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Na barca de Francisco

O novo Arcebispo da Arquidiocese de Vitória, Dom Dario Campos, em um encontro com os padres e diáconos, disse que estava assumindo esta porção do Povo de Deus na condição de um timoneiro de barco; foi constituído Arcebispo da Arquidiocese pelo Papa Francisco, seguindo diligentemente o exemplo de São Francisco de Assis que de maneira especial foi solícito com a criação de Deus e com os pobres mais abandonados. E completa o Arcebispo de maneira incisiva: estamos aqui no mesmo barco e quem quiser ir para uma canoa furada é melhor que o faça logo. A Igreja é como uma grande Barca e Francisco, nosso Papa e sucessor de Pedro, é o grande timoneiro na travessia da história em mares tranquilos e outros tantos oceanos turbulentos.

Em um telefonema que recebi de Dom Dario ele me fez esta declaração dizendo também que estamos no mesmo barco. A partir daí passei a refletir sobre o sentido desta imagem da Igreja como uma grande Barca. Alguns ministros que estão se colocando em oposição ao Papa Francisco afrontando suas orientações constituem grande perigo para a embarcação. Quantas vezes o Barco da Igreja sofreu com pessoas que buscavam outros objetivos e não seguiam o mandato do Evangelho.

Na Festa de São Pedro e São Paulo, dia 29 de junho, o timoneiro da Arquidiocese de Vitória vai até Roma receber o Palio de Arcebispo das mãos do Papa Francisco. Outra imagem muito bonita que simboliza o Mistério de Cristo e da Igreja. Desde o século VI o Palio é considerado veste litúrgica a ser usada somente na Celebração da Eucaristia (Missa). O palio é confeccionado com pele de cordeiro pelas monjas beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília de Roma. Para cada pálio é utilizada a lã de dois cordeiros criados pelos Monges Trapistas e ofertados ao Papa. E todo bispo que assume uma Arquidiocese recebe das mãos do Papa essa vestimenta deixando de usá-la quando tornar-se emérito.

A lã de cordeiro expressa um sentido profundo do pastoreio. Representa a ovelha perdida descrita na Parábola do Bom Pastor, a ovelha doente, a ovelha fraquinha. O verdadeiro pastor então toma esta ovelha e a coloca nos ombros e a leva para a vida plena, em boas pastagens e água limpa. Esta é uma imagem muito rica e fundamental da tarefa imposta pelo Papa aos Arcebispos simbolizada pela entrega do pálio. Não expressa nenhum poder, mas o serviço primordial para o Reino de Deus.

A barca compõe diversos cenários na pregação de Jesus. Uma das cenas sempre recordadas é aquela em que, para falar com a multidão que se dirigia a Ele, subiu em pé na proa da Barca de Pedro, conhecido e reconhecido apóstolo pescador. Os Evangelhos relatam vários momentos em que Jesus se utiliza desta Barca para falar ao povo. A pescaria milagrosa descrita por Lucas é rica em dimensões simbólicas da fé cristã. Nessa mesma Barca, Jesus foi acordado pelos apóstolos em função de uma tempestade que os ameaçava, e lhes diz: “Por que temeis, homens de pouca fé?” Os padres da Igreja nos primeiros séculos do Cristianismo viram ou interpretaram essa imagem da Barca como a figura da Igreja Católica. As tempestades tantas vezes na história ameaçaram submergi-la.

Em setembro de 2017, quando o Papa esteve na Colômbia, ele fez uma exortação forte a todos os colombianos: “Chamar os outros, chamar a todos para que ninguém seja deixado ao arbítrio das tempestades; fazer entrar na barca todas as famílias, santuário de vida; colocar o bem comum acima dos interesses mesquinhos ou particulares, ocupar-se dos mais frágeis promovendo os seus direitos”.

Os tempos atuais estão mostrando a existência de muitos vendavais, muitas tempestades, e as águas deste oceano estão com ondas muito altas. Um livro que descreve a trajetória de Dom Silvestre foi intitulado “Serenidade em altas ondas”. Tem hora que parece que as ondas estão mais fortes ainda. O próprio Papa tem sentido muitas dificuldades na condução do barco de Pedro. A imposição do palio a Dom Dario Campos, arcebispo de Vitória, é uma convocação pessoal do Papa na condução da Igreja. Jamais um Arcebispo poderá abdicar ou trair esta convocação. Em todas as falas do Papa mostra-se a enorme quantidade de ovelhas perdidas, ovelhas doentes e fracas. As reformas que está conduzindo neste barco são para abrigar a todos com segurança. Mas alguns traidores parecem esquecer as palavras do Evangelho.

Quem entra nesse barco, todo batizado, não pode ficar indiferente e nem em posição contrária à condução do Pastor, do timoneiro. Ninguém pode ficar indiferente e todos devem colaborar para que as ovelhas doentes e fracas sejam cuidadas com o remédio do Reino. Ninguém poderá entrar neste barco e ficar deitado como se estivesse salvo sem maiores compromissos. O barco que dom Dario assumiu conduzir a partir de janeiro deste ano e o palio que agora recebe das mãos do Papa Francisco expressam de maneira profunda o mistério da salvação que se dá no serviço. A salvação não se assemelha a um prêmio ganho na loteria a ser usufruído em benefício próprio. A salvação somente acontece na medida em que se cuida sempre mais das ovelhas desgarradas, doentes e fracas. Bom pastoreio, Dom Dario!

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