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A INTOLERÂNCIA E A IGREJA

“A tolerância deve ser uma fase transitória. Deve conduzir ao respeito. Tolerância é ofensa” (Goethe)

O contrário da intolerância não devia ser a tolerância, mas o respeito. Acontece que nem tolerar a gente tem conseguido mais na cultura brasileira. Tolerância tem a ver com a primeira onda dos Direitos Humanos, que antecedeu a sua Declaração Universal. Hoje já estamos no seu quinto ciclo, dos direitos da era digital em um mundo interconectado e complexo, em que diálogo e coexistência apontariam melhor o caminho das relações sociais, interculturais e inter-religiosas.

A tolerância que é fundada na identidade representa a atitude do conquistador e colonizador, que vê os diferentes como inferiores, ainda que úteis, e a absolutização da identidade está presente em posturas fundamentalistas de caráter político, religioso, ideológico. A tolerância fundada na diversidade relativiza todos os valores culturais e, nesse caso, não existem limites para a tolerância, não existe o intolerável.

Por isso, há tentativas de ressignificação do conceito, como se fez no Encontro sobre a Tolerância na América Latina e no Caribe, de 1994, no Rio de Janeiro: “Deixamos claro que – para os povos marginalizados que somos – tolerância tem primeiro um sentido de libertação de todas as formas de intolerância sofridas nos últimos quinhentos anos de história. Libertação significa não apenas a valorização de nossas tradições vilipendiadas, mas a busca de novas identidades a serem respeitadas em seus processos de autodeterminação. Significa também poder participar de uma utopia comum na pluralidade das histórias humanas que garanta a unidade na diversidade. Aí sim a tolerância não é só possível, mas necessária”.

Porém, cresce a intolerância no mundo e no Brasil. Os embates políticos fervorosos, sobretudo entre a gente agora, a agressividade contra imigrantes, os episódios recorrentes e racismo e a hostilização contra mulheres e membros da comunidade LGBT. Todos têm como ponto de convergência a intolerância, que ressurge com mais força nos últimos tempos, potencializada pela rapidez e visibilidade das tecnologias da informação.

Junte-se a isso a intransigência religiosa. As denúncias de discriminação religiosa recebidas pelo Disque/Clique 100 atingiram no ano de 2015 seu maior número: foram 556 casos reportados ao serviço do Ministério de Direitos Humanos. A maioria dos fatos envolve o Povo de Santo das religiões afro-indígenas-brasileiras, com imprecações cristãs contra os seus Terreiros e agressões aos seus símbolos e aos seus membros. Não é à toa que o 21 de janeiro é Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, justo por causa da morte de Mãe Gilda, do candomblé da Bahia, vítima de agressões por cristãos.

Pessoas evangélicas, muçulmanas e ciganas também foram agredidas, mas a intolerância religiosa no Brasil é muito racista e classista, refletindo uma negação da distribuição equânime dos Bens Comuns: valores cristãos são usurpados para se matar deuses e deusas dos índios e negros – e depois tirar suas terras ou desarticular suas lutas por direitos e dignidade. Ademais, há um crescente pluralismo religioso entre nós, onde a democracia e a laicidade criam espaço para o ressurgimento de tradições místicas e a concorrência entre grupos que oferecem caminhos espirituais alternativos para a vida das pessoas – só que em áreas pouco cobertas pelo Estado existem lideranças que simplesmente eliminam os concorrentes pela força. Há também outro componente: um movimento fundamentalista que cresce nas novas igrejas cristãs por aqui, como entre muçulmanos que migram do Oriente para o Ocidente, em que o desejo de grupos periféricos pelo consumo da cultura moderna vai se transmudando em ódio, aversão à ciência e à liberdade, perseguição de religiosidades e interpretações diferentes.

Então a intolerância religiosa tem outros componentes, políticos e culturais, e não se restringe ao fundamentalismo islâmico, como aparece na mídia. Aliás, o termo fundamentalismo vem mesmo é dos protestantes norte-americanos, os quais lá no século XX, criaram um movimento político-teológico para combater os cristãos liberais, que praticam uma interpretação da Bíblia informada cientificamente e aceitam as causas modernas do feminismo e do socialismo.

Esse fundamentalismo gringo cria entre nós um conservadorismo moral, usado para acobertar um projeto autoritário de liberalismo econômico e exploração popular.

Há cinquenta anos o papa Paulo VI assinava a declaração Nostra Aetate no Vaticano II, que assim concluía: “A Igreja reprova, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou religião. Consequentemente, o sagrado Concílio, seguindo os exemplos dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, pede ardentemente aos cristãos que observem uma boa conduta no meio dos homens. E tenham paz com todos, de modo que sejam na verdade filhos do Pai que está nos céus” .

Mas, ainda estamos no caminho dessa colaboração efetiva para a cultura de paz. Boa parte da humanidade já ultrapassou uma visão mágica da espiritualidade (por exemplo, Jesus altera o mundo milagrosamente e atende as minhas preces por prosperidade e riqueza) e também uma visão mítica das coisas (segundo a qual Jesus traz a verdade eterna sobre tudo – e contra todos os que não têm fé nele). Para essas visões simplórias é que faz sentido o proselitismo com o texto sagrado.

Hoje, as pessoas mais amadurecidas têm uma crença mais razoável (se sigo a Jesus, posso encontrar uma vida boa, verdadeira e abençoada pelo seu caminho de amor, mas entendo que outros possam igualmente descobrir outras espiritualidades válidas) e até mais pluralista (há algo da consciência de Cristo em todos os seres e culturas, sendo o cristianismo uma de suas interpretações) e inclusive mais integral (a espiritualidade também se verifica na profundidade da observação científica e nas relações intersubjetivas profundas, podendo-se mesmo conceber uma “missa sobre o mundo” para além das místicas explicitamente eclesiais).

Nessa perspectiva hermenêutica, aquilo que os cristãos, por exemplo, chamam de revelação, é entendido como verdadeira pedagogia divina: é o Espírito que nos permite interpretar os “sinais dos tempos” e, numa certa altura do esperançoso compromisso prático para com a defesa da vida no mundo, acreditarmos que aquele grito que despertou a nossa práxis de amor é sagrado, ou seja, percebermos que dentro de nossa relação amorosa fala-nos processualmente uma palavra diferente, que causa diferença na vida, no sentido de uma qualidade humana mais profunda, de uma existência descentrada de si. De forma que, mesmo para um cristão, a Palavra de Deus não está presente só nos “livros sagrados”, nem somente na literatura cristã.

Gilbraz Aragão
Professor da UNICAP, coordenador do Observatório das Religiões www.unicap.br/observatorio2

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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