buscar
por

Fascismo e Fascismos: da Itália para o mundo

O início da década de 2020-2030 facilita a compreensão dos acontecimentos de um século atrás. As situações de insegurança, incerteza e confusão em que parece mergulhado o nosso planeta nos levam a buscar no passado suas raízes. A 100 anos do FASCISMO percebemos sinais semelhantes de crise dos sistemas chamados democráticos e o surgimento de populismos e autoritarismos na procura de soluções fáceis e imediatas para superar os impasses que aparecem de todo lado, especialmente do futuro, cheio de perspectivas e previsões mais sombrias que esperançosas que fogem ao controle da maioria.

Sem saber, eu nasci no ano XVII da Era Fascista, como “figlio della lupa”: filho da loba. Não adiantou meus pais serem antifascistas, nem vir ao mundo no dia de Santa Rita de Cassia, nem ter problemas de saúde, pelos quais foi batizado no dia seguinte. Todo italiano era idealmente amamentado por aquela mesma loba lendária que salvou Rómolo e Remo, os gêmeos abandonados, destinados a se tornarem os fundadores de Roma, a Cidade Eterna. Crescendo, todo lobinho na adolescência virava Balilla com uniforme e moschetto, e avanguardista na juventude para colocar as forças a serviço da Pátria. Este envolvimento dos jovens desde o nascimento era só um dos tantos sinais de um sistema totalitário nacionalista abrangente.

O início

A nova Era começou com a Marcha de Roma aos 28 de outubro de 1922, quando os grupos de ação fascistas, camicie nere, fundados por Benito Mussolini e formados por jovens e veteranos da primeira guerra mundial (1914-1918), invadiram a Cidade, criando uma situação de aparente tranquilidade e provisória estabilidade. O Rei Vittorio Emanuele III se recusou a assinar a ordem para deter a Marcha pelo exercito italiano com medo de uma guerra civil. O dia seguinte, o Rei nomeou Mussolini primeiro ministro com o encargo de formar o novo governo, legalizando assim de fato o acontecido.

A Itália havia saído vitoriosa da Guerra, porém foi considerada uma vitória mutilada, pois os tratados de Paris não reconheceram à Itália os méritos de tamanha luta. Além disso, a economia com dificuldade conseguia sair de uma produção bélica para favorecer a volta para uma vida civil. Nesta situação veio como uma maldição a epidemia espanhola, que entre 1918 e 1920 devastou a Europa toda, provocando mais mortos que a guerra. Em Itália morreram cerca de 400.000 pessoas.

O panorama sombrio acentuou os conflitos entre as diferentes formações políticas. O governo liberal mantinha atitude conservadora, enquanto outros partidos ganhavam a confiança do povo. Destacavam-se o Partito Popolare, fundado por Luigi Sturzo, sacerdote católico, e o Partido Socialista.

As eleições de 1919 não resolveram o mal-estar geral e nos anos 1919-1920 os socialistas de várias tendências organizaram amplas manifestações populares. O período foi chamado o biênio vermelho, provocando resistências políticas e ideológicas por medo de ligações com a revolução Russa de 1917.

Neste contexto nascia o Movimento dei fasci di combattimento, do ex-socialista Benito Mussolini (1883-1945). Depois do conflito mundial Mussolini, ótimo jornalista e magnético comunicador, escolheu o símbolo da antiga Roma: il fascio littorio, somando reivindicações sociais, certo anticlericalismo e o nacionalismo saudosista e utópico, unidos pela vontade de lutar. O feixe simbolizava o povo italiano e a machadinha ilustrava o poder do “Duce”, do latim DUX (comandante). No ano de 1921 o movimento dei fasci evoluiu para o Partido Fascista participando das eleições, sem conseguir a maioria. Os fracassos dos governos liberais prepararam o terreno favorável à ação das forças paramilitares dos fascistas, que desembocaram na Marcia di Roma.

