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“A Palavra que não tem como consequência atos de misericórdia é vazia”

Dom Claudio Hummes esteve ao lado do Papa Francisco no Conclave que elegeu o pontífice. Nesta entrevista o cardeal fala sobre as surpresas de Francisco e os desafios que ainda precisam ser superados.

vitória – O Papa Francisco tem surpreendido muitas pessoas. Surpreendeu o senhor também?

Dom Claudio – Com certeza! Surpreende a todo mundo. E ele acrescenta sempre que precisamos estar abertos para as surpresas de Deus. O papa é um homem surpreendente e nós devemos estar muito abertos às surpresas de Deus.

 

vitória – O Papa fala bastante de uma Igreja em saída. Este é o perfil dele, um papa em saída?

Dom Claudio – Sim, ele sempre foi muito insistente nesta questão. Isso significa duas coisas. Em primeiro lugar, que nós sejamos capazes de sair do nosso eu, de sempre termos a nós mesmos como o foco central. O mundo ensina que você cuide de si mesmo, “afinal de contas os outros pouco  importam”, “sou eu que devo cuidar de mim”. Isso é o mundanismo que o Papa fala. Uma igreja em saída, para ele, também tem o sentido missionário, que vai para encontrar a todos. Porém, existem as prioridades, que são as periferias, ou seja, as pessoas mais pobres, excluídas, abandonadas, descartadas, humilhadas, esquecidas, desempregadas, passando fome e outras misérias. A Igreja deve ir sobretudo ao encontro dessa gente sofrida, ouvir o grito, o clamor deste povo,  não para sobrecarregá–lo com mais peso, como se a religião fosse um monte de prescrições. Não! Ir para consolar, encorajar, abraçar, ajudar as pessoas a caminhar, estar junto, orientar, acender luzes nas noites dessas pessoas. Isso para ele é ser uma Igreja missionária, em saída e misericordiosa, porque nós saímos para fazer misericórdia, não só para pregar. A Palavra que não tem como consequência atos de misericórdia é vazia, é morta.

 

vitória – Essas questões sempre fizeram parte das reflexões do Papa?

Dom Claudio – Eu acabei o conhecendo de perto na 5ª Conferência Episcopal Latino-Americana, em Aparecida, em 2007. Eu estava em Roma na época e vim para esta conferência. Trabalhamos na mesma comissão, que era a comissão mais decisiva, mais determinante do texto, então o conheci mais neste trabalho que fizemos juntos de 20 dias. Era um trabalho duro, muito pesado.

 

vitória – O Papa promulgou o Ano da Misericórdia. O que o senhor acha que ele pretende?

Dom Claudio – Ele diz no texto em que proclama o Ano Santo, muito delicadamente, que talvez a Igreja tenha por demasiado tempo deixado de pôr no centro a misericórdia. Uma das grandes metas dele é fazer a Igreja entender de novo porque a misericórdia deve estar no centro. Ela faz a diferença nesse mundo, que não é misericordioso, é egoísta, individualista, explorador, opressor. O Papa está dizendo que não basta dizer uma palavrinha piedosa para praticar a misericórdia. A Igreja se quiser ser mais fiel a Jesus Cristo, tem que voltar a ser muito mais uma Igreja da misericórdia, que acredita na misericórdia de Deus que nos perdoa, e que pratica a misericórdia com os outros. O Ano Santo é para fazer disso um foco de reflexão, avaliação da nossa vida, da nossa prática, mas também para reaprendermos a praticar isso, porque é muito fácil você dizer ‘Ah, tem que ir lá na periferia’, mas você nunca vai, você manda os outros. O Ano Santo é um percurso pedagógico de renovação da Igreja.

 

vitória – Qual a reflexão esperada ao fim deste Ano Santo?

Dom Claudio – Como você enfoca a sua vida? Como você vê o pobre? Como é a sua responsabilidade para com os pobres? Como sente dentro de você a coragem de ir até os pobres? Como a sua comunidade faz isso? O padre, por exemplo, precisa levar a sua comunidade a isso, a família devia levar os seus filhos, a escola católica tem que educar nessa direção. Essas coisas que tem que começar a acontecer, porque o fim do Ano da Misericórdia não será o final. Esse ano é para começar uma forma renovada de ser Igreja que pratica a misericórdia. E com isso dar ao mundo uma interpelação. A Igreja tem que sair e caminhar com história, com a humanidade, para frente, nem permanecer parada, nem ir para trás.

