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Natal e solidariedade

Faz parte de nossa cultura distribuir por esta época as famosas “cestas de Natal” nas empresas, organizações, instituições religiosas, famílias, etc. E também sempre ocorrem ações de donativos aos pobres. Isso parece deixar as consciências das pessoas em paz, pois se trata de atos de solidariedade.

Muitas pessoas colocam essa ação como uma obrigação. Mas será que isso é o que basta? Será que uma simples cesta doada para uma família pobre ou um presente dado às crianças atende ao que está estabelecido como “misericórdia” na doutrina cristã? Já que nestes últimos meses se falou tanto em religião, em país cristão, não custa aprofundarmos um pouco sobre o que se estabelece como obras de misericórdia descritas no Evangelho de Jesus Cristo. Isso é válido para qualquer religião e qualquer pessoa. Portanto, trata-se de uma dimensão profundamente ética do cristianismo.

Em Mateus 25, na descrição das obras de misericórdia, a condição para a entrada no Reino dos Céus é muito clara. Elas se referem às necessidades corporais e espirituais: comida a quem tem fome, bebida a quem tem sede, vestimenta aos nus, visita aos doentes e enfermos, visita aos prisioneiros, hospedagem aos estrangeiros, consolo aos aflitos.

Mas, os Evangelhos acrescentam mais ações de misericórdia como conselho às pessoas; perdão a quem nos ofendeu, instrução aos ignorantes, justiça e caridade através da esmola aos pobres. Desta relação do texto sagrado, pode-se perceber obras de misericórdia de cunho corporal, pois atende às necessidades materiais da pessoa e obras de cunho espiritual. Ou seja, a solidariedade vai muito além da ação de dar de comer a quem tem fome doando uma cesta de Natal. Os famintos são muitos, e outras necessidades atingem mais facetas da existência humana e precisam ser satisfeitas.

E por que este hábito no período natalino? Uma das explicações está bem visível no próprio nascimento de Jesus. Maria grávida e José tiveram que se dirigir a Jerusalém, mas em Belém chagava o momento do parto. Procuraram abrigo na cidade, estavam com muito frio, mas não encontraram nenhuma hospedaria. Então, dirigiram-se a uma estrebaria, onde se guardavam animais, e ali Maria deu à luz ao “Menino-Deus”. O Natal, enquanto encarnação do Verbo, representa um marco na Revelação de Deus, expressando a solidariedade com o mundo e as condições para o seu nascimento, mas também revelaram a falta de solidariedade dos homens em abrigar uma mulher grávida.

No mesmo cenário natalino também surge e permanece a figura solidária do Papai Noel, que é uma figura lendária, mas que acabou expressando concretamente a pessoa de São Nicolau, Bispo da Turquia, que de maneira anônima neste período procurava ajudar as pessoas necessitadas de sua Diocese.

A vestimenta de São Nicolau é a de bispo e não este modelo usado nos EUA, representando o bom velhinho que dá presentes às crianças, incorporado pela Coca-Cola como propaganda. Para os cristãos, a imagem que realmente reflete o espírito natalino de solidariedade é a de São Nicolau.

Assim, no Natal sempre é bem marcante esse movimento de solidariedade. Contudo, não pode servir apenas para desencargo de consciência depois de um ano sem olhar para o irmão ao nosso lado. Solidariedade institui como fraternidade. Somos uma humanidade só.

Entre nós aumenta a cada dia a necessidade de se dar abrigo aos peregrinos, aos migrantes, aos que fogem das guerras em seus países. Ser cristão não é construir muros que impeçam estas pessoas de buscarem abrigo entre nós. Se você defende politicamente o fechamento de fronteiras, não pode pretender alcançar os céus como cristão solidário. O afastamento do nosso meio daquelas pessoas que pensam diferentes de nós, possuem cultura própria, ou mantém traços ideológicos que não pertencem à classe hegemônica, não é em nada compatível com o espírito natalino da solidariedade.

Também cresce entre nós outra postura que contraria a doutrina da misericórdia de Jesus. Como tratamos os criminosos? O Evangelho nos diz que devemos visitar os presos. Isso chama-se solidariedade. Não é a lei do “bandido bom, bandido morto”, ou do armamento da população para reduzir a criminalidade na base da bala.

A visita aos presos implica nossa ação fora da cadeia, evitando que essas pessoas cometam crimes e fiquem privados da liberdade. Ouvi de um católico ao sair da missa em que o padre fazia esta reflexão: “por que esse padre não leva estes bandidos para a casa dele?”
Em nossas cidades, cresce o número de moradores de rua. É muito comum entre nós quando se fala destas pessoas, alguém nos dizer também para levar para nossa casa.

Quanta hipocrisia! E se dizem cristãos. Se os moradores de rua nos pedem esmolas, ou um prato de comida, é porque duas virtudes, a caridade e a justiça, são muito escassas. Foram excluídos de nosso meio porque somos injustos na redistribuição das riquezas e na partilha do alimento.

As obras de misericórdia de cunho espiritual se dirigem ao ensino para aqueles que foram excluídos da escola, à correção daquelas pessoas que erram ao nosso lado, ao perdão das calúnias, das mentiras, das fake news, etc; e mais ainda, consolar os tristes e oprimidos e ter paciência com as fraquezas das pessoas ao nosso redor.

Nesse sentido, o espírito natalino enquanto tempo para uma conscientização a respeito da misericórdia que nos torna solidários, deveria permear todos os corações, crentes e não crentes, cristãos e não cristãos, ricos e pobres. Somente assim o nosso “Feliz Natal” que desejamos às pessoas de nosso entorno teria sentido e expressaria mais ainda nossa fé.

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