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Uma sociedade sem Deus

O Papa Emérito Bento XVI recentemente deu uma entrevista e ao ser perguntado por que a pedofilia tinha alcançado tal dimensão, respondeu pronta e imediatamente que a razão está na ausência de Deus. Então perguntamo-nos como é possível que padres e até bispos que celebram o mistério da Eucaristia todos os dias estejam sem Deus? E foi mais longe no alcance da resposta à questão colocada dizendo que estamos vivendo numa sociedade na qual Deus está ausente, pois a medida do ser humano está sendo cada vez mais perdida.

Ao mesmo tempo ocorreu um “colapso da teologia moral católica”. Ou seja, a própria Igreja não soube se conduzir nestes tempos sem Deus. Diagnóstico nada otimista feito por um dos maiores teólogos da Igreja!

Não se trata de uma fuga de Deus de nosso meio. Deus não nos abandonou. Então o que aconteceu? Se Deus está ausente da nossa sociedade e não nos abandonou, então os homens o mataram. Mas não nos parece que o Bento XVI esteja ingressando nas ideias da “filosofia da morte de Deus”. E ele nos explica bem ao seu estilo de professor dos velhos tempos de universidade. “Um mundo sem Deus só pode ser um mundo sem significado.

A sociedade ocidental é uma sociedade em que Deus está ausente para o grande público e não tem nada a dizer a ele. E é por isso que é uma sociedade em que a medida do ser humano está sendo cada vez mais perdida”. Assim os abusos contra menores não causam nenhum remorso a seus executores. Sua ação é sem medida, sem referência.

O papa Bento XVI traça um diagnóstico perfeito do que se projetou como modernidade. E se trata da modernidade ocidental. O mundo moderno nasce tendo como expressão a frase de Galileu: “o mundo está escrito em caracteres matemáticos”. Perdeu toda marca da sacralidade de uma criação como é narrado nas Sagradas Escrituras. O mundo tornou-se símbolo matemático. E nasce também como expressão do pensamento de Descartes de “penso, logo existo”. Minha existência não está ligada a nada além de mim mesmo. Eu sou minha própria medida, minha própria referência. Assim, para o pensamento moderno cartesiano, a minha existência não depende de nada externo a mim. Eu me basto por mim mesmo. Nem Deus e nem o mundo são importantes.

Deus vai desaparecendo do mundo na medida em que esses pilares da ciência e da filosofia vão constituindo uma nova sociedade. Deus vai desaparecendo inclusive dos cursos de teologia, dos seminários, das Igrejas. Vejam que loucura pensarmos em igrejas abarrotadas de pessoas onde a figura central não está presente, Deus. Celebra-se sem Deus.

Celebramos a nós mesmos. Nem o mundo será considerado como “irmão sol, irmã lua”. O mundo pode queimar. Tudo é permitido, pois nele não habita o limite, a ordem, a alteridade – Deus. Nem a voz de Deus é possível ouvir quando a floresta se queima ou é queimada pelo próprio homem.

A ausência de Deus em nossa sociedade constitui o nosso inferno. O outro sempre será visto como alguém a ser aproveitado, eliminado ou abusado. Uma criança abusada por um líder religioso parece não pesar na consciência desta mesma pessoa, pois quem lhe punha o limite ou mandamento está ausente. Então, uma floresta com tantas tribos de índios não representa absolutamente nada para alguém que não possui Deus. De nada adianta ser ungido, pois não é uma unção sagrada. Pode ser a própria condenação.

Quem mantém Deus nesse mundo atrapalha o exercício do poder político, pois exige o reconhecimento de cada pessoa e a defesa do mundo que nos circunda. Atrapalha a exploração das matas, dos rios, das pessoas. Chegaram há dias alguns pastores de igrejas pentecostais dos Estados Unidos fazendo-nos crer que Deus vai garantir o ecossistema, independente da ação humana. Quanta hipocrisia! Quanta mentira em nome de Deus. Pastores religiosos sem Deus, pois não reconhecem o pecado que se comete ao destruirmos a sua criação.

O mundo é pura criação. Por isso, é sagrado. O cristão não deveria defender a Amazônia por nenhum outro motivo; apenas por ser criação divina. E assim defendendo sua vida manteria os povos que dependem desta graça ainda presente entre nós. Tantas outras graças jogamos fora, queimamos, derrubamos. A lembrança da Mata Atlântica deveria nos fazer chorar, pois foi um assassinato. A Amazônia é graça de Deus!

Então podemos concluir dizendo, com Bento XVI, que nessa sociedade Deus está ausente e isso repercute na formação de uma humanidade em que desaparecem os limites, os interditos, os sentidos, o reconhecimento da existência do outro e da própria criação. Formamos então uma sociedade perversa, onde se vive junto, mas sem o outro, sem o mundo e sem Deus.

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