buscar
por

Sínodo da Amazônia: “Pacto das Catacumbas” e desafios pastorais

Estamos ultrapassado a metade do Sínodo com uma celebração marcante no mesmo local e no mesmo espírito daquela realizada em 1965, pouco antes do encerramento do Concílio Vaticano II, nas Catacumbas Domitilla. Antes do encerramento do Concílio, mais de 500 padres assinaram o “Pacto por uma Igreja Serva e Pobre”, tendo assim firmado um compromisso colegial por uma “opção preferencial pelos pobres”. Agora nesse mesmo lugar os padres sinodais realizam uma Celebração Eucarística presidida pelo Relator Geral do Sínodo, Dom Cláudio Hummes, tendo inclusive a presença de representantes de outras denominações religiosas presentes no Sínodo, e assinam o “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum”: por uma “Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana”. Nas palavras de Dom Cláudio Hummes celebra-se esta Eucaristia do Pacto como “um ato de amor cósmico. Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja de aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo”.

O lugar é muito significativo na memória cristã, pois as catacumbas eram os cemitérios onde os cristãos enterravam seus mártires e celebravam a Eucaristia. Portanto, conforme palavras de Dom Cláudio, trata-se de um lugar sagrado. Como naquela época, ele nos diz, vivemos “tempos difíceis, de perseguição, mas também de muita persistência, de muita fé, de muito testemunho”. Os mártires são aqueles que deram o testemunho em grau extremo, entregando a própria vida. E assim, “a Igreja sempre vai se reformando através dos tempos; ela deve sempre voltar às suas raízes que estão aqui e em Jerusalém para se inspirar em qualquer tipo de reforma”.

As reformas propostas pelo Papa Francisco estão na linha da purificação da Igreja de coisas que são meramente culturais de uma época passada. São coisas históricas. E dom Cláudio sinaliza o objetivo do Sínodo: “pedimos novos caminhos, melhores condições para podermos realizar a nossa missão, a missão de proclamar a Palavra”. E afirma que esse Pacto das Catacumbas é algo que nos vai ajudar para estarmos unidos neste trabalho todo. Lembrou de Dom Hélder Câmara que esteve naquele dia conciliar de 1965 e informa aos presentes que estava celebrando com a mesma estola que pertenceu a ele. E conclui: “Este Sínodo é produto do Vaticano II, ele é o fruto do Vaticano II e assim nosso compromisso como Igreja que não pode esquecer dos pobres”.

Chega-se assim ao momento decisivo do Sínodo ainda com apresentação de elementos decorrentes da escuta sinodal, mas já tendo um esboço que nos dá uma boa ideia do que está sendo debatido e que servirá de base para elaboração do documento a ser apresentado ao Papa Francisco. Vale registrar algumas destas ideias.

A experiência sinodal de um caminhar junto exorta a Igreja a refletir um dos significados mais profundos, a universalidade da Igreja. Muitos povos, muitas culturas, muitas diferenças, mas todos sendo respeitados, pois cada povo e cada cultura são reconhecidos em sua alteridade e complementaridade. Cada um tem algo a nos dizer e assim, ao olharmos a variedade cultural da Amazônia, é possível compreender a grandeza da fé cristã.

Ouvir a voz da Amazônia nos permitiu reconhecer caminhos já percorridos pelos mártires e, ao mesmo tempo, abertura de novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Os desafios de uma Igreja missionária ainda são muito grandes. Sublinhou-se muito nesses dias a necessidade de se passar de uma “Igreja de visita” para uma “Igreja de presença”. Há muitos lugares onde o padre chega esporadicamente, às vezes, anualmente. E aqui nasce um dos desafios apresentados que é a necessidade e o direito de cada comunidade poder celebrar a eucaristia de maneira frequente.

