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A maior idade e seu cuidado

Todos sabemos que o número de idosos tem aumentado significativamente. O cuidado com as pessoas idosas torna-se uma exigência social. Até há poucas décadas, a ociosidade da juventude era um problema para a sociedade e motivo de preocupação para os adultos.

Nesta situação de crise ética e econômica, tanto a juventude quanto a maior idade exigem melhor atenção de uma nação como a nossa.

De um lado, o desafio da educação para a vida, a educação para a liberdade, a transmissão de valores éticos para as crianças, adolescentes e jovens jamais poderão ser esquecidos. As crianças, adolescentes e jovens aprendem a ler e escrever, mas recebem pouco ou quase nada sobre o valor da vida, o respeito a si mesmo e ao seu semelhante. Perdeu-se na busca de um ideal que dê sentido e ajude a superar desafios relacionais, seja perante o semelhante, seja perante o ambiente onde vive, seja diante de Deus como sua origem, sua força e seu horizonte de felicidade. Pouco aprendem de como ver e ler a realidade da vida que levam de uma maneira consciente, capaz de uma análise crítica perante o que está ao seu redor ou à sua frente.

De outro lado, o idoso que não aprendeu a envelhecer. Muitas vezes não sabe aceitar seus limites, sente-se marginalizado, desconhecido; vê sua vida desaparecendo como um peso inútil numa sociedade egoísta, materialista; sente-se uma matéria inútil e estragada diante das pessoas dinâmicas, empreendedoras. Ele passa o tempo querendo viver, mas despreza a vida pelo olhar e coração pessimistas a respeito de si mesmo.

Penso que tanto a criança, o adolescente, o jovem quanto o idoso têm carência, entre tantos, de um único ensinamento que provocará neles uma verdadeira revolução vital. Os iniciantes na escola da vida passarão a ser aprendizes e promotores da vida e dos valores que justificam a alegria de viver, a coragem de vencer obstáculos, a energia de superação das diversas etapas de uma bela caminhada em direção à plenitude da vida feliz.

 Já os idosos estarão numa etapa de vida invejável, possuidores e detentores da capacidade de saborear cada momento da vida, seja diante do semelhante criança, adolescente, adulto ou idoso como ele. Seus olhos não brilham como o de uma criança, mas enxergam o que ela não é capaz de ver e saborear por causa da sua tenra idade e do pouco aprendizado do viver.

O coração do idoso não é espaço para a amargura, mas para a interiorização saborosa de uma vida de grandes experiências, capaz de ajudar a quem ainda não consegue ler os fatos com liberdade e sabedoria.

Pois bem, este ensinamento indispensável em todas as etapas da vida, sem a qual não se chegará a bom termo, é o dom da sabedoria.

Este dom natural da sabedoria deve ser vivido, experimentado, iniciado e continuado desde o ventre de nossa mãezinha querida. Quanto se aprende nos meses de gestação! Quanto se aprende nos meses e anos de amamentação! É a escola da vida na sabedoria, a qual é adquirida com a fé viva dos pais, desde a gestação, continuada nas diversas etapas da maturação humana e cristã até a maior idade, ponto alto da esperança, da solidez da fé, da experiência da vida amadurecida no Amor.  É a sabedoria que une todas as etapas da vida. Por isso, a comunidade humana como comunidade litúrgica são heterogêneas por essência e se enriquecem na pluralidade deste encontro contínuo desde a gestação até o entardecer da vida.

Portanto, só poderemos cuidar dos idosos se soubermos cuidar das pessoas que ainda estão no primeiro período de vida, seguido das demais etapas. “Senhor, tu me sondas e conheces: conheces meu sentar e meu levantar, de longe penetras o meu pensamento; examinas o meu andar, meus caminhos todos são familiares a ti” (Sl 139/138).

Quando aprendemos a cuidar da vida aprendemos que Deus cuida de nós!

Dom Luiz Mancilha Vilela, ss.cc.
Arcebispo Metropolitano de Vitória

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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