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A vida. A resistência.

A atenção que se dava ao capital até umas décadas atrás era mediada pela crença nas instituições. Estas se colocariam como mediadoras, procuradoras, intercessoras, interlocutoras entre ele (o capital/poder) e a vida. A disciplina e o domínio sobre os indivíduos eram exercidos pelas instituições, ao mesmo tempo em que permitiam aos mesmos uma sensação de liberdade e autonomia, exatamente pelo suposto domínio exercido pelos cidadãos sobre as ditas instituições.

Agora, no entanto, as instituições perdem esse espaço intermediário e a vida passa a ser atravessada diretamente pelo poder. Nada mais escapa ao poder e à sua financeirização, seja a ciência, o estado, as mídias, os corpos, os desejos, as almas. A vida está, desde os afetos até os sonhos, desde a linguagem até o psiquismo, regulada diretamente pelo poder. Nem mesmo a fé – como claramente se vê em todos os cantos, religiões, e espiritualidades – está preservada dessa proximidade, dessa força e ação. O que poderia servir de contrapeso ao poder já não existe mais. A vida vai sendo reduzida à sua dimensão zoé (do grego, zoé = vida animal, vida não qualificada, vida reduzida), à sua dimensão mais crua, em que o humano fica apenas como uma leve aparência. (Não por acaso surgem propostas de ração alimentícia para os “humanos”).

Onde e em que instituição poderemos ancorar nossas pretensões? Onde poderemos reforçar nossas criticas? Onde recuperar as forças para nos colocar em campos de resistências a esses poderes? Como pensar para além daquilo que o poder fomenta e incrementa e implanta em todos? Como favorecer processos de subjetivação que escapem desse poderio? Há que se tentar. A situação contemporânea não será devidamente pensada a não ser que a vida seja colocada como seu tema principal. Esse tema precisará ser alocado em todo e qualquer espaço – por menor que seja – que se permita – em urgências – pensamentos, criatividades, fugas e enfrentamentos desses poderes.

Nenhuma atividade do pensamento, da espiritualidade, das artes, das ciências poderá se dispensar desse absoluto e necessário tema: a vida. Nenhuma atividade pessoal e subjetiva poderá se dispensar do questionamento: isso favorece ou prejudica a vida? Isso leva a vida de todos em conta ou não? Isso se submete à vida ou pretende de suas forças se apropriar?

É certo que esse enfrentamento não se dará por uma espécie de romantização da resistência. A poesia, a religião, a música e a arte não se conjugarão – espera-se – com ingenuidades, superficialidades e clichês. Também nem é mais uma questão de esquerda ou direita, de estado protetor ou estado mínimo, de conservadorismo ou liberalismo… Mas de vida ou não vida.

Nenhuma atividade ou atitude poderá se proclamar ética se não colocar a vida como parâmetro primeiro de todo pensamento e ação. Nenhum empreendedorismo poderá se propor tal alcunha se dispensar a vida como horizonte a nortear tal empreendimento. Nenhuma crença em Deus poderá se proclamar como tal sem tomar acima de toda e qualquer nomeação da divindade aquela que o proclama – sem titubeio e arranjos “teológicos” – o Deus da vida.

Eis, portanto, um apelo: resistir. Resistir ao treinamento, aos discursos que ignoram complexidades e tecem imbecilidades. Resistir à opinião corrente, aos produtos, às coisas que se querem consumidas pelas almas para delas se apropriarem. Resistir às armas, resistir aos armados, resistir aos propagadores do medo. Resistir. Resistir para dar vazão às forças da vida, às suas singularidades e diferenciações. Resistir para acostumar outras palavras no palato, as doces e delicadas, gentis e construtoras. Resistir com pensamentos incompletos, e completados pelo dos outros nas conversas destituídas da presunção de ponto final.

Dauri Batisti
Padre, psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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