Não está em discussão a extinção do celibato, que é um dom da Igreja e que deve ser considerado como algo muito precioso. Contudo, a Igreja necessita buscar alternativas válidas para que as comunidades cristãs possam celebrar de maneira constante a Eucaristia. A alternativa de “padres casados” é uma delas; mas também poderia ser o empenho solidário de Dioceses que possuem grande número de ministros ordenados a serem enviados para a “missão ad gentes”. Por que tanto zelo ou egoísmo em não partilhar do dom sacerdotal com outros campos distantes na região Amazônica?

Outro tema que está em grande discussão se refere ao chamado “pecado ecológico”. E nesse campo é preciso considerar o entendimento da Encíclica Laudato Sí. O pecado deverá ser visto na perspectiva de uma ecologia integral. Por isso, há que se considerar a exclusão dos indígenas, a pobreza decorrente das atividades de mineração, a destruição do ecossistema amazônico. Sempre que o homem se fecha em sim mesmo, peca. O fechamento diante de Deus é a marca fundamental do pecado, mas não se pode esquecer que a criação é a manifestação de Deus. Não reconhecer Deus na criação também implica no não reconhecimento de Deus na pessoa do outro. O grito da floresta é o grito do pobre, do indígena. O papa Francisco nos diz que é preciso uma “conversão ecológica”. O uso dos bens da criação para o lucro “fede” e só traz consigo a injustiça.

Outros temas estiveram presentes nas escutas e reflexões: A formação dos leigos e dos missionários a partir da própria realidade, incluindo as pessoas indígenas e ribeirinhas; a violência contra os povos, pessoas e natureza enquanto pecado ecológico decorrente da defesa do lucro a qualquer preço; as culturas amazônicas e a evangelização com implicações na própria liturgia; a piedade popular e devocional como caminho de fortalecimento da fé e desafio para um amadurecimento cristão; a vida consagrada na Amazônia que sempre teve papel de destaque nas congregações religiosas missionárias; a juventude; e por fim, os ministérios como dons necessários de caminho missionário evangelizador.

Também temos que registrar algo que não é bom para a Igreja e em graus mais agudos pode levar a cismas ou rupturas. É preciso considerar as resistências e fofocas relativas ao Sínodo da Amazônia. Elas decorrem das dificuldades das pessoas de compreenderem o sentido profundo da Igreja enquanto mistério de salvação. No próprio Concílio Vaticano II ocorreram muitas resistências e até cismas, e alguns de seus representantes ainda se fazem presentes principalmente agora com a proposta do Papa Francisco de seguir avante nas decisões conciliares. Muitas vezes, essas pessoas estão presas aos aspectos institucionais tornando a Igreja semelhante a outras instituições civis, e assim produzem embates políticos, ideológicos e contaminam inclusive o corpo eclesial. Outras estão por demais apegadas a normas que são incapazes de enxergar o Evangelho de Jesus.

O papa Francisco nos lembra que há cristãos que julgam tudo com seu apego às próprias convicções, “preferindo a ideologia à fé e assim se afastam da comunidade, da Igreja”. O papa João XXIII exortava para a necessidade de uma “Igreja pobre e serva” e que seus irmãos no episcopado levassem uma “vida de pobreza”. Então o Sínodo não representa uma grande assembleia política para debates entre teorias e ideologias, entre norma e institucionalidade da Igreja. O caminho do Sínodo está em outra direção.

E o Papa Paulo VI, dois meses antes celebrou nas mesmas Catacumbas Domitilla e afirmou: “Aqui o cristianismo afundou as suas raízes na pobre, no ostracismo dos poderes estabelecidos, no sofrimento das perseguições injustas e sangrentas; aqui a Igreja foi despojada de todo o poder humano, foi pobre, humilde, piedosa, oprimida, heroica. Aqui o primado do espírito, de que nos fala o Evangelho, teve a sua obscura, quase misteriosa, afirmação, o seu testemunho incomparável, o seu martírio”. Esse é o pacto cristão.

COMENTÁRIOS