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A era das incertezas

A-era-das-incertezasFoi nos inícios dos anos de 1980 que esta expressão apareceu no cenário mundial, sendo título de um documentário exibido pela BBC de Londres, e que depois se transformou em livro do economista canadense John Kenneth Gailbraith. Este autor se referia aos rumos que a economia mundial estava tomando com uma nova forma de desenvolvimento denominada globalização. O que estava acontecendo naquele momento? Que consequências vem trazendo para a vida das pessoas?

A velocidade das transformações deixava as pessoas meio atônitas. Não apenas a economia aumentava a velocidade das transformações, mas até a tecnologia colocava em nossas mãos, cada dia, novos aparelhos de trabalho e comunicação. Neste cenário, foram determinantes o movimento crescente de desestruturação e queda do comunismo e o aparecimento das grandes corporações econômicas e financeiras. O século XX foi assim chamado de “era dos extremos” e o século XXI só veio aumentar o volume de incertezas.

As mudanças econômicas e políticas foram desencadeando processos maiores, culminando quase sempre num sentimento de incerteza. Ondas pequenas foram formando grandes tsunamis. Perguntavam-se onde as coisas e os processos iriam desaguar. Na verdade, a queda do comunismo soviético e o surgimento das grandes corporações eram apenas o início de um longo processo que ainda não parou de aumentar e se desenvolver. Forma-se assim um conjunto crescente de novas incertezas que vai transformando relações, profissões, filosofias, escolhas, a própria fé e os compromissos políticos.  O produto destas transformações configura algo pastoso, líquido, formando uma espécie de “geleia global”.

A própria religião não escapa deste movimento de transformação, dissolvendo identidades, ultrapassando limites, produzindo outras formas de crenças. No meio cristão, por exemplo, não é mais tão nítida a configuração dos diversos discursos produzidos nas celebrações. Muitas vezes, torna-se difícil identificar se determinada homilia pertence a um líder protestante, católico ou pentecostal.

Entre os diversos tipos de incerteza, uma nos convoca para pensar com mais atenção: a espiritual. Não me refiro apenas à questão religiosa, mas também às questões relativas aos dados da vida humana, com seus desejos e suas frustrações, suas fantasias e decepções e seu viver em sociedade. O cristianismo católico e o protestantismo histórico da época da Reforma dos séculos XVI e XVII sofreram um forte impacto com o aparecimento dos movimentos pentecostal e neopentecostal. As estruturas da vivência religiosa foram abaladas. Lideranças preocupadas buscam respostas para problemas que jamais haviam sido postos sobre a mesa; pesquisas e estudos objetivam entender o que está acontecendo.

É muito comum a preocupação com a evolução das coisas. O que parecia permanente dissolve-se pouco tempo depois. De nada adianta buscar causas externas. As mudanças são frutos do esgotamento das propostas de certezas religiosas nem sempre refletidas pelas lideranças tradicionais. Surge um movimento regenerador, também cheio de misturas, que não se distingue da “geleia religiosa” que se produziu.

Os limites territoriais do cristianismo tradicional são rompidos por uma experiência religiosa que se afasta cada vez mais dos propósitos do Evangelho de Jesus Cristo, caindo numa experiência rudimentar de autoajuda. Nesse campo incerto, as ofertas do mercado religioso só crescem. Tudo é oferecido, incutido, pregado, exigido. Deus é invocado em seu dever de socorrer os aflitos. Como se pede cura! Tudo vira objeto de cura. A evangelização afasta-se assim tanto das identidades religiosas como dos conteúdos do Evangelho e do Magistério.

Por outro lado, o movimento fundamentalista luta de maneira radical para garantir sua identidade, mesmo à custa de uma violência simbólica ou mesmo física. Tem crescido muito o fundamentalismo, tanto religioso como político e cultural. Parece a contrapartida ou resposta à era das incertezas.

Poderíamos continuar fazendo críticas e considerações à questão das incertezas. Alimentar medos ou amaldiçoar as mudanças só aumenta o terreno pantanoso dos tempos atuais. O movimento de mudança e de incerteza é irreversível. Compete-nos pensar na alteração da ordem; mas revoluções não acontecem todo dia. Também não adianta retornar aos modelos antigos e ficar lamentando os novos tempos dizendo “no meu tempo era assim e assado”. Aquele tempo não volta mais. Na educação dos filhos, por exemplo, o maior erro é que os pais de hoje queiram educá-los nos moldes de antigamente. Com certeza, será um fracasso.

Aprendemos das ciências que as mudanças constituíram os seres vivos e aqueles que foram capazes de se adaptar garantiram longevidade à própria espécie. Mas a adaptação não é um movimento de acomodação para permanecer na zona de conforto. Para a vivência da fé cristã, torna-se imperiosa a fidelidade aos princípios evangélicos, alimento fundamental da fé, escapando das posturas terapêuticas. E para a vida em sociedade a era de incertezas exige de cada um de nós a retomada dos compromissos éticos e da sustentabilidade ambiental.

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