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Transição religiosa

Até 1970 nem se imaginava que um país com 91,8% de católicos perdesse essa hegemonia em tão pouco tempo. A partir de 1990 deu-se conta da queda, pois naquele momento o percentual de católicos chegou a 83,3%. Daí em diante o declínio tornou-se constante com quase 10% de queda a cada década. No mesmo período vemos o crescimento do segmento evangélico que em 1970 representava apenas 5,2% da população, mas que a partir de 1990 pulou para 9,0%, em 2000 para 15,4% e em 2010 pra 22,2%. Atualmente já são 31%. Ao mesmo tempo percebe-se que cresce nesse mesmo cenário o número de pessoas sem religião e outras religiões não cristãs. E hoje como se apresenta esse cenário de transição?
Há muitas pesquisas sendo feitas Brasil afora, especialmente em Dioceses Católicas preocupadas com o fenômeno, mas são pouco divulgadas. O Instituto Datafolha publicou no dia 13 de janeiro desse ano uma pesquisa mostrando o cenário religioso do Brasil. Saltam aos olhos alguns indicadores:
1) Declínio do número de católicos caindo para 50%, com 0,97% ao ano. Isso vem acompanhado pela diminuição absoluta e relativa do número de filiações católicas. Os especialistas em demografia estimam que em 2040 haverá no Brasil 39,4% de pessoas católicas. Acreditam também que dificilmente esse percentual continuaria a diminuir, permanecendo em torno dos 40% da população total.
2) Crescimento do segmento evangélico atingindo a casa dos 31% com preponderância de mulheres e negros que, entre os pentecostais, atinge 69% das pessoas.
3) Aumento absoluto e relativo do número de pessoas que se declaram sem religião chegando a 10% das pessoas entrevistadas. Esse indicador traz algumas dificuldades para análise. Muitas pessoas afirmam estar sem religião, mas querem dizer que não frequentam nenhuma Igreja institucional e são ateus. Há um grande preconceito ainda em se dizer ateu.
4) Crescimento absoluto e relativo dos percentuais de pessoas pertencentes a religiões não cristãs.
Um dado que não pode ser desconsiderado nesse fenômeno de transição religiosa católica para as Igrejas evangélicas no Brasil situa-se na configuração de uma onda política que desembocou na eleição de 2018 para presidente da República e Congresso Nacional. As duas bancadas que mais cresceram foram a Evangélica com 84 parlamentares e a ligada à segurança pública onde estão os policiais e delegados atingindo 61 parlamentares. Essa onda sepultou de vez a máxima de que “crente não se mete em política”. Ao invés disso, “irmão vota em irmão”. Ainda não se sabe e nem se pode prever qual o impacto dessa onda no fenômeno da transição religiosa que vinha se desenvolvendo no Brasil.
Alguns fatos embora conjunturais foram determinantes no crescimento do poder político dos evangélicos no Congresso Nacional e na sociedade brasileira. É o caso da escolha do Deputado Federal Marco Feliciano, que é Pastor ligado à Assembleia de Deus, como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara em 2013. Isso revigorou a pauta da moralidade sexual religiosa para uso político, tendo como slogan “Defesa da Família Tradicional”. Essa escolha reforçou ainda mais o peso político da Bancada Evangélica com o apoio da população conservadora, mas sem religião ou sem forte presença institucional nas Igrejas. Essa agenda ainda contou com o apoio da Banca Católica do Congresso Nacional. Além disso, não se pode ignorar a eleição do Deputado Federal Eduardo Cunha, oriundo do meio evangélico, também Assembleia de Deus, em 2015 como Presidente da Câmara dos Deputados. Por fim, a eleição presidencial completou a onda evangélica elegendo Jair Bolsonaro que se diz católico, mas bem antes fora batizado no Rio Jordão por um pastor evangélico e recebeu apoio determinante deste segmento que o levou à vitória nas urnas. Até que ponto esses fatos aliados ao incremento da pauta moral religiosa trará impactos na transição religiosa?
As eleições municipais para prefeitos e vereadores que vão ocorrer neste ano dificilmente ficarão desconectadas da onda política que marcou a eleição de 2018. A agenda moral religiosa e da segurança pública mostrou-se efetiva na hora da urna eleitoral. Hoje qualquer análise política de conjuntura, qualquer planejamento pastoral, qualquer decisão eclesial deve levar em consideração o fator religioso de transição. A partir da eleição presidencial temos um governo de perfil evangélico, com diversos pastores assumidos funções determinantes e com aliança direta com as grandes Igrejas Pentecostais. Estaria se configurando assim o desejo evangélico expresso literalmente no salmo quando diz “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”? Se assim for, a transição religiosa fica diretamente comprometida com a condução política do país. Que consequências podemos prever? Essa questão deverá ser abordada por nós em outro texto.
