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Você tem que ser um paladino do esprit de finesse

O Tuareg de Alberto Vazquez Figueroa, livro lá dos anos oitenta e que também já foi levado às telas do cinema ganhou agora a minha leitura. E que bom que lhe dei atenção, mesmo que com atraso. Um belo romance que nos aproxima do deserto, nos faz percorrer suas dunas, ansiar por seus oásis, nos angustiar com seus vazios, mas que especialmente, ao nos fazer seguir com o personagem principal, nos ajuda a pensar a vida que vivemos e aquela outra que nos sorriria se fôssemos mais conectados com os ambientes, cenários e mundos onde nossas vidas acontecem. E mais, dando um salto a partir da leitura e fazendo-a dialogar com outra fui levado a pensar que quando a vida nos chamar à firmeza da pedra, ou quando o mundo quiser nos impor o endurecimento nos modos de ser, não desprezaremos jamais o esprit de finesse.

Se foram muitas as reflexões que me atravessaram no decorrer daquela semana em que li o livro, e que ainda agora me perseguem, uma está em destaque: a atitude que aquele homem das areias e dos ventos tomava pra preservar a vida na longa jornada pelas terras vazias. Ele, em seus momentos de repouso debaixo de sua precária tenda – e aqui está o ponto –, buscava ser apenas uma pedra do deserto. Uma a mais dentre aquelas. Aquietava-se de tal maneira a não mover-se absolutamente em nada, para não perder pelo mínimo esforço nenhuma gota a mais de água do organismo.

Ali, imóvel, guardando a vida, ele transformava-a em pedra como única e absoluta possibilidade de salvação. E essa era indubitavelmente a única alternativa para manter-se vivo. Na pedra, todavia, naquele homem magro recoberto de leves tecidos azuis empoeirados haveria de persistir suavemente um respiro. Um pequeno respiro, a invisível porosidade da pedra, a leveza escondida em seus vazios, a delicadeza em sua rigidez, a dança e persistência em atravessar o deserto em sua imobilidade.

É certo que – permitindo-me um salto com metáforas – as realidades, as terras vazias, os desertos nos quais nos perdemos nesses tempos difíceis têm nos impregnado das densidades e asperezas de pedra. Até somos bem convincentes em justificativas para os nossos endurecimentos. Mas, o mais triste é não percebermos que o endurecimento nos propósitos, nas lutas, na defesa de pontos de vistas nos tem feito desprezar – isso é um fato – o esprit de finesse, esse leve componente nas nossas respectivas militâncias que intenta a preservação da vida, sua promoção, seu florescimento. Sem esse espírito mais do que intrépidos defensores dessa ou daquela causa nos tornaremos inexoravelmente em ótimos e eficazes instrumentos para ferir e machucar os outros e, por consequência, a nós mesmos.

Sobre esse mesmo espírito encontrei umas boas palavras na forma de um conselho numa crônica perdida de Hélio Pellegrino, num desses livros de “sebo” que adquiro via internet. Sem ele, diz Pellegrino, o mundo certamente apodreceria por excesso de racionalismo arrogante e paranóico. O esprit de finesse seria sufocado pelo esprit de géométrie (digo eu usando as expressões de Blaise Pascal).

Apropriando-me do que este cronista-psicanalista escreveu dirijo-me, em primeiro lugar, o conselho que ele mesmo recebeu de um frade, e em segundo, a todos os que lutam suas lutas, das mais pessoais até as mais nobres e coletivas: você tem que ser um paladino do esprit de finesse. Digo então a mim mesmo: torne-se pedra quando assim a vida exigir, seja firme, seja persistente, mas não esqueça, em hipótese alguma, de manter mesmo na firmeza que as lutas exigem o esprit de finesse, de gentileza, de delicadeza.

Dauri Batist
Padre, psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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