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A tentação de Cristandade

Religião, se bem vivida, é pedagogia para uma mística da relação e do diálogo e deve educar a gente para um amor sempre maior, colaborar para uma ótica ampliada e inclusiva sobre a realidade e, em decorrência, para a dilatação das fronteiras de nossos valores. A gente cuida amorosamente daquilo que reconhece como relacionado: da florzinha ao cosmos, do parente ao pobre, ao outro cultural e ao estranho moral. Bem entendidas, as religiões fazem variações da experiência de descentramento e busca de religação com a transcendência, de reconhecimento de si em tudo e todos como partes da grande teia da vida, de sentimento oceânico e reverência pelo mistério da realidade – o que ajuda na formação de pessoas e comunidades saudáveis e respeitosas.

Mas, às vezes, na prática a teoria é outra e, igualmente a “educadores” reacionários, religiosos cristãos caem por vezes na tentação de evangelizar não pelo diálogo e pela convicção, mas pela tradição e pela força, recorrendo à parceria entre Igreja e Estado que caracterizou a Cristandade para, supostamente, proteger a religião cristã. Cristandade foi a inserção da Igreja no mundo político do Império Romano, desde o século IV, tendo se cristalizado graças a Gregório VII e sua luta para defender-se dos Príncipes, a partir do ano 1000. Aí se passou de uma Igreja-comunidade, para uma Igreja cujas autoridades apadrinhavam e eram apadrinhadas das autoridades políticas, normalmente eliminando outras tradições espirituais e submetendo todo mundo à doutrina e liturgia cristã. Foi esse cristianismo de Padroado que chegou ao Brasil com a colonização ibérica.

Hoje temos outros desenvolvimentos pedagógicos, políticos e religiosos, com o surgimento do Estado liberal nas Repúblicas modernas, onde há liberdade de religião e convicção, onde se respeita a diversidade cultural e os Direitos Humanos. A Laicidade, então, é um princípio político republicano que rejeita a influência da religião na esfera pública do Estado. A Constituição Brasileira assegura o direito à liberdade religiosa dos cidadãos e proíbe Igrejas estatais e relação de dependência, imposição ou aliança de autoridades com líderes religiosos, com exceção de colaboração de interesse público, na forma da lei. O direito de criticar dogmas e crenças, de quaisquer tradições, é assegurado como liberdade de expressão pela República. Mas tratamento diferenciado ou agressivo a alguém em função de crença ou descrença é crime: discriminação religiosa é inafiançável e imprescritível, com pena de prisão por um a três anos e multa.

Numa sociedade democrática, as pessoas religiosas devem discutir os problemas sociais à luz de sua tradição e textos ou narrativas sagradas, atualizando e aprofundando valores humanos que, então, os seus líderes comunitários e lideranças políticas podem (de forma autônoma e madura, e não em nome de Igrejas ou para uma Igreja hegemônica) traduzir em argumentos racionais para o debate público, em favor do bem comum. Ao mesmo tempo, para uma sociedade crescer, mesmo economicamente, está claro que o governo deve controlar o proselitismo religioso e regrar o uso de símbolos religiosos em espaços estatais, além de não submeter questões legais comuns, como a educação dos fatos religiosos, a interesses de alguma religião privilegiada.

Mas saltam aos olhos as tentativas de manipulação da liberdade religiosa para catequeses e celebrações proselitistas, em escolas e até em parlamentos, e o crescimento de fundamentalismos religiosos criando um fechamento moral que serve de cortina para projetos de liberalização econômica e dominação político-popular. Todos somos chamados, pois, a esclarecer o lugar das religiosidades no espaço público, que inclui o aprofundamento do conceito de Laicidade e o equacionamento da relação entre liberdade de expressão e liberdade religiosa, enquanto direitos fundamentais.

A laicidade no Brasil é mais de compromisso do que de princípio e convivemos com uma aparente contradição entre os Direitos Humanos laicos e as Teologias Políticas das religiões, entre as causas modernas do feminismo e das novas sexualidades, então, e a tradicional defesa da vida empreendida pelas Igrejas. Existe, de fato, um paradoxo entre o pluralismo cultural e religioso contemporâneo e a unidade doutrinal e o afã apologético, reivindicados por certos grupos e pessoas de fé.

Mas apostamos na possibilidade de uma concepção contra hegemônica do movimento de Direitos Humanos e acreditamos ser possível ativar as suas possíveis relações com as Teologias Públicas de grupos libertários das várias linhagens espirituais (como foi ensaiado na Declaração Universal dos Direitos da Pessoa pelas Religiões do Mundo – http://worldsreligions2016.org).

Na contramão dessa busca por um cristianismo mais consciente e consequente, evangélicos fundamentalistas e católicos integralistas, que são concorrentes no mercado religioso, unem-se “ecumenicamente” contra o ecumenismo e o diálogo entre as religiões e filosofias de vida, contra imigrantes e muçulmanos, contra direitos reprodutivos e gays, unem-se pela catequese cristã nas escolas e contra o Ensino Religioso laico e republicano, pela “liberdade religiosa” entendida como direito ao proselitismo intolerante e à ocupação do espaço público pela “bíblia”. A religião está sendo manipulada por poderosos e fanáticos que se aproveitam do medo das transições culturais para aumentar o controle sobre “deus e o mundo”.

Uma geração de profetas, mártires e santos parece dar lugar a grupos moderninhos na aparência e reacionários nas entranhas, para quem a ortodoxia cristã serve como retórica estética – escondendo seu desprezo pelos pobres e pela ética, mascarando um amplo projeto de dominação política e exploração econômica do mundo (ou os planos mesquinhos de invídia e de vil perversão mesmo). Contra a teologia da libertação e a democracia liberal, chegam os “libertarianos” da “ortodoxia radical”: são financiados pelo capitalismo neoliberal, manobram o direito e usam bem a mídia, odeiam o Papa Francisco e as comunidades cristãs de base. Também na religião, corremos o risco de nova Idade Média, pela tentação de nova Cristandade. Precisamos tanto “terapeutizar” as experiências religiosas, em vista de um mundo mais humano, quanto espiritualizar o humanismo, para ajudar a formar pessoas e comunidades mais divinas!

Gilbraz Aragão
Teólogo e professor da UNICAP

 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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