Retomando os dados da pesquisa do Instituto Datafolha, chama-nos a atenção o percentual de mulheres e negros atingindo a casa dos 69% entre os evangélicos pentecostais. Os motivos podem ser os mais diversos, mas é visível como essas Igrejas penetraram fortemente nas periferias das cidades, entre os mais pobres. Em cada ruela foi construída uma pequena igrejinha, com poucos adeptos, mas onde cada um é reconhecido pelo nome, é chamado a colaborar nas atividades religiosas. Os obreiros devem ser vistos nessa perspectiva. Assim cada mulher e cada negro vai se reconhecendo nas pessoas que estão conduzindo os cultos, cantando, tocando, recolhendo a oferta, etc., encorajando-se para participar também da vida da comunidade. Essa Igreja é uma pequena casa que está pertinho de onde as pessoas moram, não precisando nem de ônibus e muito menos carro para chegar até essa casinha chamada Igreja.
No que se refere à presença feminina nas Igrejas pentecostais há que se considerar a situação em que elas estão. Muitas vezes, abandonadas pelos maridos, sem apoio social nenhum, cheias de filhos pequenos com marido preso muitas vezes. Em suma, essas mulheres mães encontram na Igreja o conforto no meio da dor e a orientação para a educação de seus filhos. Ali elas são chamadas pelo nome. No Sínodo realizado pela Arquidiocese de Vitória há dez anos ficou muito claro que muitos católicos migraram para outras Igrejas em decorrência principalmente da falta de acolhimento. Parecia naquele momento que a grande celebração com Igrejas lotadas não conseguia atender a essa demanda bem subjetiva, mas que mostra o sofrimento das pessoas.
Não podemos jugar de maneira absoluta e de modo negativo esse movimento de transição de pessoas católicas para as Igrejas pentecostais. É preciso olhar com mais atenção como se dá e acontece o dia a dia na periferia pobre. Pensa-se que se está diante de um grupo que segue cegamente o pastor. Segundo Mauro Paulino, Diretor-geral do Instituto Datafolha, é preciso considerar as divergências que são encontradas nesse meio, pois aqui também estão presentes elementos mais críticos ao governo atual. Para os evangélicos mais pobres a realidade violenta e carente das periferias se sobrepõe às possíveis orientações políticas dos cultos, renegando o slogan de que “Irmão vota em irmão”. Muitas vezes, a dureza da vida e a realidade violenta do dia a dia acabam se tornando espaço precioso para a consciência política. Essas pessoas deixarão de ser evangélicas para retornarem à Igreja Católica? É quase certo que isso não acontecerá.
Outras pesquisas mostras a situação de transição religiosa que tem ocorrido em diversos países latino-americanos. Somente Equador e Paraguai aparecem ainda imunes a essa transição, pois estão com 80% da população ainda católica. No Uruguai a transição ocorreu em outra direção: da Igreja Católica para os sem religião, que atinge a cifra de 40% da população. É um país com crescimento de cunho secular. Por outro lado, os países mais evangélicos do continente são Guatemala, Honduras, El Salvador e Nicarágua.
Em termos mundiais a transição religiosa tem outra direção: passagem de uma sociedade religiosa para sem religião, secularizada. O aumento do percentual de pessoas sem religião cresce muito no Brasil e nos Estados Unidos, onde já compõe 25% da população. Países como França, Holanda e Nova Zelândia logo terão a maioria da população sem religião. Reino Unido e Austrália a hegemonia cristã está desaparecendo. A China mantém uma Igreja nacional, mas usa o poder político para perseguir religiosos de outras denominações. Apenas a África está em franca expansão religiosa. Olhando para o contexto mundial é possível constatar a imagem de John Lennon quando cantava “Imagine no religion”?
Essa situação merece ser estudada com profundidade nessa transição. Quem são essas pessoas “sem religião”? Na pesquisa Datafolha representam 10% da população brasileira, ou seja, 21 milhões de pessoas. Podem ser ateus que temem o preconceito social instituído no Brasil e não se identificam como tal. Podem ser agnósticos. Podem ser pessoas que seguem algum movimento cultural de cunho espiritual, mas não assumem tratar-se de algum tipo de religião. E podem ser pessoas que se afastaram das Igrejas institucionais, reagindo contra as exigências e pressão para pagamento de dízimos e ofertas de todo tipo, ou mesmo, reagindo contra a opressão das lideranças religiosas. Há pesquisas que mostram uma nova onda religiosa cristã crescendo nas casas. Isso mesmo. Trata-se de Igreja nas casas, também chamada de “Igrejas orgânicas”. De maneira pejorativa muitos consideram “desigrejados”, o que é rechaçado imediatamente por essas pessoas.
Algumas considerações a respeito desse fenômeno podem ser feitas. A transição religiosa está configurando uma nova sociedade de cunho plural, em que desaparece a hegemonia católica. Em si esse fenômeno não deveria trazer tanta preocupação a não ser entre as lideranças religiosas das Igrejas em seus planejamentos pastorais e medidas eclesiais a serem tomadas. Portanto, a transição parece ser um fenômeno histórico irreversível. Não estou afirmando que haverá o “fim da religião”. Essa nunca desaparecerá, penso eu. Mas as transformações culturais vão correr e não sabemos que formato terá no futuro.
