insatisfações e infelicidades que crescem. O que se percebe, sem muito trabalho de observação, é que na medida em que o mundo de hoje escore cada vez mais suas colunas no “eu”, desconstruindo e até criminalizando atividades de agrupamentos e interesses coletivos, mais as insatisfações, os descontentamentos, as irrealizações se apoderam dos egos. Eis que insanamente se lançam os “eus” feridos sem receios e vergonhas de ferir outros.

Mas, sabe-se, nada surge assim sem mais nem menos. A construção dessas mentalidades muito centradas no “eu” vem de longa data e tomam como amálgama falsas noções de direito, de moral, de felicidade. As responsabilidades são muitas e variadas: os modos de se fazer comunicação; os modos e práticas religiosas, a cultura do consumismo, da negação do outro e do hiperdimensionamento dos interesses egoístas e padronizados, a demonização do diferente, etc.

Escolher a realização do “eu” como único fundamento da felicidade parece ser uma escolha bem “moderninha”, mas bem frágil, contudo.  Contrariamos todas as gerações passadas e todas as nossas grandes tradições religiosas quando conjugamos a felicidade no singular. Desaprendemos a receita do bem-estar. O que nos mantém orientados, flexíveis, amorosos são as construções coletivas: a família, os amigos, os colegas, as comunidades. Diz-se com razão: felicidade é iguaria que se come pela mão dos outros.  Não há outra possibilidade – diríamos mais poeticamente – senão no amor. Ao contrário, no projeto de realização e bem-estar que se ancora no “eu”, o que se tem visto é que a infelicidade se torna respaldo, direito e autorização para arremessar sobre outros esse caldo de infortúnios e aflições, essas pedras de ressentimentos.

Há que se buscar alternativas aos modos agressivos de ser e tais alternativas pressupõem entre outras coisas que não nos sintamos ofendido pela vida quando as coisas não vão bem. Não se sentir ofendido pela vida mesmo que por ela machucado. Não fazer-se ressentido. Não buscar culpados a qualquer custo. A vida é dor e mudança, diríamos com inspirações budistas. Mas no que é difícil, no que nos machuca, no que nos impõe sofrimentos precisaríamos intuir um apelo para a ação benfazeja das mudanças. Estas possibilidades sempre estão fustigando o mundo e as pessoas. Já dizia o estóico romano Marco Aurélio, a perda nada mais é do que mudança, e a mudança é o prazer da natureza.

Dauri Batisti 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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