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A verdadeira alegria vem do Menino Jesus

Seguir Jesus não é tarefa fácil. Às vezes é arrumar encrenca, frequentar lugares aonde não gostaríamos de ir, entrar em contato com realidades e pessoas que incomodam, enfrentar desafios, provocar conflitos, encarar incompreensões, sofrer violência ao ponto de ficar pendurado na cruz.

“O que eu ganho com isso?” é a dúvida em que tropeça quem decide de segui-lo. A tentação de parar no meio do caminho e abandonar o barco é muito forte, sobretudo nestes tempos  sombrios. Para que embarcar num projeto de vida que obriga a renunciar a si mesmo, a tornar-se pequeno, a redimensionar-se para passar pela porta estreita, a experimentar o fracasso e a solidão, a relativizar até os afetos mais queridos, a cercar-se de pessoas que não contam, a apanhar de todo lado e a carregar a cruz pesada da perseguição?

Para que ir atrás de Alguém que não dá a mínima com os tempos, propõe a realização de um Reino de paz e justiça sem marcar prazo, enquanto o mal, a violência, a injustiça e a exclusão avançam a ritmo vertiginoso e vítimas inocentes clamam por justiça? Estas são umas das perguntas que martelam na cabeça de quem se obstina a seguir Jesus nessa época difícil marcada pela indiferença, o individualismo, o ódio, a inospitalidade, a aversão visceral ao Evangelho e propostas atraentes que prometem dinheiro, poder, sucesso mesmo se isso implica em pisotear os outros, destruir a natureza e colocar de lado os valores eternos.

Natal esse ano chega num clima de cansaço. A conjuntura está para lá de complexa. Ainda uma
vez a liturgia nos convida a irmos até a pobre casa da periferia de Belém. O convite chega ao meio de uma noite tenebrosa, enquanto tentamos descansar depois de mais uma dura jornada
de trabalho pastoral entre as misérias das periferias existenciais e as incompreensões de quem
lê o Evangelho do seu jeito. Arranca-nos da vontade de bater em retirada ou de ceder à tentação de uma vida sossegada e obriga-nos ainda uma vez a colocar o pé na estrada, andando pelas mesmas ruas e vielas de má reputação que costumamos frequentar no nosso
dia-a-dia.

Não estamos sozinhos, mas em companhia de nossos/as companheiros/as de caminhada, militantes que não desistem do sonho de um mundo mais justo, de pobres, de crianças negligenciadas, de adolescentes que mal conseguem ficar em pé por causa da droga e do álcool, de vítimas das violências, de mulheres que vendem o corpo para sobreviver, de mendigos e pessoas com a ficha penal suja. Juntos andamos numa romaria que conduz a
mesma meta.

O que nos espera afinal das contas? Um empresário que decidiu doar ao nosso projeto parte da sua fortuna? Grupos de voluntários que generosamente oferecem seus serviços para aliviar o sofrimento? O político de turno que faz promessas para garantir sua reeleição?

Papai Noel que dá balas às crianças bem comportadas? A solução milagrosa aos problemas de
cada um? Afinal das contas quem consegue mobilizar-nos ainda uma vez? O ponto de chegada é o mesmo de sempre. Na meta há uma criança envolvida em faixas e deposta numa  manjedoura. Ao seu lado tem uma adolescente de nome Maria e um jovem de nome José. São seus pobres e inexperientes pais, como muitos daqueles que encontramos no nosso serviço. A atmosfera é fria. O aquecimento fica por conta do folego de um boi e um burro.

Aos olhos de quem cultivava grandes expectativas a cena resta decepcionante. Nesse momento
de dor intensa, o que pode oferecer essa criança que precisa de tudo? Qual força pode  transmitir aquele ser tão frágil? Qual esperança pode reavivar aquela criatura que veio ao mundo em condições tão desesperadoras? Que vida pode brotar de quem não sabe se vai conseguir sobreviver à miséria e à fúria de Herodes?

Como pode ser motivo de salvação alguém que não consegue nem sequer colocar a salvo sua própria pele? A primeira vista, é difícil encontrar naquela cena algum motivo que devolva ânimo e esquente o motor das motivações. É para ficar desconcertados. Pegando carona na decepção dos discípulos de Emaús, também nós cultivávamos a esperança de encontrar uma solução  mediata às muitas injustiças testemunhadas todo dia, uma mudança radical no mundo com um toque de baqueta mágica, a intervenção milagrosa de um Deus forte que até que enfim põe o ponto final na dor inocente.

