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Coronavírus e a oração do Papa

Desde o início de seu pontificado o Papa Francisco tem mostrado ao mundo uma experiência de vida que tantas vezes nos passa despercebida como resposta aos desafios que a realidade nos coloca. Em 2013, o Papa permaneceu de bruços durante muito tempo prostrado ao chão, em silêncio completo, quase sempre de olhos fechados. Ele estava finalizando a Via Sacra no Coliseu romano e disse depois que “às vezes nos parece que Deus não responde ao mal, que permanece em silêncio. Na realidade, Deus falou, respondeu e a sua resposta é a cruz de Cristo: uma Palavra que é amor, misericórdia, perdão”. Os momentos de forte espiritualidade são intensos e frequentes na vida desse homem. Tantas vezes ele opta por momentos de oração sem as orientações normativas e litúrgicas, como essa de 2013.
Agora acabamos de ver o Papa saindo do Vaticano de maneira privada para visitar a Basílica de Santa Maria Maggiore. Ali reza à Virgem Maria e depois percorre um trecho da Via del Corso, a pé, como se estivesse realizando uma peregrinação até chegar à Igreja de San Marcello al Corso onde se encontra um Crucifixo de 1522 que foi levado em procissão pelas ruas de Roma numa longa oração pelo término da “Grande Peste”. Era a Peste Negra que se tornou uma pandemia também e dizimou um terço da população europeia e asiática. Agora novamente a humanidade está diante de uma pandemia em que os recursos médicos de ponta não são suficientes para impedir a morte de tantas pessoas.
As imagens mostram o Papa como um homem de profunda fé, compenetrado, sentindo as dores do mundo, as dores das mortes causadas pela pandemia do coronavírus. As imagens ainda mostram um papa diante do altar, sozinho, como se dissesse que estava aí com todos aqueles que não puderam estar com ele. A imagem dele andando pelas ruas de Roma entre algumas pessoas mostra o desafio de levar no abraço ausente a fé presente do povo. Também não se consegue esquecer a imagem do Papa abençoando a Praça São Pedro totalmente vazia. Muito forte! E juntos com essas tantas imagens que expressam a presença de Deus no mundo, vemos a lista de sacerdotes mortos em decorrência da atitude de estar próximo de seu rebanho, o Povo de Deus.
Por aqui pelo Brasil o gesto de Francisco repercutiu imediatamente no convite da Conferência Episcopal do Brasil para a oração do terço da Temperança e da Solidariedade para “elevar os corações ao Deus da Vida, no acolhimento de sua Palavra, fortalecendo a fé, a esperança e a união”. A nota da CNBB acrescenta: “Conscientes de que as restrições ao convívio não durarão para sempre, aprendamos a valorizar a fraternidade, tornando-nos ainda mais desejosos de, passada a pandemia, podermos estar juntos, celebrando a vida, a saúde, a concórdia e a paz”. Aqui entre nós na Arquidiocese, estão sendo transmitidas missas através das redes sociais e meios de comunicação. E a rádio América está transmitindo, ou melhor, chamando o povo para rezar junto o Terço da Misericórdia. Cada Paróquia está planejando formas de oração que chega aos céus, não importa de que lugar está sendo feita. Desta forma, a tristeza de templos vazios vai sendo preenchida com esperança, com fé e com solidariedade.
Entre nós há muitas pessoas que estão disseminando mentiras a respeito desta situação e isso só piora. Seria bem melhor que se calassem. Fariam muito bem. Outras ainda usam a desgraça para fazer política defendendo A ou B. Outros mais estão demonizando a doença produzindo e nomeando responsáveis. Não se trata de uma doença que um determinado país planejou disseminar a peste e assim dominar o mundo. Isso é pura mentira, pura invenção política. Enfim, nesse momento é preciso seguir as orientações das autoridades sanitárias.
Do ponto de vista religioso, tem acontecido coisas que não estão entre as orientações da Igreja Católica conduzida pelo Papa. Há pessoas que transformam a fé num terreno de magia. Não serve para nada, muito menos para alimentar a fé das pessoas.
O convite e chamado do Papa Francisco está na linha do que dizia Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Nesses momentos é preciso revestir-se do Espírito de Deus que “desperta coragem e força, consolação, inspiração e tranquilidade”. Mais do que nunca é preciso ter calma e esperança.
É através da oração que se caminha no Espírito de Deus. Nesse momento muitos estão se sentindo isolados e morrendo de medo. A solidariedade e o apoio a essas pessoas são fundamentais. Entre os que mais precisam podemos destacar os idosos, os deficientes, os pobres e os isolados. Não é proibido sair para ajudar essas pessoas.
Talvez nos acostumamos a rezar juntos dos outros, nas comunidades. Mas os templos estão sendo fechados para as celebrações. Isso não significa a impossibilidade de se rezar. As redes sociais podem servir para que as pessoas se unam num só corpo e orem ao Senhor. Ao mesmo tempo, é também a oportunidade para se rezar com quem está mais perto da gente, na própria família. Os mais antigos se lembram da reza do terço nas casas, nas famílias. A casa era a primeira Igreja. Foi em torno da cama de meus pais que aprendi a rezar o terço todas as noites, às vezes até dormia. Só sentia minha mãe puxando pelo braço rsrsrs.
Além desse tipo de oração mais próximo de cada um de nós, na própria casa, há a oração silenciosa como o Papa nos ensinou. Nem sempre precisamos dizer tanta coisa para Deus. Nem sempre precisamos pedir tanto. Muitas vezes, é suficiente o silêncio contemplativo, o silêncio da espera, o silêncio para ouvir a voz de Deus. Ele sempre fala. Nem sempre ouvimos. Esse tempo de pandemia também serve para ouvir a Deus, pois no corre-corre do dia a dia parece que não deixamos a voz de Deus chegar aos nossos ouvidos.
O vírus fecha tudo: estádios, Igrejas, teatros, cinemas, terreiros, comércio. Só não pode fechar o nosso coração e o nosso espírito. Ao mesmo tempo essa situação nos mostra como somos uma “titica” na terra. Essa é a grande verdade. É preciso repensar nossos processos históricos, nossas vaidades, nossos desejos. Não somos assim tão poderosos como imaginamos. Mais humildade e mais solidariedade. Mais fraternidade. Isso temos condição de realizar e isso também temos que pedir a Deus nesse momento.
Então, nesse momento tão difícil de nossas vidas, quando fomos obrigados a parar todas as nossas atividades, o caminho que nos resta é o do cuidado médico e da oração a Deus para que cure todos os que forem infectados e para que sejamos sempre mais fraternos. Desses dias cinzentos nascerá uma nova luz, uma nova vida. Sem medo, com muita esperança, mas sempre com muito cuidado.
Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião

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