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2017: o humano precisa de outro humano

Vieram de longe, de tempos antigos, eles, os humanos que seguem estrelas e que são sempre novos nos desejos, pois que os retomam todos os dias, a cada desvio e a cada pequeno acerto de rumo na longa estrada. Vieram de longe, de uma distância que me foge, mas que alcanço, ou posso alcançar por tentativas de fabulação, essas que agora escrevo nesse janeiro que me assusta com dezenas de presidiários mortos, muitos degolados ainda vivos, e outros vários cujos olhos e corações foram arrancados. Ai. As realidades nos escapam. Vão para além de nossas capacidades de entendê-las e… suportá-las. Mas é preciso seguir, mesmo e apesar dessa temerosa noite que cai sobre todos. Ô Janeiro de Santos Reis!

Eles vieram de longe, cada um de um canto, e apesar de seguirem por caminhos certos, peregrinaram por altos e baixos, ameaçados por precipícios e desertos, atrasados por inesperadas voltas e curvas, e por um rei mal-intencionado. Decerto se angustiaram com essa efusão de sangue que difamam nossas terras. Onde foi exatamente que nos encontramos, não sei, mas num ponto qualquer de nossas vias de onde miramos novos dias. Eles vieram… e, suponho, trazem outras inspirações e jeitos para se lidar com as realidades.

Foi por bem que os encontrei. Meu Deus! Obrigado. Foi assim, de repente, nos deparamos em estranhezas mútuas, cara a cara, e nos reconhecemos logo nas ânsias e esperanças: “o amanhã será melhor, é o que nos garante essa estrela que segue adiante”. Apontavam para ela. “A noite é longa e desalumiada, mas um Sol Nascente nos virá visitar”. Apesar do imponderável cruzamento de nossas estradas, certo foi que me vi impulsionado a ir também para onde iam. Em contato com eles fui tomado de um sentimento que me surpreendeu com um ânimo novo, uma espécie de certeza, e uma renascente alegria de viver. E quando na alta madrugada de uma noite me disseram com urgências, “levanta-te, acenda tua luz, vamos!” percebi que se anunciava um desfecho pra nossa caminhada. Então fui pronto e ligeiro no cumprimento de seus apelos. A fogueira tinha se apagado, a escuridão ainda resistiria por um tempo, mas já uma luz ia me acendendo a alma e os olhos.

Sim, nesse tempo ganhei oportunidades e oportunidades de observá-los cuidadosamente, sem intrometimentos desnecessários, todavia. Mais importava admirar.  Seguiam cheios de dignidade e honradez. Decididos não apressados, pois que isso é possível, dizia a mim mesmo pra vencer meus estresses. Miravam o céu, consideravam o que o universo riscava aleatoriamente em luzes moventes. Liam. Não as estrelas. Se bem que liam ao olhar para elas. Mas liam o que na luz distinguiam no chão, nos acontecimentos, na vida, e no o que a vida haveria de mostrar. Eram atenciosos para com os sofridos que se colocavam na beira das estradas. Devotavam especial atenção aos pobres e às crianças. Às mulheres grávidas, mesmo que em discretos acenos, se portavam como se diante de honradas princesas. Diziam-me que por antecipação sabiam que aquele a quem buscavam lhes proporcionaria aperfeiçoamentos no que eles já se esforçavam por viver.

Não me alongarei no que pude vivenciar com eles. Outros podem somar essas pequenas impressões às suas a respeito deles. E digo, encerrando estas fabulações de janeiro, que a conSIDEração das estrelas (SIDER) era apenas uma etapa para se conSIDERar as pessoas. Ao seguir o sinal no espaço SIDEral demo-nos com o céu que se tinha feito chão. E encontramos um menino envolto em panos.

Dauri Batisti 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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