Mas há somente uma criança. Dá vontade de virar as costas e ir embora buscando continuar o
trabalho de sempre contando com as forças que sobram. Mas tem um detalhe que atrai a  atenção. Apesar da noite escura e fria, não obstante a extrema pobreza da cena e seus protagonistas, a despeito da raiva e da decepção, há alegria por toda parte. Brota do rosto do menino e se espalha por todo lado, contagiando toda a criação. É uma alegria autêntica, com DNA divino, difícil de encontrar por aí nestes tempos tristes. Não vem de bens materiais, não há absolutamente nada de valor. Non deriva do sucesso.

De famoso não tem ninguém. Há somente pessoas invisíveis, obrigadas a viver no anonimato às margens da sociedade. Não nasce de amizades que contam. Não tem pessoas influentes, mas pobres para os quais as portas nunca se abrem e, caso se abram por engano,  imediatamente são fechadas em suas caras.

Tem a alegria do encontro, do abraço, da solidariedade, da partilha, da acolhida recíproca sem
preconceitos e das relações interpessoais impregnadas de amor. É a alegria que brota do Amor que se faz carne naquele Menino. Vem da coragem de abrir mão das prerrogativas divinas para assumir a natureza humana; vem da renúncia à mania de grandeza para tornar-se pequeno entre os últimos; vem da deposição do manto da onipotência para vestir o avental do serviço; vem da decisão de abandonar a cômoda transcendência que coloca a salvo de qualquer  contaminação e manipulação, para botar os pés no chão, empastasse no mesmo bairro humano, sem medo de deixar-se tocar e de fazer-se próximo; vem de um estilo de vida simples que se contenta com o necessário e fica feliz em partilhar o que é e o que tem; vem da escolha ousada de não amarrar-se somente aos círculos dos “humanos direitos”, mas de cercar-se de pobres e pecadores com o coração transbordante de misericórdia; vem da firme decisão de amar incondicionalmente.

Vem do Emanuel, o Deus conosco. Essa alegria nos atrai e nos dá novo alento para permanecermos na caminhada. É um bálsamo que cura nossas feridas e revigora nossas forças. Nesse momento precisamos muito dela. Sabemos que é a caro preço, mas vale o gasto. Não é fácil enveredar pelo mesmo caminho do Menino Jesus. É um percurso em descida rumo à posição do servo, na contramão da carreira em subida rumo ao poder e ao sucesso. Simplicidade, pobreza, paz, solidariedade, desprendimento, misericórdia, justiça e todos os outros valores eternos são indispensáveis para habitar na alegria do Menino Jesus. Sem eles a vida é só tristeza.

Tais valores são cada vez mais raros nas estantes do supermercado do consumismo que dá um sumiço no Menino Jesus ou o manipula conforme seus interesses e propõe a figura de Papai Noel que, graças a uma artificial sensação de bondade, seduz as pessoas a sentirem-se mais generosas gastando o dinheiro que não tem para presentear-se e presentear os outros.

Os valores eternos são dons que só o Menino Jesus pode nos dar. Ele traz da Trindade Santa
para compartilhá-los com a humanidade. Não tem a pretensão de transformar-nos em
divindades. Faz-se gente como nós para que, enfeitando nossas vidas com tão preciosos dons,
nos tornemos gente de verdade. Não tenhamos medo, confiemos nele, apostemos em sua
alegria e não nos deixemos atropelar pela pressa. Os tempos de Deus não são os nossos. Ele
pega o tempo necessário para salvar todo mundo.

A agressiva propaganda da sociedade de mercado oferece uma vasta gama de imitações
contrabandeadas de alegria a preços acessíveis e com resultados imediatos, mas que são
inconsistentes e duram tanto quanto os fogos de artifício que soltamos nas festas de fim de ano.

A alegria verdadeira que pode dar novo alento à nossa caminhada não está aos pés da árvore,
entre os presentes de Papai Noel, mas nas mãos abertas do Menino Jesus. A troca de presentes
é autenticamente natalina somente quando acontece aos Seus pés, apostando a vida em Seu
projeto e recebendo em troca aquela alegria que nos permite habitar estes tempos doloridos
com resistência e esperança.

Santo Natal a todos/as.

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