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Sínodo da Amazônia: presença e hora da mulher

Conforme palavras do Cardeal Dom Cláudio Hummes, relator geral do Sínodo, a “fase pós-Assembleia é a mais importante” pois é o “momento de retornar àqueles que vivem e esperam no território, levando de volta o que eles nos confiaram com suas vidas, esperanças, gritos e alegrias”.

Queremos repercutir alguns assuntos que foram muito discutidos nesse tempo sinodal. Iniciaremos com um dos temas mais desafiadores na sociedade brasileira e particularmente na região Pan-Amazônica assinalando a presença e o protagonismo das mulheres na atuação durante o Sínodo e sua grande relevância para a vida da Igreja.

Ao mesmo tempo temos um horizonte duro e cruel sobre a mulher submetida a um grau de violência ainda muito grande na sociedade latino-americana. Essa questão torna-se ainda mais forte em relação à mulher indígena, negra, quilombola, ribeirinha. Está claro para elas que não são parte do povo, mas o próprio povo. Por isso, entendem que a violência contra uma menina, uma mulher, é uma violência contra o povo.

A cultura machista e a consequente submissão da mulher na cultura indígena também são desafios na construção de uma nova sociedade. Contudo, essa realidade da própria cultura indígena nem se compara ao que se esconde de maneira mais cruel como exploração sexual de crianças e adolescentes, aumento das rotas de tráfico de mulheres, turismo sexual, práticas ainda de escravidão e exploração sexual. O Sínodo da Amazônia não podia deixar no esquecimento a questão da mulher, principalmente em sua relação com a Igreja.

O Instrumentum Laboris do Sínodo fez diversas referências a esta questão realçando o drama da violência contra a mulher, com muitas delas chegando a serem traficadas. Em algumas regiões da Amazônia 90% dos indígenas assassinados nessas populações isoladas são mulheres (n. 60). “Esta violência e discriminação afetam gravemente a capacidade que estes povos indígenas tem de sobreviver, tanto física, como espiritual e culturalmente” (IL n. 60).

O capítulo V tratou da “Família e Comunidade” e logo surge uma constatação: a submissão da mulher no seio da família. O Instrumentum já colocava a sugestão de “promover a função da mulher, reconhecendo seu papel fundamental na formação e continuidade das culturas, na espiritualidade, nas comunidades e famílias. É necessário assumir o papel da liderança feminina no seio da Igreja” (IL n. 79 c).

E no capítulo IV onde se trata da “organização da comunidade” o Instrumentum (n. 129) propunha como sugestão “identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher, tendo em consideração o papel central que hoje ela desempenha na Igreja amazônica”. Seu grito é pela valorização de sua presença nas comunidades, pelo reconhecimento a partir de seus carismas e talentos, pela garantia de sua liderança em espaços mais abrangentes como na área de formação teológica, catequética, litúrgica, escolas de fé e de política. Gritam para que sejam consultadas e que possam participar nas tomadas de decisões, contribuindo assim com sua sensibilidade para a sinodalidade eclesial e “que a Igreja acolha cada vez mais o estilo feminino de atuar e de compreender os acontecimentos” (IL n. 129).

Quando trata do “papel profético da Igreja e a formação humana integral”, o Instrumentum Laboris sugere à assembleia sinodal de Roma que atue para “promover a dignidade e igualdade da mulher na esfera pública, particular e eclesial, assegurando canais de participação, combatendo a violência física, doméstica e psicológica, o feminicídio, o aborto, a exploração sexual e o tráfico, comprometendo-se a lutar para garantir seus direitos e para superar qualquer tipo de estereótipo”.
Nos dois anos de preparação do Sínodo, as mulheres tiveram um grande papel e na assembleia sinodal eram 38 presentes incluindo lideranças indígenas, especialistas em temas relacionados ao ambiente e pesquisadoras. Alguns analistas destacam que elas tiveram papel inédito. Uma líder indígena disse que o Papa ouvia tudo o que elas falavam atentamente e nem piscava os olhos. E completa: “Ele acredita na gente”. Que constatação: a mulher comprovar que um homem acredita nela! Seria o mínimo, mas para ela parece ser o máximo que dispõe no momento.
Não vamos repetir os diagnósticos que estão presentes no Instrumentum Laboris, mas destacar os pontos que nos parecem central no Relatório Final. Por diversas vezes, o relatório menciona questões relativas às mulheres. O Documento menciona as mulheres em 30 momentos. Mas é nos números 99 a 103 que estão descritos os principais elementos da proposta relativa às mulheres enviada ao Papa.

