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VAMOS CONVERSAR SOBRE SOLIDÃO?

Tanto queremos companhia, tanto queremos estar com outros e conectados por imagens e mensagens que, afinal, haveremos de admitir: temos andado sozinhos. Vamos conversar? Pois bem, pra começar, bom é dizer que há saberes que nos são acessíveis somente quando damos voz ao que se movimenta em nós. Certos saberes não se configuram em atitudes a não ser que antes elaboremos em conversas o que se passa em nós e no mundo. E outro motivo para isso é que, de um modo ou de outro, esta é uma realidade que nos atinge a todos, ainda mais nos tempos atuais.

Na verdade a proposta da conversa sobre solidão através deste texto (ou sobre qualquer outro assunto) não necessariamente tem o “ideal” de chegar a acordos ou conclusões. Antes, a conversa quer ser a tentativa de aproximar corações, pois que tão difícil quanto admitir a solidão é a experiência de defini-la, explicá-la, dar-lhe sentidos e encontrar-lhe potências. A alternativa que restará se dela não falarmos é carregá-la como peso pela vida afora. E sabemos que ao nos indagarmos sobre a vida e o mundo estaremos, no fundo, nos perguntando sobre o que estamos fazendo de nós mesmos.

Bem, sobre a solidão, o que cada um pode… constatar? A Solidão é uma experiência de todo ser humano, mas parece ser vendida como se fosse a realidade apenas de alguns infelizes. Ela é difícil de ser confessada, pois sempre é associada com aspectos negativos tais como lamúria, sentimentalismo, incompetência, fraqueza e fracassos. Ignora-se em decorrência dessa dissimulação da realidade toda uma potência de vida que pode estar no solitário. A ignorância dessas realidades faz com que se proponham ilusões românticas permanentemente às pessoas, vendidas às tortas e às direitas, como se o romantismo fosse capaz de dar conta de toda uma situação de sofrimento que tem suas raízes em muitas outras causas. Mas fica assim: parece que é só encontrar sua cara (barata) metade e tudo está resolvido.

É preciso (se pudermos falar assim sem ser arrogante) desvincular a solidão desses aspectos negativos que lhe são sempre postos e do romantismo como solução aos solitários. O amor romântico não é solução para tudo. É preciso prestar atenção às outras forças que falam no e pelo solitário. Ao invés de choro a solidão pode estar a cantar um protesto às mortificações constantes e permanentes aplicadas a todos pelos modos contemporâneos de viver.

A falta (carência) para a qual a solidão remete talvez evidencie que a sociedade com o consumismo que lhe é inerente não é capaz de preencher, saciar, dar sentido à vida humana. A solidão de tantos desmascara essas exageradas propostas de felicidades que são vendidas de infinitas maneiras. Ao invés de pensar no que falta ao solitário talvez fosse interessante observar de que outros possíveis mundos ele está belamente povoado.

Ainda, a solidão não deixa de se configurar nas suas dobras e redobras como poderosa resistência aos controles a que estamos submetidos. Quando mais integrados no mundo contemporâneo mais controlados, disciplinados e adoecidos estamos. O solitário ao se manter um pouquinho à parte do mundo que aí está pode ser portador – não de um adoecimento ou uma síndrome qualquer que passa pela inabilidade de convívio e integração social – mas de um movimento de saúde a que haveríamos de prestar atenção.

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Dauri Batisti
Padre, psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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