Uma observação deve ser feita a respeito da forma como se instituiu a visão evangélica. Quando se refere a esse dado fica parecendo que se refere a uma única Igreja. O IBGE aglutinou todas as Igrejas cristãs, inclusive as Igrejas Históricas da época da Reforma, como um bloco uniforme. Isso não é verdade. Não é correto colocar todas as denominações dentro de um mesmo perfil. O mundo evangélico foi colocado intencionalmente ou não como contraposição ao mundo católico. Quem representa o mundo evangélico? Qual Igreja? O perfil protestante difere desde os inícios do mundo católico principalmente no que diz respeito à unidade institucional. Hoje vemos uma pluralidade de posturas evangélicas e algumas contrastam inclusive com a teologia protestante que alicerçou as Igrejas históricas da Reforma. Essa imagem de bloco unido não condiz com a realidade dos fatos e das Igrejas. O crescimento entre elas não é uniforme, mas para efeito de aglutinação nas pesquisas o mundo evangélico é apresentado como se fosse uma Igreja única.
A questão mais séria que nos parece é a junção dos interesses políticos nesse tabuleiro religioso. Foi a partir de 1935 que nos Estados Unidos se formou um grupo político denominado “Direita Cristã” que tem por objetivo o exercício do poder político mediante a instrumentalização da religião cristã e da Bíblia Sagrada, lida e interpretada de maneira fundamentalista. O evento conduzido pelos americanos, denominado “Café com Oração”, está reunindo em nome de Deus as lideranças políticas para a organização e exercício do poder em diversas partes do mundo. Esse grupo objetiva influenciar o poder pelo mundo a forra. Seria isso a reprodução de uma nova cristandade? Historicamente conhecemos as formas de agir da cristandade medieval com alto grau de intolerância, processos de inquisição, cruzadas para extinguir inimigos, etc. Alguns analistas alertam sobre o risco de deterioração da vida democrática em diversos países, inclusive o Brasil.
As Igrejas históricas da época da Reforma também estão expostas ao fenômeno da transição religiosa, tendo que reformular práticas relativizando determinadas orientações dos reformadores. Recentemente seus principais líderes foram a Suíça para uma reunião com o Conselho Mundial de Igrejas, que os representa em termos internacionais. Essas lideranças explicitaram sua preocupação com o radicalismo cristão usado para legitimar as medidas políticas no Brasil, propagando descriminação, violação aos direitos humanos e a proteção do planeta. Para eles, a religião está sendo instrumentalizada pelos interesses políticos e até mesmo a defesa da família foi colocada como desculpa, como fachada em vista do apoio político. O Reverendo Agnaldo Gomes afirma que “os evangélicos estão sendo usados”.
O uso da religião para fins políticos é um grande perigo para a sociedade em termos de vivência democrática. A transição religiosa em si mesma não ameaça a prática democrática. Ao contrário, pressupõe o respeito e a tolerância diante da diversidade e pluralidade religiosa. O contexto atual da realidade brasileira exige muitos cuidados por parte das Instituições para que seja preservada a vida democrática da nação.
Mas o capital político representado pelo mundo religioso é cobiçado inclusive por pessoas inescrupulosas. Partindo desse contexto há uma tendência forte de partidos buscarem possíveis candidatos entre as lideranças religiosas evangélicas e lideranças que atuam no campo da segurança como policiais e delegados. A princípio as bancadas da Bíblia e da Bala (religião e segurança pública) se apresentam com maior volume político para captação de votos. A militarização da política parece ser a via de sustentação da nova ordem politico religiosa.
Mas essa visão não pode ser tomada de modo absoluto. A agenda moral religiosa deixa furos com os quais os cristãos não deveriam se alinhar. As questões relativas à situação dos mais pobres, da realidade violenta das periferias, da violação dos Direitos Humanos, da intolerância, da violência contra as mulheres, do racismo, deveriam unir religiosos e os ateus.
Por fim, diante da transição religiosa as lideranças das Igrejas não deveriam se desesperar e tomar decisões intempestivas. A transição também mostra essa situação e muitas Igrejas estão fechando as portas. Outras buscam apoio do poder público para pagamento dos impostos como IPTU e contas de água e luz. Esse caminho contraria o princípio fundamental da República Brasileira de um Estado Laico, que caberia às Instituições jurídicas e fiscalizadoras cuidarem para corrigir tais desvios.
O foco principal de qualquer ação nesse contexto de transição religiosa é a luta para se construir uma sociedade de paz, plural, tolerante, de convivência fraterna, de respeito mútuo, democrática. Que a transição seja feita sob as luzes da Justiça e da Paz!

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