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A música calada

“Contratempo” é o nome de um documentário onde há depoimentos de jovens moradores de favelas do Rio de Janeiro que encontraram na música o sentido e rumo para a própria vida.

Uma jovenzinha, com os olhos marejados e a voz embargada, conta que diante da morte do seu irmão que morreu “daquele jeito”, ela agarrou-se ao violoncelo e tocava dia e noite para não pensar em nada, para não enlouquecer. Até hoje, disse ela, quando estou tocando, falo o que estou sentindo para o violoncelo e ele expressa e amplifica meus sentimentos para o auditório.

A Liturgia é o violoncelo da Igreja. A Liturgia possui muitos componentes: Palavra de Deus, Eucaristia, demais sacramentos e sacramentais, símbolos, expressões artísticas, etc.

A Liturgia deve ser como um violoncelo afinado e tocado com aptidão e com alma. A Liturgia desafinada é aquela mal preparada, improvisada. A Liturgia com aptidão e com alma é aquela onde o fiel deseja sinceramente encontrar-se com Deus para abrir-lhe o coração, falar as suas angústias e dores, louvar e agradecer as inúmeras graças recebidas, adorar o Senhor Deus reconhecendo-lhe toda honra e toda glória.

A alma da Liturgia é o Espírito Santo de Deus e não as nossas emoções, nossas reflexões ou nossa criatividade. Embora tudo isso faça parte da nossa participação na Liturgia. Mas, é o som do violoncelo, provocado pelos toques do músico, que contagiam,  tocam e transformam todos os ambientes da alma humana. O músico toca com as mãos o instrumento e o instrumento toca a alma com o som. Também a Liturgia é realizada com as mãos humanas, mas, o toque transformador na alma é feito pelo invisível e poderoso som do Espírito Santo.

A presença e ação de Deus, tanto nas Escrituras como na História, manifestam-se frequentemente em meio a sons: trovão, estrondo, sibilo da brisa suave e mansa. O grande místico carmelita São João da Cruz descreveu a “música calada” como “conhecimento sossegado e tranquilo, sem ruído de vozes; onde a alma repousando no Deus Amado sente ao mesmo tempo a suavidade da música e a quietude do silêncio” (Cant. Esp. XV, 25).

Dom Rubens Sevilha, ocd
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Vitória

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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