buscar
por

A partilha nasce da profundidade da alma

Trecho da homilia de Dom Dario Campos, Arcebispo Metropolitano na Festa de Corpus Christi em 20 de junho de 2019 na Catedral de Vitória.

A Solenidade de Corpus Christi é uma Festa que ocorre sempre na quinta feira depois da Celebração da Santíssima Trindade, ou sessenta dias depois da Páscoa, aproximando o mistério do Deus Trino ao Mistério Pascal de Cristo, que deu a vida por nós. Segundo dados históricos, essa festa foi instituída na Igreja pelo Papa Urbano IV, no século XIII, mais precisamente em 1264. Antes de ser oficializada no calendário da Igreja Católica, ela já era celebrada no meio popular, de modo devocional. Dizem que uma religiosa belga, Juliana de Corellon, em 1193, teve uma visão da Virgem Maria pedindo para que ela realizasse uma grande festa em honra do Corpo de Cristo na Eucaristia. Assim, a Festa passou a ser realizada no convento, depois entre as pessoas, como aconteceu com muitas festas populares, de cunho devocional.  A sua oficialização, porém deu-se anos mais tarde, quase um século depois. Desse modo a Celebração de Corpus Christi nasce da devoção popular e, por se tratar de algo essencial da nossa doutrina e da nossa fé, foi adotada e oficializada pela Igreja. Com o passar dos anos, foi adquirindo outras características, de acordo com cada região onde é celebrada. No Brasil, ela se destaca pelos tapetes que são confeccionados nas ruas ou nas igrejas por onde irá passar a procissão com o Santíssimo Sacramento no ostensório, cujo gesto possui um significado muito interessante.

A celebração do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, também conhecida como celebração de Corpus Christi, é uma celebração que nos remete à partilha, à solidariedade, ao compromisso com a vida, doando a própria vida para que outros também a tenham, como Jesus fez e do qual fazemos memória na Eucaristia. Não podemos fazer dessa celebração apenas um ato devocional, da piedade popular, como era hà séculos atrás, mas devemos resgatar aquilo que ela tem de essencial: a memória pascal, a doação da vida para que todos tenham vida, enfim a partilha. Quando falamos de partilha, não nos referimos apenas à partilha de bens materiais ou de alimentos, mas de dons e da própria vida. Uma partilha, para ser verdadeiramente transformadora, precisa ser integral, vir da profundidade da alma, como um gesto de conversão, e não apenas, para desencargo de consciência, como muitos fazem.

Assim sendo, a Liturgia da Palavra desse dia traz o tema da partilha em todas as suas instâncias, do alimento à vida, passando pelos dons e talentos que cada um tem. Ou seja, doação total.

São Paulo ensina que o pão e o vinho da última ceia de Jesus com seus discípulos configuram o próprio Corpo e Sangue de Jesus dado ao mundo, para que todos pudessem dele se alimentar e ter vida em plenitude. Esse pão partilhado é a própria vida doada. Desse modo, quando Jesus ensina a partilhar, ele ensina a dar a vida pelos irmãos. É esse o sentido teológico da multiplicação dos pães que temos no Evangelho de São Lucas 9, 11b-17. Porém, só dará a vida, ou seja, só vai partilhar daquilo que tem de essencial, aquele que tiver compaixão no seu coração. Por essa razão, o Evangelho começa mostrando que Jesus e seus discípulos estão diante de uma multidão de necessitados e essa multidão não tem o que comer. Eles têm fome de pão e da Palavra, e dispensá-los para comprarem comida é o mesmo que dispensá-los da Palavra para saciarem sua fome em outro lugar, com outras coisas. Além disso, esse pão não pode ser comprado, ele precisa ser doado, partilhado, pois somente assim gerará vida. Pão que é comprado não é pão partilhado. E pão que não é partilhado não sacia a fome, ou seja, não acaba com a miséria. Muitas vezes somos tentados a dispensar as pessoas para procurarem em outros lugares, pois não queremos ser incomodados. A primeira tentação dos discípulos, diante da constatação de que já era tarde e a multidão não tinha o que comer, foi dispensá-los para irem comprar pão. Mas Jesus, movido pela compaixão, não permite isso e chama a atenção deles: “Vocês têm que dar-lhes de comer”. Isto é, eram eles que tinham que solucionar o problema e não passá-lo adiante para que outros resolvessem, ou simplesmente se livrar deles, dispensando-os.

Como discípulos e missionários de Jesus Cristo, pessoas que comungam do seu Corpo e Sangue, nós não podemos nos acomodar e negligenciar os clamores e necessidades do povo. Precisamos fazer algo urgentemente. Foi o que Jesus propôs aos discípulos. Os discípulos disseram que tinham apenas cinco pães e dois peixes. E Jesus diz que esse pouco precisa ser partilhado. Enquanto cada um estiver agarrado ao pouco que tem e não partilhar, muitos não terão nada. A soma dos cinco pães e dois peixes são sete. Sete é o número da perfeição. A partilha é sinal da perfeição. Somente partilhando teremos um mundo perfeito, sem misérias e miseráveis. Quando os discípulos obedecem, o milagre acontece. Todos comem, ficam satisfeitos e ainda sobra. Ou seja, se ainda há fome no mundo, é sinal de que ainda não há partilha, não há vida. Foi o que Jesus partilhou, doando sua vida por nós. Assim ao celebrar o Corpos e sangue de Cristo, fazemos memória dessa doação suprema, para que nunca tenhamos resistência em partilhar, mesmo que tenhamos pouco, PIS como diz uma expressão popular, “o pouco com Deus é muito”. E é exatamente o que nos mostra o Texto de São Lucas. O pouco que os discípulos tinham tornou-se muito, tornou-se o suficiente para saciar a multidão e ainda sobrar.

Dom Dario Campos, ofm
Arcebispo Metropolitano de Vitória

 

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS