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Vida virtuosa no contexto atual: é possível construí-la?

Na linguagem ética e religiosa, virtude indica os bens que as pessoas justas e retas perseguem, ou as prerrogativas de que se acham dotadas, ou as qualidades em virtude das quais realizam o bem. É preferencialmente esta última a acepção que aqui se analisa.

A virtude está ordenada ao agir. Um dos dados mais importantes na teoria da virtude é o que a considera ordenada ao agir bem: é princípio de atos humanos bons, torna bom o que opera e as obras que realiza. É dado complexo e faz-se mister esclarecê-lo.

A pessoa, como imagem de Deus, está estruturada para ser em ato ela mesma. “Sendo a substância de Deus sua ação, a suma semelhança do ser humano com Deus realiza-se segundo o operar, o agir”. (Santo Tomás, S. Th., I-II, q. 55, a. 2, ad 3).

Assentir livremente ao bem equivale a querer orientar a própria vida em conformidade com suas exigências. A ação boa não é uma atividade qualquer, é fundamentalmente comunhão de conhecimento e de amor com o bem supremo, tal como o agente o conhece e o acolhe. A ação moral é gravitar pessoalmente no mundo de Deus, deixar-se conformar a ele, secundar sua moção, crescer na disponibilidade da escuta, na decisão de orientar a própria vida segundo as indicações que aceita dele. Esta atitude complexa qualifica o agente e as obras que realiza em coerência com sua condição.

Levar isto a cabo significa saber o que fazer, como fazê-lo, querer fazê-lo, perseverar em fazê-lo, fazê-lo concretamente, dia após dia, sem deixar bloquear ou paralisar pelas dificuldades que, com metódica monotonia, dificultam o caminho. A perseverança no bem exige que a inteligência, a afetividade e a disposição para executá-lo convirjam; que a pessoa explicite o estilo de fidelidade a que deseja dar seu consentimento e que o assuma como parâmetro mediante o qual retifica o caminho.

A vida virtuosa não é atitude intermitente ou improvisada; é modo de existir na liberdade; é orientação tendencialmente estável e fiel. Isto não significa que as pessoas virtuosas sejam impecáveis; no entanto, a experiência da imperfeição e do limite não as induz a se legitimarem, a serem indulgentes consigo mesmas e severas com os outros; a tolerarem sua própria miséria; sofrem por causa dela, impedem suas manifestações e vigiam para que ela não aumente seu domínio.

A virtude é problema pessoal e comunitário; diz respeito às pessoas em seus comportamentos e as enraíza na família humana e na comunidade de salvação; apresenta-se de modo autêntico quando é, em todos, vontade de viverem juntos, diferentes, respeitando a condição específica de cada um e na co-responsabilidade pela comunidade de todos.

Pe. Antônio Tatagiba Vimercat
Vigário geral da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e Professor de Teologia Moral 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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