A instauração do regime

O objetivo principal do novo governo era estabelecer a ordem civil e social na Pátria a fim de ganhar a aceitação de todos. Para a maioria pareceu quase um milagre, e o Benito nacional era aclamado como o salvador da Pátria. Na onda do sucesso, Mussolini reforçou o Partido com a formação do Gran Consiglio del Fascismo que, gradativamente, esvaziou o Parlamento dos poderes legislativos, implantando reformas populistas. O que exaltava o regime de um lado e disfarçava do outro era a onipresente propaganda, planejada nos mínimos detalhes, para arrebanhar as multidões, realizando uma geral lavagem cerebral. Famosos os discursos do balcão de Palazzo Venezia no centro de Roma. Num destes em janeiro 1925 Mussolini se responsabilizava até dos atos violentos, inclusive do delito Matteotti, a fim de acabar com todos os contrastes políticos e instaurar a paz. Assim surgiu uma nova ditadura. Por causa do medo ou das ilusões as reações foram fracas e logo sufocadas.

O fascismo no poder
Agora tinha espaço aberto para instaurar um regime que controlasse todos os setores da nação pelas leis, chamadas de fascistíssimas. No mundo do trabalho colocou um sistema corporativo no lugar dos sindicatos; reforçou a moeda Lira mudando tributos, impostos e salários na Itália toda. Para superar a depressão de 1929 promoveu muitas obras públicas de lazer e esporte.

Mussolini conseguiu envolver o importante filosofo Giovanni Gentile (1875-1944), que elaborou a reforma da pública instrução combinando os métodos educativos com a ideologia fascista e promovendo associações de lazer, esportistas e paramilitares que atingiam a todos. As duas copas mundiais de futebol de 1934 e 1938 viraram instrumento de propaganda do regime. O controle da informação, imprensa, cinema, radio e de todos os meios de comunicação estava no poder das organizações do Partido Fascista. Muitos cientistas e intelectuais fugiram para o exterior, outros, como Guglielmo Marconi (1874-1937) premio Nobel de Física pela telegrafia sem fio, aderiram ao fascismo, enquanto poucos foram respeitados, como Benedetto Croce (1866-1952) e Antonio Gramsci (1891-1937).

Com muita habilidade, Mussolini realizou i Patti Lateranensi com a Igreja católica aos 11 de fevereiro de 1929, conciliando nas consciências dos fiéis cristãos, o amor à Pátria e a fidelidade ao Papa, cujo reinado fora ocupado pelo exercito italiano durante o processo da unificação da Itália, incluindo a cidade de Roma em 1870. I Patti, assinados pelo Cardeal Gasparri em nome do Papa Pio XI e por Mussolini, conseguiram efeitos históricos fundamentais:

1- O reconhecimento e a soberania da Santa Sé, fundando o estado da Cidade do Vaticano, garantindo absoluta independência e estabelecendo a religião católica como religião nacional. 2- A compensação dos bens e territórios ocupados com grande quantia de dinheiro e privilégios econômicos para o Clero. 3- Favorecimento da presença da Igreja na vida publica: validade civil dos matrimônios celebrados na Igreja, ensino obrigatório da religião católica nas escolas do primeiro grau. Graças aos Patti, il Duce ampliou o respaldo popular, sendo chamado: O homem da Providencia!

Os sonhos fracassados
Envaidecido pela dominação interna, Mussolini começou a concretizar sonhos expansionistas, imitando o Império britânico e o Colonialismo francês. A decisão se concretizou com a conquista da Eritreia em 1935, que assim constituiu o Império Italiano, expandido em 1939 pela anexação da Albânia. As reações da França e Inglaterra forçaram o governo italiano a se apoiar na Alemanha de Hitler com o Eixo Roma-Berlim e em seguida o Pacto de Aço. Assim, Mussolini, que antes era admirado por Hitler, acabou dependendo dele ao ponto de introduzir em Itália as Leis Racistas em 1938.