 

vitória – Muitos chamam o Papa Francisco de revolucionário. O que o senhor acha que ele tem de diferente dos demais?

Dom Claudio – Acho que todos os papas são diferentes um dos outros e isso é uma grande riqueza para a Igreja, porque ninguém esgota o Evangelho. Então cada um abre novos caminhos. A Igreja sempre é interpelada pelas questões humanas e tem que iluminar a partir de Jesus Cristo sobre essa realidade humana. Mas ela acaba também interpelando a sociedade, porque vive valores diferentes do mundanismo.

 

vitória – Mas este Papa parece ter um apelo maior… qual o diferencial do Papa Francisco?

Dom Claudio – Eu acho que é essa questão de caminhar, de sair, uma Igreja que não fica satisfeita porque está cheia ou quase cheia e diz: ‘eu estou bem na minha paróquia, eu cumpro todas as normas, disciplinas da Igreja, minha igreja tem bastante gente então eu estou bem’. O papa diz: ‘então você não está bem’.  Jesus Cristo nos deu esse encargo de caminhar junto, de iluminar, de conduzir, consolar, encorajar as pessoas, dar a elas a certeza de que Deus não está distante, as ama, não as abandonou. Isso significa que você nunca pode dizer ‘agora está terminado, eu estou bem’. Você não foi feito padre de uma paróquia ou bispo de uma diocese para ter bastante gente na sua comunidade e achar que está tudo bem. Aí as coisas estão mal, diz o Papa. Pensar isso é um diferencial muito grande e ele vai nessa direção.

 

vitória – Quais os desafios que a sociedade enfrenta e o Papa tem se empenhado em tratar?

Dom Claudio – A questão da pobreza é fundamental, ele mesmo diz que escolheu o nome Francisco porque São Francisco é o santo dos pobres. Será que o mundo está interessado em resolver os problemas dos pobres? A caravana vai, a caravana do progresso humano, daqueles que podem, daqueles que têm, mas quem não consegue acompanhar fica de lado, é empurrado para fora. O mundo acha que é um peso demasiado, porque isso vai atrasar a caravana. Por isso é preciso falar, é preciso gritar que todos têm direitos, que ninguém pode ser descartado, marginalizado, o mundo deve incluir a todos. É uma pregação constante, um interpelar, mexer com a consciência de quem tem poder, e isso é uma questão fundamental para ele.  São Francisco de Assis também é o santo da paz. Logo no início do pontificado dele, quando fez aquela vigília na Praça São Pedro rezando pela paz, havia um risco dos EUA fazer uma intervenção militar naqueles países do centro da Europa. O Papa convocou os cristãos em Roma e ficaram seis horas rezando pela paz. Ele foi à ONU por causa da paz, nos locais onde existem conflitos. O Papa está sempre trabalhando nesta frente de construir a paz. Em terceiro lugar, São Francisco de Assis é o santo da criação, da natureza, da preservação e aí o Papa tem outra meta. Ele publicou a encíclica sobre a ecologia que teve um impacto muito grande. Ela foi muito bem escrita e tem base científica. É outro grande desafio que ele quer que a Igreja se envolva. São grandes metas, desafios e interpelações que o Papa faz à sociedade, não no sentido de polemizar, mas de querer acender luzes, encorajar e dizer que nós temos que trabalhar juntos.

 

vitória – E essas interpelações do Papa, o senhor acredita que têm surtido efeito?

Dom Claudio – Sim! Em Paris, na Conferência sobre o Clima, por exemplo, a encíclica era citada como algo que deve nos ajudar a tomar decisões e iniciar o processo de reverter o que existe. E como você pode reverter? Tem que tirar as causas. As maiores são as energias provenientes de fósseis, que uma vez queimados produzem dióxido de carbônico, o principal que produz o efeito estufa. E você imagina o que significa trocar o petróleo por outras coisas? Quando o mundo todo é movido a petróleo? Quando existem companhias internacionais de uma força imensa que nunca vão querer que se mexa com o petróleo? E aí o Papa diz que a sociedade tem que se unir e dar força aos governos para que eles determinem que se faça, porque senão os governos não terão forças contra esses aglomerados que comandam o mundo.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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