O Sínodo da Amazônia conduzido pelo Papa Francisco está plenamente em sintonia com o Concílio Vaticano II e dele recupera uma das ideias principais que é o despontar dos leigos e leigas como sujeitos eclesiais. Com isso é restabelecido o diaconato permanente entendendo o poder como serviço e projetando um futuro cada vez mais forte no protagonismo dos leigos no interior da Igreja no que diz respeito ao ensino, à santificação e ao próprio governo da comunidade. Nesse contexto é que se constitui uma visão de Igreja que tem como norte a comunhão e a ministerialidade.
A partir dessa perspectiva conciliar podemos entender a proposta de um diaconato feminino decorrente do papel fundamental das religiosas e das mulheres leigas na Igreja da Amazônia e em suas comunidades. O Sínodo propõe ao Papa que sejam configurados ministérios para homens e mulheres de maneira equitativa.

No entanto essa questão não é simples. Em 2016 o mesmo Papa ficou sensibilizado e criou uma comissão para estudar a instituição de mulheres como diaconisas na Igreja Católica do ponto de visto teológico e histórico. Mas afirma que “não há certeza de que a sua ordenação fosse com a mesma forma e com o mesmo propósito que a ordenação masculina”. E ainda se mostra respeitoso pela posição colegial, pois “não posso fazer um decreto sacramental sem um fundamento histórico e teológico”. Por isso, conclui o Pontífice, “vamos continuar a estudar”. Reconhece sempre que o trabalho das mulheres, religiosas e leigas, é cada vez mais importante na Igreja Católica. E diz: “A Igreja é feminina, é mulher. Não é uma imagem, é a realidade, é a esposa de Jesus, devemos ir avante com a teologia da mulher”.

Como já dissemos, o documento final do Sínodo da Amazônia enviado ao Papa aprovou cinco artigos à unanimidade. Há um grande reconhecimento de seu protagonismo nas comunidades, nas pastorais, nos movimentos sociais e no conjunto da missão amazônica. Ao mesmo tempo reconhece a violência contra as mulheres tão forte, principalmente mulheres negras, quilombolas, indígenas e camponesas, nos países da Pan-Amazônia. Registra que Rondônia e Roraima tem altos índices de feminicídio. E reconhece as suas lutas contra todas as formas de opressão, machismo, misoginia e discriminação. Isso mostra um Igreja que caminha com as mulheres na região, mas que ainda tem muito a avançar.

A respeito de sua inserção mais forte na igreja através de um ministério oficial é considerado pela Assembleia sinodal e o parágrafo 101 merece o registro fiel desta posição, e destaca “a sabedoria dos povos ancestrais afirma que a mãe terra tem um rosto feminino. No mundo indígena e ocidental, as mulheres são aquelas que trabalham em múltiplas instâncias, na instrução das crianças, na transmissão da fé e do Evangelho, são testemunhas e presença responsável na promoção humana, para que a voz das mulheres seja ouvida, para que sejam consultadas e participem das decisões e, assim, possam contribuir com sua sensibilidade à sinodalidade eclesial [...] É necessário que a Igreja assuma com maior força sua liderança dentro da Igreja, e que a Igreja a reconheça e promova, fortalecendo sua participação nos conselhos pastorais das paróquias e dioceses, ou mesmo nas instâncias de governo”. A experiência da Igreja da Pan-Amazônia mostra como elas devem ser consultados e devem ser chamadas a participarem na tomada de decisões, contribuindo assim como o estilo feminino de atuar e de compreender os acontecimentos.

As vozes das mulheres no Sínodo da Amazônia foram muitas e ecoaram fortemente na Igreja. A preocupação sinodal não pode se resumir à proposta de ordenação diaconal das mulheres. Há um longo processo de caminhada pela frente em cada Igreja particular e não apenas na Amazônia. É preciso fomentar de maneira intensa a formação das mulheres em diversos campos do saber teológico. Ainda é predominantemente masculino. Daí a necessidade de uma teologia feminina como nos fala o Papa Francisco com mulheres presentes na teologia bíblica, na teologia sistemática, na teologia moral, no direito canônico, na história da Igreja, antropologia. Sua inclusão nessa formação deveria superar a visão clericalista tão presente na Igreja, tanto entre os padres como entre as próprias mulheres. Uma mulher clericalista em nada ajudaria numa visão teológica feminina, como sinaliza o papa.

Então poderíamos ter muitas professoras de teologia nos cursos das Faculdades e Universidades Católicas, nos Seminários, nos Institutos de Filosofia e Teologia. Além disso, na própria organização das paróquias e dioceses, abrindo os espaços de decisão e acompanhamento pastoral para a participação das mulheres. No Sínodo houve a proposta de se criar uma Universidade Católica da Amazônia. Seria de uma riqueza extraordinária se essa universidade se estruturasse seguindo os princípios do Concílio Vaticano II, especialmente na adoção prática da colegialidade acadêmica, da sinodalidade, com campos de ensino, pesquisa e extensão tendo as mulheres e os leigos assumindo a produção do conhecimento teológico. E por fim, aplicando ainda mais fortemente o Concílio permitindo a inserção do “Povo de Deus” em seus espaços acadêmicos, transformando-se então numa “santa casa do saber”.

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