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Viver a música e cantar a poesia

As mensagens que a música e a poesia são capazes de transmitir e o sentimento que elas podem despertar nas pessoas que as ouvem são considerados pelo cantor, compositor e poeta José Vicente seus dois grandes legados. A fé e a esperança são presenças marcantes em seu trabalho autoral e tornaram-se para ele instrumentos de mudança de consciência e de atitudes para um futuro no qual exista amor, justiça e alegria pela vida.

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vitória – José Vicente, sua trajetória é longa cantando música mensagem. Quais os desafios de viver da música?
Zé Vicente - Esse ano são 36 anos com a música. Antes da música, cerca de cinco anos antes, eu comecei com a poesia de cordel, que para nós no Ceará, no Nordeste, no “sertãozão”, é algo musical. É um estilo de poesia muito íntima de violeiros, improvisadores, repentistas. Então, contando tudo, é uma boa caminhada. Desde o começo fui gerado com essas influências; do cordel, do sertão, da Paraíba, do Ceará. Meu pai é da Paraíba, minha mãe do Ceará, e eles batiam nas bacias de lavar roupa, aquelas bacias de ágata, improvisando uma música. Então, essa escola me ajudou a entender e viver essa mensagem, que é ao mesmo tempo é religiosa, popular, mas que ao mesmo tempo é cultural, do dia a dia, do cotidiano. Penso que ter isso como meta foi clareando, clareando e era como se fosse algo a me dizer que eu podia cantar a mensagem que é cristã, que é aberta, que é cultural, que é social. Sobreviver disso é assim: até 1988 eu fui agricultor, professor, organizador de assistência comunitária e tive várias outras profissões. Em 1988, eu descobri uma coisa simples, se a música estava me chamando, eu iria apostar nisso. Cheguei com a carteira de trabalho e disse: pode dar baixa. Nunca mais ela foi assinada. Se a música me chamou, ela ia me dar comida.

vitória – Você também é poeta. As letras das músicas são todas suas ou também são feitas em parcerias?
Zé Vicente – Bem, as duas modalidades. Eu sempre fui um cantor autoral, principalmente na música mais religiosa, celebrativa, que celebra uma fé transformadora, comprometida que nos impulsiona para uma missão de abertura do grande lastro social, cultural, da natureza, do meio ambiente. Somos porta-vozes dessa história e cada vez que mergulho, acabo sendo mais exigente comigo também. Com relação às parcerias, desde o começo, essa história me pareceu muito interessante. Para mim a parceria acontece quando estou junto, na presença da outra pessoa. Tenho parceiros como o José Martins, um grande amigo, e temos essa coisa de compor juntos, e com toda a liberdade ele chega e abre para mim um poema que nasceu dele. Com o padre Zé Antônio, que é compositor das letras das Campanhas da Fraternidade, também funciona assim, com essa coisa de estar junto. É uma amizade na qual tenho toda liberdade de propor uma mudança para que a música fique melhor e vice-versa. Eu já compus muitas músicas de poemas de outras pessoas. Nesse trabalho mais recente, “Zé Vicente da Esperança”, aconteceu isso. É interessante quando o poema me puxa a música, isso é um processo muito interessante. Eu leio um poema que alguém criou e se na primeira leitura me vem a música, acho que foi o poema que pediu e veio uma música que não me pertence. Acho que isso é uma boa receita de parceria. Com a irmã Rosana Pulga, que atualmente mora aqui em Vitória também é assim. Minha admiração por ela vem com a paixão que ela tem pela palavra. Acho que aquela paixão, aquele amor, aquela simplicidade popular dela com a palavra, dá liberdade dela me deixar um bilhetinho dizendo: Zé, olha ai! Eu olho e na primeira leitura sobre a palavra e sobre o Mestre, me vem a música.

vitória – Qual é a principal mensagem que quer transmitir com suas músicas?
Zé Vicente – Eu penso que a pergunta é: O que as pessoas sentem quando escutam uma canção que eu compus, um poema que eu fiz? Acho que me considero um ser humano teimoso de esperança, encantado com a grandeza e com a beleza da vida, e não só da vida que se expressa pela religião, mas para além disso. Eu quero que minha música seja um instrumento de encantamento das pessoas não um doutrinamento.

