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Uma comunidade de palavra e vida - parte I

O texto dos Atos dos Apóstolos, em várias passagens, apresenta quadros que indicam como viviam as primeiras comunidades cristãs, fundadas sobre a profissão de fé de Pedro e dos apóstolos. Uma destas passagens se encontra em At 2,42-47, na qual se vê, bem descrita, uma comunidade fundamentada em suas quatro “colunas”: “Mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do Pão e às orações” (At 2,42). Em dois artigos apresentaremos cada uma destas características fundamentais deste texto do livro dos Atos dos Apóstolos e o quanto elas se tornam necessárias para nossas comunidades ainda hoje.

A primeira “coluna” é o encontro fecundo com a Palavra de Deus, a pregação da mesma, uma voz que parte da Igreja e a todos propõe o primeiro anúncio: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo, arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Os apóstolos proclamam a decisiva intervenção divina na história humana, a morte e ressurreição de Cristo, que inaugura o Reino de Deus (At 4,12), convidando a todos a acolherem a fé e a se tornarem também anunciadores desta boa nova – discípulos missionários. Tal dimensão catequética presente na comunidade deve propor o primeiro anúncio da salvação a todos, ajudando aos irmãos e irmãs a entrarem em comunhão com o mistério do Amor de Deus. A intenção é a de formar discípulos missionários, à luz da Palavra de Deus, introduzindo-os no mistério de Cristo.

Somente a Palavra de Deus encarnada na vida da pessoas, proclamada com autoridade, competência e simplicidade é capaz de iluminar a realidade e a história de cada discípulo. Essa faz brotar no coração de cada um a mesma pergunta que foi feita aos apóstolos depois da pregação no dia de Pentecostes: “Irmãos, que devemos fazer?” (At 2,37). Ao mesmo tempo, a Palavra anunciada revitaliza os passos dos discípulos ao longo do caminho, pois é o sinal claro da presença de Cristo que “sopra as cinzas do coração dos seus discípulos” como também aconteceu com os discípulos de Emaús (cf. Lc 21,32-33).

A comunhão fraterna, a caridade ativa, é a segunda “coluna” que sustenta a comunidade dos discípulos missionários. Esta se verifica na vida daqueles que se tornam discípulos de Cristo, “aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21), se atualiza naqueles que “têm fome e sede de justiça” (Mt 5,6; 6,33) e se torna realidade na opção preferencial pelos pobres, a fim de que tenham vida, e a tenham em abundância, como nos indica o próprio Senhor (Jo 10,11; 15,13).

A escuta autêntica e verdadeira da Palavra de Deus deve conduzir à sua observância e à sua prática, fazendo desabrochar na vida a justiça e o amor, a solidariedade e a partilha, a comunhão e o compromisso, particularmente com os empobrecidos e excluídos da sociedade. Esse clamor da Palavra deve chegar lá onde existe o sofrimento e a dor, a angústia e a falta de esperança, a pobreza e a exclusão, a desigualdade e a corrupção, levando um sopro de vida que cura as feridas e uma luz que indica o caminho. Cristo é a Palavra Viva do Pai, em suas feições, em seu olhar, em suas palavras e em seus gestos, a comunidade dos discípulos deve contemplar o rosto de cada irmão e irmã — semblantes alegres e cheios de esperança, mas muitas vezes sofridos e marcados pelas dores e angústias, rostos de cada criança, jovem, adulto e idoso. Ao acolher o Senhor, cada discípulo é chamado a acolher também as dores de cada irmão e irmã neste mundo, deve se tornar um Bom Samaritano, isto é, próximo de seu próximo.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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