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Sinalizações do 1º dia do Sínodo para a Amazônia

SÍNODO DA AMAZÔNIA E A ECOLOGIA INTEGRAL (Prof. Edebrande Cavalieri)

O tema do Sínodo é a Amazônia tendo como foco os novos caminhos evangelizadores e a ecologia integral. Trata-se de um evento eclesial especial que implica a todos. Em artigo anterior tratamos da questão missionária contida nesse tema e agora passamos a refletir a ecologia integral, que está no programa de reformas que o Papa Francisco conduz a partir da Laudato Sí. Ou seja, estamos diante de um olhar urgentíssimo para a casa comum Amazônia que vai sendo destruída, queimada, desertificada. A Igreja então se faz solidária na defesa deste bioma que é também nossa casa.

Na homilia de abertura do Sínodo, o Papa Francisco utiliza a metáfora do “fogo” a partir da leitura da carta de Paulo a Timóteo (2 Tm 1,6) que diz: “Recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos”. O dom precisa ser reacendido. É preciso dar vida a uma fogueira. O dom é um fogo, é amor ardente a Deus e aos irmãos.

E logo sinaliza o caminho a ser refletido, celebrado, penitenciado durante o Sínodo. “O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros.” E acrescenta: “Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo. Contudo quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos”. E assim a Palavra de Deus deve servir para o homem cuidar da casa comum e não destruí-la. Não há incompatibilidade entre agir por uma ecologia integral e aplicar a Palavra para nortear a fé e a vida. A salvação do mundo é também nossa salvação.

No Instrumento de trabalho o tema da ecologia integral abarca toda a segunda parte e nele constam “o clamor da terra e dos pobres”, a “destruição extrativista””, os “povos indígenas em isolamento voluntário”. Como a abordagem tem a perspectiva ecológica integral, outros temas de interesse mundial como a “migração”, a “urbanização”, a “família e a comunidade”, a “saúde”, a “educação integral” e a “corrupção” também estão presentes demonstrando a interligação que nos constitui nesse mundo. Tudo está interligado, diz a letra de uma música já bem conhecida nos meios religiosos.

Antes mesmo do início do Sínodo o Papa Francisco consagra este evento eclesial a um dos santos mais referenciados entre nós, São Francisco de Assis. Foi muito bonito ver no dia 4 de outubro passado as pessoas levando seus animais de estimação para serem abençoados pelo Arcebispo de Vitória! É nesse caminho de bênção e graça que deve ser conduzida toda a ação do homem nesse mundo, criação de Deus. A bênção a estes animais não está separada da necessidade de se abençoar e proteger a vida na Amazônia. Do contrário seriamos muito hipócritas.

Mas o que vem a ser esta ecologia integral? É na Carta Encíclica – Laudato Sí – sobre o cuidado da casa comum – de maio de 2015, no número 137, que se encontra a explicação para esse conceito: “Dado que tudo está intimamente relacionado e que os problemas atuais requerem um olhar que tenha em conta todos os aspectos da crise mundial, proponho que nos detenhamos agora a refletir sobre os diferentes elementos duma ecologia integral, que inclua claramente as dimensões humanas e sociais”. Natureza e sociedade estão intimamente interligadas. Assim, pode-se perceber que a Encíclica do Papa Francisco vai muito além da concepção de ecologia como meio ambiente. Nos meios acadêmicos já é comum encontrarmos o conceito de “ecologia profunda”. Para ser integral e mostrar que tudo está interligado é necessário levar em conta as dimensões humanas e sociais.

Esse conceito de ecologia abarca inclusive a dimensão cultural dos diversos ambientes humanos. O modelo econômico que levou o planeta a este estado de degradação social e ambiental atingiu as tradições dos povos e no caso da Amazônia as comunidades indígenas e ribeirinhas impactadas pelas grandes obras como hidrelétricas e exploração de minérios. O próprio meio urbano está interligado nesta acepção de ecologia. As pessoas, aos poucos, vão perdendo sua capacidade de admiração da beleza em sua volta. A Encíclica refere-se ao Papa Bento XVI ao mostrar que “a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana”. E alerta de maneira incisiva que “uma identidade cultural e um sentido da existência e da convivência social” precisam ser preservados, pois “o desaparecimento duma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento duma espécie animal ou vegetal”.

Por este motivo, o Sínodo quer ser a voz dos povos que habitam a Amazônia. A Rede Eclesial Pan-Amazônica que é uma organização que abarca os nove países da Amazônia a serviço da defesa da região, define a ecologia integral nos seguintes termos: “Nós, seres humanos somos parte dos ecossistemas que facilitam as relações geradoras de vida para nosso planeta, por isso é essencial o cuidado com estes ecossistemas. E é fundamental para promover a dignidade da pessoa humana, o bem comum da humanidade e o cuidado ambiental”. A partir daí essa Rede nos afirma que toda abordagem ecológica trará uma abordagem social, “que deve integrar a justiça nas discussões sobre o ambiente, para escutar tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”.

Então o Sínodo nos põe diante da “voz da Amazônia”, muito silenciada, com seus gritos de dor abafados pelo som das motosserras ou das balas das armas dos predadores da floresta e dos rios. Ainda nos põe diante da “ecologia integral” com o clamor da terra e o clamor dos pobres. O grito da terra, dos animais ou das árvores é o grito dos pobres. E por fim, o Sínodo convoca os cristãos, especialmente os católicos, para serem uma “Igreja profética na Amazônia”, que encarem os desafios que virão pela frente, e sejam muitos sinais de esperança. A terra e seu povo muito esperam desta Igreja de Cristo.

A Encíclica que serve de base para o Sínodo da Amazônia ainda se refere à ecologia cultural e ecologia da vida quotidiana. Todo cristão e mais ainda os católicos deveriam ler e refletir profundamente a respeito deste documento da Igreja.

Outro ponto que nos parece importante neste momento é a exigência cristã de uma “conversão ecológica”. Não pode ser mero discurso. Não se pode ficar satisfeitos com a proteção de nossos animais de estimação. E para esse movimento de transformação somente uma profunda espiritualidade, uma mística que nos mova em cada segundo da vida, que integre nossos corpos, a natureza e as realidades do mundo. Para celebrar de maneira mais intensa esse Sínodo cada comunidade, cada família, cada grupo, poderiam desenvolver práticas espirituais integradoras.

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