Mussolini não aderiu à Segunda Guerra Mundial em 1º de setembro de 1939, mas só aos 10 de junho de 1940, impressionado pelas vitórias dos soldados hitlerianos. Porém, o exército italiano não estava preparado: foi um fracasso geral na Grécia, na África e na Rússia. Entre o regime e o povo houve total desconfiança, o que convenceu o próprio Rei a retomar o poder, mandando prender Mussolini, substituído por Badoglio. Isso provocou uma dolorosa guerra civil entre os saudosistas do fascismo e as forças contrárias, apoiadas pelos Países Aliados, que lutavam contra Hitler. Com a morte violenta de Mussolini, em abril de 1945, encerrou-se na Itália a guerra civil, a ditadura e a trajetória da Era Fascista.

O programa fascista que, pela boca do fundador, prometia “garantir a grandeza moral e material do povo italiano” (agosto 1919), deixou a Itália na pior desgraça da própria história: a derrota na segunda guerra mundial, as profundas feridas morais e sociais da guerra civil, destruições e miséria por todo lado e a perca de parte do território nacional. A Marcha de Roma mudou-se em marcha fúnebre!

Em tudo Mussolini praticava a estratégia de “la golpe et il lione” (da raposa e do leão), aconselhada ao Príncipe, obra-prima do pensador italiano Niccoló Machiavelli (1469-1527), dosando a astúcia da raposa com a violência do leão.
Seguindo a trajetória e as características do fascismo italiano, é possível entender o motivo da fama que ganhou e dos muitos regimes totalitários de direita com o mesmo nome. 1- Nasce em situações de conflitos ideológicos, políticos e sociais junto com dificuldades econômicas gerais, dando soluções imediatistas e populistas, acompanhadas por chavões, palavras de ordem e ações de efeito. 2- Pretende resgatar a gloriosa memoria histórica da nação com símbolos de força e poder, propondo às massas populares sonhos utópicos, levando-as ao nacionalismo extremo e ao imperialismo. É o mito da Pátria grande! 3- É fundamentado no carisma pessoal do líder: DUX, que consegue somar forças divergentes até ser considerado o salvador da Pátria, alimentando o culto da personalidade. Organiza grupos de elite para garantir a penetração em todos os segmentos da sociedade dosando astúcia com violência. 4- Apresenta resultados positivos na fase inicial, piorando em seguida. 5- Morre com o fundador.

 

Uma reflexão geral

A nova Era Fascista começou aos 28 de outubro de 1922 com a invasão de Roma pelas camicie nere, grupos paramilitares fundados por Benito Mussolini. Para evitar uma guerra civil, o Rei Vittorio Emanuele III aceitou o acontecido e o dia seguinte nomeou Mussolini primeiro ministro com o encargo de formar o novo governo. Foi uma virada histórica que parecia resolver as tantas dificuldades e confusões da nação italiana depois da Primeira Guerra Mundial (1914-18).

A vitória foi chamada mutilada, pois os tratados de Paris não reconheceram os méritos de tamanha luta. Havia inflação, aumento dos impostos e dos preços, desemprego generalizado e problemas fundiários. A Itália foi atingida pela epidemia espanhola entre 1918 e 1920 que matou cerca de 400.000- pessoas. Os governos conservadores não atendiam ao mal-estar do povo, organizado em amplas manifestações socialistas no biênio 1919-1920, apelidado vermelho, pelas ligações com a revolução russa do ano 1917. Neste contexto nascia o Partido Fascista, do ex socialista Benito Mussolini (1883-1945), que conseguiu ganhar a confiança do Rei com a Marcha de Roma.

O objetivo principal do novo governo era estabelecer a ordem civil e social na Pátria. Para a maioria pareceu um milagre, e o Benito nacional era aclamado como o salvador da Pátria. Na onda do sucesso, Mussolini formou o Gran Consiglio del Fascismo que, gradativamente, esvaziou o Parlamento dos poderes legislativos, implantando reformas populistas. Enfim, em janeiro de 1925, num histórico discurso, prometeu a paz em troca do poder: assim surgiu uma nova ditadura.

Padre Domenico Salvador

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS