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A vida é assim: esquenta e esfria, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem

Chega o outono. Os exageros do verão vão vagarosamente cedendo lugar às sutilezas da nova estação. O tempo passa, os ciclos se sucedem, a vida segue. Evidencia-se a impermanência de tudo. E apesar ou por causa da impermanência das coisas temos que seguir adiante. Evidencia-se um chamado a todos: coragem!

E seguir em frente – obviamente, mas não facilmente – significa deixar para trás o que já é do passado. Significa desenvolver a capacidade de dizer adeus a mundos lindos e maravilhosos, mas que se acabaram; despedir-se de quem fomos; desapegar-se de ideias e pensamentos. (Segundo o Budismo o maior desapego não é o das coisas, mas o das ideias, dos modos de ser, das concepções de vida, do próprio ego). Decerto tudo isso não se faz sem esforço. Não nos fazemos outros e novos sem empenho. A vida é um constante chamado à coragem. Bem diz Guimarães Rosa: O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

O tempo da vida é tão somente a somatória de fases que se sucedem, de coisas que acabam e que cedem lugar para que outras brotem. E se assim é a vida, toda feita de fins e recomeços, um primeiro passo, quem sabe, consistiria em dizer apenas sim ao que ela nos propõe. Simples assim. Como se exatamente agora eu tivesse surgido nesse mundo, e tudo o que eu tenho é a vida que se dá a mim agora. Mas haja coragem. Haja coragem de desapegar-se do passado para valorizar a vida que se apresenta no exato momento em que vivo. Queremos sempre mais. Queremos a alegria que já tivemos, a força e o vigor do passado, a agilidade, o sonho e o entusiasmo que existiram. Ou queremos o que imaginamos lá adiante, o que haveremos de ter não sei quando no futuro. E aí, sem a coragem de aceitar o que se apresenta, em luto e enfraquecidos por tudo que já perdemos, incertos do futuro que ainda não nos pertence – quiçá o tenhamos tal qual almejamos algum dia – não poucas vezes somos tomados de medo, desesperança e desânimo. Dizer sim ao que acontece com disposição e coragem para fazer dessa etapa da vida – seja primavera ou outono – o tempo mais pleno de vida possível, o mais denso de sentidos, o mais precioso em intensidades é um desafio e uma necessidade.

Ora, se a vida é toda assinalada por fases, se em meu corpo e alma percebo estas marcas, sei muito bem que o que se dá hoje é tão somente mais um período para o qual eu mesmo me convidei, para o qual o universo me destinou, para o qual Deus me pôs no mundo. Uma estação com suas características e com seus desafios, com suas dores e lutos, não mais nem menos que isso. Um tempo que também, provavelmente, guarde em si festejos nunca festejados, recomeços impensados, colheitas inusitadas.

E sendo assim a vida, um constante chamado a recomeçar, não haverá outra resposta senão a aceitação do desafio posto: dar-se realisticamente à esperança, atuar paciente e persistentemente seguindo adiante. Seja em campo aberto e ensolarado, seja em meio aos escombros ou tateando, há que se procurar a ponta da linha que nos permitirá tecer uma nova etapa. Viver. Com coragem.

Dauri Batisti 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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