vitória – Sua música tem influência de ritmos nordestinos, é uma música alegre e que traz mensagens de esperança. Diante da atual situação que vivemos hoje no Brasil, de desesperança na política, na economia, ainda existe empolgação para compor e cantar?
Zé Vicente – Eu tenho esperança de alcançar aquilo que a gente não vê. O que estamos vivendo hoje no Brasil é quase como se fosse para não enxergarmos muitos caminhos de saída. É um grande teste. Se cantei tanto, insisti tanto na esperança, eu vou continuar teimando que essa esperança que eu cantei e vou continuar cantando e repetindo tantas vezes, essa utopia que eu consagrei minha caminhada a ela, não vai me decepcionar. Eu quero ver para além dessa sujeira, dessa falta de ética, dessa corrupção toda, dessa justiça que parece de encomenda nas mãos dos poderosos e deixando as multidões ao léu. Eu quero dizer que eu prefiro que essa música que eu fiz, seja sim trilha sonora da história que nós não vamos abrir mão de construir. De direito, de justiça, de alegria, de vida. Quando eu vejo essa juventude sendo morta a cada dia, nas periferias de todas as cidades do Brasil. Essas crianças, esses idosos abandonados, essa multidão, sem saber para onde ir e muitas vezes sendo usada, inclusive em nome de Deus por falsos pastores, pregadores, em nome da fé, eu preciso afirmar que a profecia precisa se valer também, interna dentro das igrejas, mas para além disso. Interna dentro dos nossos movimentos sociais, mas para além deles. Interna desses que acreditaram que é possível construir um país a partir dos espaços políticos, mas é possível construir uma história diferente apesar de tudo isso. Eu quero que a música, a poesia que eu acreditei de fazer, que eu optei por fazer, seja um pouquinho dessa trilha sonora que ajuda a gente a caminhar, sonhar, se encantar.

vitória – Alguma música em especial marcou sua trajetória?
Zé Vicente – Com certeza Utopia. Há muito tempo eu dizia, mas a Utopia, ela é música: Quando o dia da paz renascer quando o sol da esperança brilhar, eu vou cantar… É sempre dizendo “eu vou cantar”, mas eu quero dizer que eu já quero cantar coisas que a gente provou. Nós provamos, nós somos testemunhas de um tempo vivido muito curto, de que foi possível dizer assim: Poxa vida, é possível que os negros tenham espaço nas universidades, que as crianças tenham arte nas escolas, que as prisões precisam se abrir para outros caminhos, porque prisão não corrige, que a gente possa ter cada vez mais a dignidade da mulher respeitada e ela protagonista, chegando a ser presidente deste país, sendo respeitada e ajudada. Então, quem provou isso não pode nunca mais abrir mão de pensar que é possível.

vitória – Tem um tema do qual você tem preferência em falar nas suas músicas?
Zé Vicente – Tenho uma preferência sim. O que eu não falei ainda, o mistério. Nós que vivemos nesta história, nunca achar que já dissemos tudo o que tínhamos para dizer. As vezes eu tenho essa tentação, e quando eu gravei o último trabalho eu senti um pouco isso.
Mas na medida que me aparece um ou outro parceiro me fazendo pronunciar palavras novas, coisas novas, penso que é tempo de silenciar um pouco, esperar essas novidades que vem. E vejo que tem várias coisas que ainda tenho que cantar. É como se fosse uma inquietação, como se eu tivesse esperando, aberto. Eu abro a janela e percebo que tem muitas coisas novas que ainda vão passar nesta rua, que estão nas esquinas.
Enquanto eu tiver essa lucidez de viver, eu fiz 63 anos este ano, eu quero ter essa inquietação de criança. Hoje meus melhores professores são meus sobrinhos netos e os meus vizinhos lá do sertão onde moro. Essas crianças com 2 e três anos estão me ensinando a dizes: olha existe a infância, existe a inocência, existe a ousadia e ser criança, existe um poder profundo, divino que pulsa em nós. Então, eu penso que o melhor é deixar que o meu menino interno, que vive dentro de mim e nunca se deixou contaminar pelos medos que têm os adultos, que esse menino volte de novo a dialogar e possa se pronunciar.

Andressa Mian

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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