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Vivendo um dia de cada vez

Claudio Costa é um senhor carismático, muito conhecido por quem frequenta, e querido pelos funcionários da Livraria Paulus, no Centro de Vitória. Quase todos os dias ele está por lá, seja para comprar livros e cartões, ou para abraçar os aniversariantes do dia. Para ele, agradecer pelo dia de hoje é o mais importante da vida.

Entrevista 2

vitória – O que te traz, quase diariamente, a essa livraria?
Claudio – Primeiro porque eu gosto muito de ler. E segundo porque eu já criei um laço aqui na Paulus. Todo dia eu chego e digo para eles qual o dia do ano, geralmente pondero quantos dias faltam para acabar o ano e tem uma brincadeira um pouco satírica: algumas pessoas não amanheceram hoje. Isso é só pra nortear que a gente deve viver o dia de hoje da melhor forma possível, que a gente só tem ele. Ontem pertence ao passado e amanhã é uma incógnita de Deus.

vitória – Por que faz essa contagem?
Claudio – Eu sou treinado na área de Ciências exatas, então tem que ser preciso. Por exemplo, hoje é o dia 224 do ano, então faltam 141 para acabar. É uma forma de situar onde a gente está e, quanto falta, é uma meta a ser percorrida dia a dia. Aqui tem um cartão que diz, grandes caminhadas começam com um primeiro passo. Tem gente que levanta de manhã e não sabe nem em que dia da semana está. A gente vê que precisa estar no tempo presente e este tempo é hoje, que é o único presente de Deus que nós temos.

vitória – O que o senhor faz para aproveitar o seu hoje?
Claudio – Eu trabalho com agenda, meu dia é programado, todas as atividades que eu pretendo executar hoje eu programo no dia anterior. Sou robô? Não. No dia seguinte eu avalio, se surgir imprevisto, cuido deles, e reprogramo o que não consegui fazer hoje. Antes, ao amanhecer, eu agradeço a Deus por estar vivo, respirando, é o meu primeiro ato. Eu agradeço o dom da vida a cada instante.

vitória – Como o senhor encara a vida e a morte?
Claudio – A vida eu encaro como oportunidade de crescimento e vivência espiritual através do servir ao próximo e a morte é uma etapa de transição. O ser humano na minha visão é um receptáculo de Deus, cada um uma antena, cada um uma frequência espiritual. Por isso o dom da vida é uma oportunidade de crescimento e serviço, e a morte essa oportunidade da transição. Na Igreja Católica, por exemplo, a missa de sétimo dia, é para o corpo que terminou a missão ou para a alma e para o espírito? É só observar que o padre diz: a alma, o espírito está sendo acolhido no seio de Deus.

vitória – O senhor é bastante observador…
Claudio – Um aprendiz. Essa é a melhor colocação que eu me defino. Eu tinha uma brincadeira com minha filha, hoje com 28 anos, que era o caldeirão da bruxa. A bruxa pegava todas as crianças e colocava no caldeirão, isso é uma história infantil, depois tinha sempre alguém para salvar as crianças. Eu peguei esse caldeirão e o tornei uma metáfora de vida, ou seja, tudo o que eu sei entra no caldeirão. Na hora de servir, tem que sair alguma coisa dele, se não tiver ali eu preciso procurar alguém que saiba para ajudar quem está precisando.

vitória – Antes da entrevista o senhor disse que sua filha não morava mais aqui. Como é a relação de vocês?
Claudio – Ela mora em São Paulo desde os três anos. Eu separei da mãe dela, temos uma relação bem tranquila em relação a isso, ela é excelente mãe, mas se a parte do pai não fosse feita ficaria um imenso vazio no coração dessa criança. Então dos 3 aos 10 anos dela eu ia a São Paulo a cada 15 dias. Mas passei parte do tempo achando que estava perdendo a infância da minha filha, os melhores anos da vida dela. Conversando com a avó de um amigo meu ela me disse algo que soou como um norte para mim: têm pais que estão dentro de casa e estão ausentes, o que importa é o que vocês estão fazendo quando estão juntos. E isso me confortou porque eu e a Pâmela passávamos bons tempos juntos, eu deixava ela aprontar tudo. Existe uma história interessante que se chama nó do afeto. O pai chegava tarde, o filho já estava dormindo, então ele dava um nó no cobertor. O menino sentia a presença do pai todas as manhãs quando acordava e via o nó. Não havia ausência ali. Pensando nisso, eu passei a escrever cartas para minha filha e esse foi o nosso nó de afeto. Desde os 3 anos, eu mandava uma carta toda semana via Correios.

