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Querida Amazônia "e o desafio de sonhar"

A Exortação Apostólica pós-sinodal “Querida Amazônia” foi partilhada pelo Papa Francisco com o Povo de Deus. Era muito esperada, era muito desejada. O caminho sinodal foi muito rico e longo. Em termos numéricos foram realizadas 57 assembleias, 21 fóruns nacionais, 17 fóruns temáticas e 179 rodas de conversa. Bispos sinodais de 9 países da região amazônica puderam viver nesse tempo de graça uma experiência de sinodalidade – deles entre si e deles com o Papa. Sem a sinodalidade cada um enxerga apenas o próprio umbigo e trata a Igreja como uma ONG particular que tanto mal faz ao Povo de Deus. Muitos católicos tiveram uma conduta que contraria a sinodalidade e foram instrumentalizados pelo poder político. São católicos que vão rasgando a veste da unidade tão cara à Igreja.
Poderíamos discorrer sobre todos os pontos presentes na Exortação, especialmente aqueles mais polêmicos e que chamaram tanto a atenção de muitas pessoas. Mas penso que outro caminho de reflexão poderia também nos fazer muito bem. E dois me tocam o coração: a forma de tratamento utilizada pelo Papa – “Querida Amazônia” – e os Sonhos.
Nesse contexto difícil da transição religiosa, em que a Igreja Católica vai sentindo tantas pessoas migrando para outras Igrejas ou mesmo desistindo de qualquer vinculação religiosa, tenho a impressão que esses dois pontos nos ajudam no caminhar eclesial. A experiência sinodal é o grande ensinamento para o Povo de Deus. Quem não consegue caminhar junto com o Bispo, com o Padre, com o Papa, não está na linha do ensinamento apostólico e se torna uma pessoa cismática. É preciso caminhar junto, ter paciência com todos, saber esperar e ter muita esperança.
O primeiro ponto que nos chama a atenção é a forma com a qual o Papa nos entrega o documento da Exortação Apostólica – “Querida Amazônia”. No tempo que se escreviam cartas para as namoradas era esse o tratamento usado. Em outras situações de menor proximidade usávamos “Prezado” ou outros pronomes de tratamento mais empoderados como “Excelentíssimo”, “Reverendíssimo”, etc. O Papa chama aquela porção de terra e do Povo de Deus de “querida”. Nessa palavra ele manifesta o grau de intimidade com que conduz a Igreja da Amazônia e toda a Igreja. Reflete o grau de proximidade que marca seus passos nessas terras. Não é um pontífice distante que escreve para uma terra desconhecida. Ele fala ao coração da Amazônia. É a partir do coração que ele pretende iniciar e seguir com a evangelização.
Ouvindo tantas pessoas que deixaram a Igreja Católica nos parece que o apelo do Papa para a proximidade, para a intimidade, para o toque no coração torna-se essencial para a vivência eclesial. Por esse motivo, tantas pessoas dizem que não se sentiram acolhidas na Igreja e por isso buscaram outro lugar ou mesmo nenhum lugar.
Esse lugar de proximidade foi muito presente na vida pública de Jesus. Os Evangelhos estão repletos de cenas em que Jesus toca as pessoas, olha as pessoas, sente as pessoas, e também chora as pessoas. Assim aquelas pessoas marginalizadas na vida da sociedade judaica e romana ouviram e sentiram Jesus e o seguiram imediatamente. A conversão não é um mecanismo mental ou intelectual. As pessoas precisam sentir-se queridas.
O grande ensinamento do Sínodo da Amazônia parece-nos ser esse: se tem padre ou não pouco importa para as pessoas que sofrem; importa sentir-se querido na Igreja, sentir-se reconhecido, sentir-se tocado, sentir-se participante. Todo cristão assim tem o compromisso de se colocar na proximidade eclesial em sua comunidade, em sua paróquia, em sua casa. “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35).
O segundo ponto que nos toca mais profundamente está na estrutura de linguagem da Exortação, quando o Papa diz que “ousa humildemente formular quatro grandes sonhos que a Amazônia lhe inspira”. Particularmente vemos nessas palavras uma grande ousadia sim. Ousar sonhar! Todos nós sabemos que é impossível fazer alguém parar de sonhar. Ninguém cala a voz de um sonho. Em outras palavras, o Papa nos diz que seu pontificado será sempre marcado por esses sonhos.
