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Padre Kelder justifica ausência no Prêmio Estadual de Direitos Humanos

Através de uma carta ao Conselho Estadual de Direitos Humanos do estado do Espírito Santo, Padre Kelder Brandão Figueira, pároco da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, justificou sua ausência na solenidade do Prêmio Estadual de Direitos Humanos.

A premiação, pelo reconhecimento do Padre Kelder como personalidade engajada na luta pelos oprimidos, contra as exclusões e discriminações promovidas pela sociedade, seria entregue a ele pelo Conselho no dia 10 de dezembro durante cerimônia realizada no Palácio da Cultura Sônia Cabral, no Centro de Vitória.

Na carta ele agradece a indicação  à presidente  do Conselho, Deborah Sabará, e aos demais conselheiros e afirma que se orgulha de caminhar ao lado deles durante quase 30 anos. Afirma ainda que acolhe de coração o reconhecimento, mas que a austeridade e discrição que se impõe a sua função de ministro ordenado, o impedem de receber formalmente honrarias e prêmios.

Leia a carta na íntegra

Vitória-ES, 27 de novembro de 2018

Ao

Conselho Estadual de Direitos Humanos do estado do Espírito Santo

Justificativa pela ausência na solenidade do Prêmio Estadual de Direitos Humanos

Sta. Presidente do Conselho Deborah Sabará e demais Conselheiras e Conselheiros,

Foi com alegria e gratidão que recebi a notícia de minha indicação para o Premio Estadual de Direitos Humanos, juntamente com o instituto Raízes da Piedade, que faz um trabalho de extrema relevância junto à histórica – e tão cheia de vida-, Comunidade da Piedade e entorno, mas, também, profundamente marcada por violações de direitos.
A minha gratidão é ainda maior porque tenho grande admiração e respeito pela luta incansável de vocês, conselheiras e conselheiros, muitas das quais amigas e amigos de longa jornada, em defesa da vida e da dignidade do gênero humano no Espírito Santo, à custa de renúncias e sacrifícios, enfrentando, cotidianamente, inúmeros desafios postos pelo Estado e pela sociedade.
Essa indicação se torna ainda mais significativa nesses tempos tão adversos às causas dos Direitos Humanos e que sabemos, irão se tornar ainda mais difíceis diante do cenário político e econômico delineado no país. Mas quando foi que militante, conselheira ou conselheiro de Direitos Humanos teve vida fácil? Continuaremos fazendo o que sempre fizemos. Como diz Guimarães Rosa, o correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Continuaremos firmes na defesa da vida, liberdade e dignidade de todas as pessoas.
Queridas conselheiras, conselheiros e militantes de Direitos Humanos, eu tenho vocês como verdadeiras sacerdotisas e sacerdotes da sacralidade da vida humana e de toda criação e muito me orgulho de caminhar com vocês ao longo destes quase 30 anos. Vocês me ajudam no exercício do ministério e me fazem ser um padre melhor do que poderia ter sido. E os que me conhecem pessoalmente, sabem da sinceridade destas palavras.
Com vocês aprendo que a Lei só é sagrada quando está a serviço da vida das pessoas e que nada no mundo pode se sobrepor à dignidade do ser humano. Isso é divino! E vocês fazem com que isso se torne concreto em meio a uma sociedade desumana e cruel e diante de um estado que não cumpre a sua função social de salvaguardar aquilo que de mais precioso existe no mundo: a vida de cada ser vivente. Vocês são uma inspiração!
Queridas conselheiras e conselheiros, ombreado com cada uma e cada um de vocês na defesa diária e intransigente da vida e da dignidade do gênero humano, acolho e agradeço do fundo do coração o reconhecimento, a confiança e o carinho que vocês demonstraram. Contudo, a austeridade e discrição que se impõe à função de um ministro ordenado me impedem de receber formalmente honrarias e prêmios. Sendo assim, não poderei receber o prêmio que me concederam.
Certo de contar com a compreensão generosa de cada conselheira e conselheiro e desejoso de não causar nenhum constrangimento ao Conselho Estadual e ao Movimento Estadual de Direitos Humanos, despeço-me com afeto e gratidão,

Pe. Kelder José Brandão Figueira

Primavera de 2018

 

 

 

 

 

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