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“A viagem mais comprida, meu irmão, é a viagem da cabeça ao coração”

*Canção do Pe. Antônio Maria

Ao ler o verso poético do Padre Antônio Maria e ao ser solicitado pela amiga jornalista Maria da Luz para tecer um comentário, como poeta, posso até concordar, mas  na minha caminhada de quase quarenta anos com a poesia e a música, tenho tentado, a cada dia, ir superando as dicotomias e costurando aquilo que, no íntimo de minha alma, vem como desafio permanente para a retomada de uma estrada ou mesmo de uma viagem que me leve ao reencontro com bases culturais nativas, tribais, onde o Ser Humano, seja UM em si mesmo e, UNO, com todas criaturas, habitantes do que hoje, o próprio Papa Francisco, em sua Carta, Laudato Si, chama de Casa Comum.

A cultura ocidental que nos foi imposta, com suas características fortemente dualistas, esfacela e divide tanta coisa dentro de nossas mentes, costumes, artes e culturas, alimentando ideologias, doutrinas e princípios filosóficos, políticos, religiosos, em contraposição, formando pessoas em guerra consigo e sociedades em permanente competições e confrontos.

Na medicina, a cada dia, nasce uma nova especialidade, com mais um profissional para cuidar de tal ou tal órgão. O Clínico Geral, que cuida do corpo como um todo se torna cada dia mais escasso.

Em contrapartida, o tempo da informatização, da globalização, está aqui, dentro de nós e de nossas histórias pessoais e, da grande aventura da humanidade, de nós-planeta, corpo vivo e intrinsecamente ligado, desde sempre e para sempre, conforme obra magnífica da Graça Criadora.

A ditadura do mercado arrasta cada vez mais multidões de indivíduos, doentes de consumismo, de uma diversidade de coisas opostas e venenosas, de produtos criados em escala cada vez mais ampla, gerando seres individualistas, arrogantes e egoístas, que apostam cada vez mais na competição e no distanciamento. Esfacelados em si mesmos, aumentando sempre mais o fosso, entre sua “cabeça” e seu “coração”, superlotando ruas, shoppings centers e templos, numa procura desenfreada de satisfação, de desejos, de caprichos desajuizados e, de curas e perdão. Sem o despertar para o Evangelho da Misericórdia e da Comunhão, nos perdemos na grande distância cantada pelo sacerdote poeta.

Quando compus a canção Utopia, em 1982, visualizei, como ainda hoje, a queda e superação de cercas e muros, da divisão. Senti-me porta-voz de muita gente sedenta de união verdadeira, da mesa cheia, para a partilha sagrada do abraço, do olhar-se frente a frente, sem ódio, nem falsamente, da comida com sabor do Reino Divino, porque compartilhada.

No mais recente CD, ‘Zé Vicente da Esperança’ o mote dessa conexão profunda, dessa intimidade cabeça-coração está presente, com o que pude expor de fé e sincera busca.

Na música ‘Humana Prece’ insisto emocionado:

“Humana prece a Ti, meu Deus/ que estás aqui bem dentro/ e muito além de todos nós! / Humilde súplica ao Ser Humano/, pra gente não esquecer da luz do amor que nos gerou. / Criaturas do Universo, da terra e das águas/ irmão, irmã de toda cria/ e do vento e, do luar/. Ó dá-nos compreender, sentir, plantar, cuidar…/Não sou dono da Vida/ a Vida és Tu, meu Deus, meu ar!”

Neste momento de nossa história, brasileira e mundial, a humanidade está carente por demais, de pessoas, grupos e instituições que assumam humildemente o grande serviço da aproximação, do respeito nas diferenças, garantindo, pelo testemunho e pelos atos, a mais urgente referência de todos nós: o Amor, que move para o cuidado e a conexão das cabeças e dos corações, para a salvação deste apaixonante Planeta que somos.

Zé Vicente
Poeta-cantor da Caminhada Popular

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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