Os sonhos revelam sempre um conhecimento mais profundo do que se passa no íntimo das pessoas. Estão repletos de informações. Alimentam a vida das pessoas. Muitas vezes, os sonhos determinam novos caminhos, novas ações. Diante dos sonhos qualquer norma ou limite parece ter pouca utilidade. As pessoas se agarram às normas quando não conseguem dar conta da liberdade e os sonhos estão sempre rompendo os limites do controle, da norma. Isso é o que configura o caráter do sonho e sua importância na vida das pessoas. Uma pessoa que não consegue mais sonhar está caminhando para a sepultura, está morrendo.
E o Papa Francisco escreve a Exortação pós-sinodal “Querida Amazônia” tomando a imagem do sonho. Assim construiu um texto muito leve para leitura com quatro capítulos tendo como títulos: 1) Um sonho social; 2) Um sonho cultural; 3) Um sonho ecológico; 4) Um sonho eclesial. Esses quatro sonhos foram detalhados em 111 parágrafos e ao final convoca a todos os cristãos para enfrentar a realidade concreta. E nos diz: “Exorto todos a avançar por caminhos concretos que permitam transformar a realidade da Amazônia e libertá-la dos males que a afligem”. E conclui chamando-nos para olhar para Maria na condição de seguir um “caminho mariano” e escreve uma linda oração à Mãe Maria, que se encerra na seguinte súplica: “Não nos abandoneis nesta hora escura. Amém”.
Na nossa modesta interpretação, Francisco toma a metáfora do sonho e nos força a escutar o que nossos sonhos revelam como base escondida de um caminhar histórico. Há muito conteúdo teológico e doutrinário que é dito sob essa forma de comunicação. Não usa do poder pontifício para impor absolutamente nada e nem para reforçar posições que possam trazer riscos à barca de Pedro. Ele reconhece na oração final que estamos diante de uma “hora escura”. E nesses momentos quem conduz a Igreja não pode temer o mar revolto, mas também não pode trazer mais combustível que possa incendiar o barco e afundá-lo. Tem aparecido muitos incendiários que se dizem “fiéis” ao Papa. São os novos lobos conforme havia previsto o Mestre.
As dificuldades na condução da Barca de Pedro sempre foram presentes ao longo da história. Assim aconteceu com Pedro nos primeiros anos do cristianismo no ano 49. Diante do problema dos judaizantes, Pedro convoca os dois grupos que estavam debatendo de maneira muito perigosa: o grupo ligado ao apóstolo Paulo diante do trabalho missionário nas comunidades não judaicas e o grupo de Tiago que permanecia em Jerusalém. O livro dos Atos dos Apóstolos retrata fielmente o momento de “muita discussão” entre os dois grupos. E Pedro, usando da autoridade que o Senhor lhe confiou, levantou-se e dirigiu-se a eles e “toda a assembleia ficou em silêncio”.
E assim na Igreja até os dias atuais se dá a prática da escuta sinodal e depois as palavras do Papa exortando os demais apóstolos (bispos) no caminho missionário. Com o silêncio, os apóstolos receberam a exortação de Pedro. Francisco reconhece o risco de uma “insônia agitada” e de uma “incerteza preocupada” que nos deixariam sem rumo e por isso nos dá uma orientação mesmo sendo cauteloso.
Ele nos dirige um imperativo eclesial: “Deve encarnar-se a pregação, deve encarnar-se a espiritualidade, devem encarnar-se as estruturas da Igreja”. E pede à Maria que olhe para os pobres da Amazônia porque seu lar está sendo destruído por interesses mesquinhos, que olhe para a dor e a miséria, o abandono e o atropelo em que vivem as pessoas da região amazônica. O seu grito de dor e sofrimento produziu muito eco na Igreja. E por fim o Pontífice expressa o desejo de que nossa união e luta seja em prol da paz e da justiça.
O sonho de Francisco torna-se assim o sonho de todo a Igreja, de cada batizado; diríamos que se torna sonho de cada pessoa, independentemente de seu lugar eclesial ou religioso. Os seus sonhos são nossos sonhos! Vida longa, Francisco!

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