vitória – Mesmo a visitando a cada 15 dias?
Claudio – Não importava. E depois ela foi crescendo, vinha aqui, e mesmo assim eu postava a carta para ela. Essa carta tem sempre um cartão com uma mensagem construtiva, que eu compro aqui na Paulus; depois teve uma coisa que eu me baseei em toda a criação da minha filha, que é um provérbio de Salomão: Instrui a criança no caminho que deve andar, que até quando envelhecer, ela não se desviará dele. Há dois anos, minha filha veio me falar que eu precisava trocar esse carimbo porque ela havia crescido. Aí eu disse que ela estava enganada, porque essa criança é o ser que precisa sempre de aprendizado, aí ela entendeu a mensagem e o cartão continua indo na carta (risos).

vitória – E nessas cartas o que o senhor diz para ela?
Claudio – Quando ela era pequena, toda a coleção do Smilinguido também foi mandada. Era sempre uma história construtiva. Depois ela foi crescendo e a mensagem foi mudando. A nossa comunicação é aberta, conversamos sobre tudo e outra coisa interessante, num determinado ponto da história, eu na minha juventude namorei uma menina que me passou um código para nos comunicarmos e eu guardei. Em determinado momento, para preservar as conversas com minha filha, quando o assunto era muito íntimo, a carta ia no código. Não sei se a mãe dela já pegou alguma até hoje, (risos), mas quando o assunto é mais delicado vai em código. Eu passei para a minha filha e fiz um trato que ela só passasse esse código para os seus filhos, quando precisasse tratar de algum assunto privado.

vitória – Ela responde o senhor via carta também?
Claudio – Isso é interessante. De 3 aos 15 anos, eu não sabia o que era feito dessas cartas. Quando ela fez 15 anos, me fez uma carta e comentou duas coisas: ‘papai, obrigada por não ter me abandonado’ e ‘eu guardei todas as cartas’. A partir daí ela passou a responder as cartas, desde lá de trás. A Pâmela tem uma habilidade, que eu também tenho, chamada a habilidade de síntese, ela percebe várias coisas e junta, sem saber que eu sou assim também (risos), então o diálogo fica muito interessante. Como as cartas são de muito tempo, ela faz uma avaliação dela atualmente, com aquele tempo que estava acontecendo, e nós dois crescemos com isso. No momento ela deve estar com umas 300 cartas pra responder. No ano passado ela pediu para eu mandar uma carta por mês para ela se equilibrar nas respostas. Uma carta que ela me enviou tinha 180 páginas, imagine!

vitória – O que o senhor pretende, estabelecendo esse tipo de comunicação com ela?
Claudio – Eu sinceramente não sei onde vai dar isso, mas uma coisa é certa, e que está muito em voga na psicologia, a resiliência. Uma coisa que eu preciso compartilhar, é que desde 96 existe um grupo chamado ‘Rede de Amigos’. Se você for prestar atenção, as notícias hoje, em sua maioria, são tragédias e a gente acaba achando que o mundo está uma droga, o que não é verdade. O grupo, uma vez por semana, compartilha um texto construtivo via email. A ideia é que a pessoa pegue essa experiência, nunca o mal prevalece nesses textos, e bola pra frente. Assim é a resiliência, algumas pessoas passam por alguns acontecimentos emocionais e não se “quebram”, incorporam aquela experiência e voltam ao padrão antigo, tocam a vida. Então nesse diálogo nas cartas com a minha filha, é uma forma de ir mensurando esse crescimento. Eu não sei onde vai dar isso, nem sei a finalidade, começou quando criança e está fluindo até hoje. Depois que o email chegou, acharam que os correios iriam falir. E hoje tem um perigo que eu acho pior ainda, que são as redes virtuais. Para mim, com toda a tecnologia, nada substitui o contato pessoal. É aniversário dos amigos aqui da Paulus e eu venho pessoalmente dar um abraço em cada um. A tecnologia não vem pra dividir, vem para somar, não para o homem se isolar. E aí com todo o aumento da tecnologia parece que o homem vai ficando cada vez mais triste, mais distante, começando na própria família. Eu venho de uma geração que na hora do almoço meu pai obrigava a parar tudo para nos sentarmos à mesa. Hoje é um dentro do quarto o outro na frente da televisão, então esse aspecto de família se perdeu, mas o problema não é da tecnologia. O ser humano tem que cuidar dos valores espirituais e familiares. Se cuidar, a família permanece unida.

vitória – O que o senhor faz atualmente?
Claudio – Eu hoje estou jubilado, porque essa palavra aposentado é terrível (risos), mas continuo na ativa com parcerias em escritórios de engenharia. Minha formação foi bem eclética, eu fazia engenharia, assistia aulas na Bioquímica e participava das palestras e discussões da Filosofia. Sempre fui da turma do atletismo também, então participo de maratonas, continuei com a procura pelos fundamentos espirituais e participo de missas também na Igreja católica. Inclusive sou muito feliz com o Papa Francisco e torço para que ele consiga implementar essa unidade que a Igreja não deveria ter perdido.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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