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A Formação Política na Igreja Católica

A Igreja Católica, assim como outras instituições, passou por vários ciclos ao longo de sua história. São períodos diferentes, ora subordinada ao poder político/econômico dominante, ora conciliadora, ora articuladora das forças de resistência aos sistemas de dominação e opressão.  Esta última foi a opção assumida pela Igreja Católica na América Latina, após o Concílio Ecumênico Vaticano II, em 1965, em apoio à sociedade civil na luta pela defesa dos direitos humanos, das liberdades democráticas, da reforma agrária, dos direitos dos trabalhadores e da redemocratização, e iniciou um profundo processo de formação política nas bases da igreja. Tudo isso resultou na Teologia da Libertação.

O Concílio realizado entre 1962 e 1965, foi convocado pelo papa João XXIII, para debater questões delicadas para os católicos, mas que fez nascer uma igreja mais moderna, progressista. Após o Concílio, os debates são aprofundados nas Conferências Episcopais Latino-Americanas, realizadas em Medellín, Colômbia, em 1968; em Puebla, México em 1979 e em Santo Domingo, República Dominicana, em 1982. A prática gerada por esse processo leva a Igreja a direcionar a sua atuação, na sociedade brasileira, a partir da situação dos pobres e dos excluídos.

No Espírito Santo, logo após o Concílio, eram promovidos os Concilinhos, encontros de formação a partir de pequenos livretos elaborados por Dom Luis Gonzaga Fernandes, com resumos de documentos conciliares, que nos ajudavam a refletir sobre a realidade brasileira e nos fortaleciam nas lutas da sociedade por mudanças na condução política do país, naquele momento dirigido com violência e opressão pela ditadura militar.

A CNBB também passa a emitir documentos sobre a realidade brasileira e latino-americana, como “Y-Juca Pirama o Índio, aquele que deve morrer” (Bispos do Centro-Oeste, 1973) “Eu ouvi os clamores de meu povo” (“Essas palavras de Ex 3, 7, ditas por Deus a Moisés, dão hoje a medida exata de nossos sentimentos. É essa Palavra de Deus que nos impulsiona a tomar posição ao lado do povo e dos que se empenham por sua verdadeira libertação, de séculos de opressão. ”1975), “Exigências Cristãs de uma Ordem Política” (“somos chamados a construir uma Nação sempre mais justa “, 1977), “Igreja e problemas da terra”, “Solo urbano e ação pastoral”, entre outros.

Nas Dioceses capixabas, as Comunidades Eclesiais de Base (Ceb’s) se disseminavam. Assim, dávamos nossa contribuição como “fermento na massa. Em 1978, a Arquidiocese de Vitória editou o Manual do Eleitor e, a cada eleição, uma cartilha ou Carta dos Bispos era divulgada para estudos.  O Conselho das Comunidades da Periferia da Grande Vitória também realizava, semestralmente, Encontros de Formação de Lideranças, com temas diversos.

A Equipe do Centro de Documentação e Informação da Arquidiocese de Vitória (Cediv), uma das equipes da Caritas Arquidiocesana que foi reformulada para oferecer assessoria sócio-econômico-política para as comunidades e suas lideranças, preparou versões populares das publicações da CNBB, e também uma série de Cartilhas – “Bate-papo sobre Política “.  “Puebla para o Povo”, também muito estudado nas comunidades.  Boletins Informativos, cartilhas, programas na Rádio Capixaba, Audiovisuais, Círculos Bíblicos, Missa na TV, Treinamentos e Encontros, tudo contribuiu muito para uma formação sócio-econômico-política dos fiéis

Normalmente, após um período de estudos, as comunidades decidiam organizar movimentos de luta, como o Movimento de Transporte no Setor de Porto de Santana, o Movimento pela Melhoria do Transporte Coletivo de Vila Velha, o Movimento pela Água de Vitória, a criação de Associações de Moradores e a Federação destas, na Serra.

A Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese, outro fruto do movimento de resistência ao regime de opressão, colaborou muito na formação com emissão de documentos e presença em apoio às lutas sociais e chegou a criar a Comissão de Direito à Moradia (CDM), para assessoria e apoio às ocupações urbanas que se alastraram na Grande Vitória, devido ao grande êxodo rural, fruto da erradicação dos cafezais, e da atração provocada pela implantação dos grandes projetos industriais.

Foi um período muito rico de reflexões, de avaliações de conjuntura e que resultou num amadurecimento político dos militantes e grupos que participavam destas atividades e que resultou em muitos movimentos de organização da sociedade.  Mas acima de tudo, foi um período de grande companheirismo e de solidariedade entre todos nós que estávamos presentes nesta caminhada. E que contribuiu profundamente para a mudanças de rumo do país.

Neste momento de crise geral no Brasil, em que as instituições públicas se desmoralizam, rasgando as conquistas da Constituição de 1988, é hora de nos inspirarmos nos processos formativos que construímos no passado, a fim de respondermos, a partir do Evangelho de Jesus de Nazaré, aos desafios presentes, em vista da construção do bem-comum, do bem-viver, do Reino de Deus, aqui e agora.

Pinceladas na história

“Todo desenvolvimento tem um preço social, mas é uma exigência ética indeclinável que esse preço seja justo, seja equitativamente distribuído e socialmente destinado. Tal preço não é justo quando não há equivalência entre o valor da prestação de cada um no esforço comum e o valor de sua participação na riqueza criada. Não é equitativamente distribuído, quando recai mais pesadamente e sem razão que o justifique sobre uma parte da Nação mais que sobre a outra. Não é socialmente destinado, quando, sem se traduzir em vantagens proporcionais para promover as condições de vida do povo, dá ensejo à formação de classes privilegiadas. (Exigências Cristãs de uma Ordem Política/CNBB, nº 46). ”

Cláudio Vereza

Membro da Coordenação Nacional e Estadual do Movimento Fé e Política

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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