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Sínodo da Amazônia: nova primavera missionária na Igreja

Um dos pontos mais desafiadores que será discutido no Sínodo é a questão missionária. E considerando o programa de reformas do Papa Francisco expresso na Evangelii Gaudium, com uma “Igreja em saída”,  e as Diretrizes da Ação Pastoral, publicadas recentemente pela CNBB em que se fala de “comunidades eclesiais missionárias”, pode-se perceber o desafio para os sinodais nesse mês de outubro.

Há cem anos, o Papa Bento XV dizia na Maximum Illud (1919) que uma das preocupações principais do trabalho missionário é a “formação e organização de um clero indígena”.
Missionários católicos e protestantes, ao longo dos séculos XIX e XX, foram acusados de transmitir um conteúdo etnocêntrico nas atividades evangelizadoras, com caráter essencialmente discriminatório.

O papa Francisco chega ao ponto de expressar sua aversão ao próprio “assédio espiritual” que muitas vezes tomou e toma conta do trabalho missionário. Seguindo a Evangelii Gaudium, a proposta de uma “Igreja em saída”, cresce não através do proselitismo, mas por atração. Não somos enviados para correr atrás de almas perdidas, mas para salvar e atrair vidas pela beleza convidativa da nossa fé vivida no mundo.

Atualmente existem em torno de 1.109 territórios missionários localizados na África, na Ásia e ilhas da Oceania, e nas Américas. Isso significa que 37% da Igreja Católica ainda pertence a territórios de missão para além das próprias fronteiras. Nesse sentido, a missio ad gentes deve ocupar lugar especial nas Igrejas particulares. Com a criação de um território de missão surge a necessidade de criar novas instituições sociais para a assistência, instituições educacionais e pastorais, a fim de cobrir todos os tipos de necessidades.

Por este motivo, o chamado atual para um “mês missionário extraordinário” para promover uma maior conscientização sobre a missio ad gentes. A renovação do ardor missionário revigora a Igreja, transformando a vida e a atividade pastoral da Igreja. O papa Francisco nos convoca para “chegar às periferias, aos ambientes humanos, culturais e religiosos ainda alheios ao Evangelho”. E conclui que “o coração da missão da Igreja é a oração”. Então, o Sínodo da Amazônia se apresenta como o grande desafio da Igreja na América Latina.

Um dos itens do Instrumentum Laboris se refere à questão de uma Igreja com rosto indígena e ribeirinho, e isso implica na criação de novos ministérios, novas formas de organização e formação dos povos da Amazônia. A impressão que às vezes se tem do trabalho missionário é que muitos facilmente são seduzidos pela perspectiva ainda colonizadora de evangelizar como doutrinação. Tantos missionários cumpriram no passado assim um rito etnocêntrico e discriminatório. A nova perspectiva que se espera com o Sínodo é de uma “indigenização” e uma “desclericalização” da missão. Ou seja, trata-se de uma Igreja com rosto indígena.

Nasce então a necessidade de se construir uma “Igreja autóctone”. O movimento tradicional tem sido de fora para dentro. Urge o chamado missionário para se construir “Igrejas locais amazônicas”, tendo os povos indígenas como protagonistas dessa caminhada. Segundo Paulo Suess, “mesmo depois de 500 anos, ainda há muito entulho teológico pastoral da época do império e da colonização impedindo que se forje uma Igreja autóctone”.

Para exemplificar melhor esta questão, podemos tomar o exemplo da Igreja de São Mateus. Por volta de 1985, Dom Aldo Gerna, bispo daquela diocese, angustiava-se pois ainda não havia ordenado padres diocesanos nascidos naquelas terras. Até então a diocese estava entregue aos padres Missionários Combonianos. Aos poucos, com muito investimento na formação dos jovens mateenses, a diocese viu formar-se um clero autóctone. E hoje tem a graça de ter entre seus padres dois que foram chamados ao Episcopado – Dom Ailton Menegussi e Dom Edivalter Andrade. E os Missionários Combonianos estão apenas com uma paróquia. A missão comboniana cumpriu assim sua ação de fazer crescer e se desenvolver uma Igreja autóctone.

A Igreja que se preocupa com a Amazônia jamais estaria contrária ao Espírito de Deus incorrendo em heresia como alguns “profetas do apocalipse” gritam. A memória do que aconteceu nos continentes africano e asiático lhe permite uma voz profética ecoando na Amazônia. Em 1900, o Padre Henry de Lubac, escrevia que “Esse século que foi a era da expansão da Europa, foi também muitas vezes, um século de bárbara cegueira. O orgulho de nossas máquinas e de nossas armas nos tornou injustos para com outros povos e as estreitezas de uma educação que tencionava nos dar a única cultura humana nos fecharam a inteligência para as belezas que o homem tinha criado sob outros céus”.

Diante disso, a missão da Igreja na Amazônia não pode ser conivente com a invasão daquelas matas, com a destruição daqueles rios, com a morte daqueles povos. A Amazônia é muito complexa em todos os sentidos. Seus povos e suas culturas devem servir para embelezar ainda mais a fé cristã. O Evangelho não fica herético como alguns nos querem fazer crer.

A ação missionária nas terras amazônicas já custou muitas vidas. Muitos mártires missionários. Dois deles sempre estão presentes e lembrados nas celebrações. O padre Ezequiel Ramin entregou sua vida em 1980 na região de Rondônia, defendendo os indígenas e posseiros, sendo assinado em 1985. Hoje 200 bispos brasileiros manifestaram através de uma carta o seu apoio à causa da sua beatificação. Outra missionária muito lembrada é a irmã Dorothy também assassinada em 2005, defendendo a causa indígena na região do Pará. Foram seis tiros certeiros. Ela dizia sempre que “apenas uma profunda mudança em nosso modo de vida – nossos valores e atitudes – pode trazer uma nova vida ao nosso mundo”.

Desta forma podemos ver claramente quem são aqueles que se opõem ao Sínodo da Amazônia. O trabalho missionário de tantos e seu testemunho que chega ao ponto de entregar a própria vida na defesa dos povos indígenas e ribeirinhos, e defesa da floresta, deve incomodar profundamente os poderosos da terra, das madeireiras e das mineradoras. Por isso, seu investimento no apoio às campanhas eleitoras pela região amazônica para eleger pessoas que acabem com a ação missionária da Igreja naquelas terras. Que a nova primavera chegue com flores e não suja de sangue!

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