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Um mosaico da crise de segurança no Espírito Santo

AtualidadeA redação da Revista Vitória, mesmo correndo o risco de fazer desta editoria uma atualidade desatualizada, escolheu trazer para este mês algumas reflexões sobre a crise de segurança que o Estado do Espírito Santo vive. Uma Revista mensal não pode tratar de “factualidades”, neste caso por duas razões, a primeira por conta de sua própria natureza (Revista da Igreja Católica); a segunda por razões óbvias de tempo (enquanto se apura, escuta especialista na cadeia dos envolvidos o fato já se tornou passado), corre-se o risco de propor a análise de uma etapa que na hora da publicação já foi superada. Por isso, não vamos reportar os fatos, propomos aqui para reflexão daqueles que querem ir além do “senso comum” ou do “mais do mesmo”, alguns pensamentos que coletamos durante estes tempos e jogam luzes sobre o caos na segurança.

Ocasionalmente, nossa equipe esteve em um dos bairros considerado com alto índice de violência e em conversa informal ouviu de alguns moradores: “aqui a nossa rotina continuou normal, estamos acostumados a conviver com a falta de segurança. Sinceramente já vivemos momentos piores”. Não vamos identificar as pessoas e o bairro, pois o desabafo foi espontâneo em meio a outros assuntos. Em outro bairro, também de periferia, nos dias em que o comércio não abriu e os ônibus não circularam, a ordem dada pelo comando clandestino foi de que poderiam abrir as portas até às 18h, pois eles (estavam armados) fariam a segurança do bairro. Poderá ser este um momento para que as pessoas olhem a realidade saindo dos limites do horizonte em que estão acostumadas?

Destacamos algumas opiniões de Emerson Campos, Vitor De Ângelo, Jacqueline Muniz, Leonardo Boff e Maurício Abdalla, publicadas em portais e redes sociais.

EMERSON CAMPOS
“[...] mais absurda que a própria situação – e aqui não estou discutindo as motivações ou a legitimidade do movimento dos policiais militares, tampouco a gravidade dos crimes cometidos nas ruas – é a aceitação do discurso (elaborado e amplamente divulgado por toda a mídia) de que a violência começou no último sábado (5 de fevereiro) e vai acabar quando a PM voltar. Não vai. Para grande parte da classe média, a barbárie pode ter tido início no último sábado (5 de fevereiro). Para a periferia, ela é o cotidiano. Os jornais só não mostram isso”.
“[...] Se a imprensa não cobre como deveria, imagino que deva ser mesmo difícil para alguns grupos sociais aceitar que o medo, a violência e a barbárie fazem parte do dia-a-dia do Espírito Santo, sobretudo para quem nunca entrou em um bairro de periferia dominado pela disputa do tráfico de drogas, onde o estado não chega de forma alguma, a não ser fardado (e normalmente em condições não amistosas, para não dizer outra coisa”. [...]

1) Será que a classe média sabe que está experimentando uma amostra pífia do medo que os moradores da periferia vivem diariamente, provocado, inclusive, pela própria PM? Que os mais afetados pelo movimento são os mais pobres, obrigados a atravessar o fogo cruzado do acerto de contas entre diferentes grupos criminosos?

2) Será que uma parte da solução para a violência que a classe média está testemunhando nestes dias (reforçando: que existe no cotidiano dos mais pobres) não é a desmilitarização da polícia? Ou, pensando na extinção e desarticulação dos grupos criminosos, a legalização da produção, venda e consumo da maconha?

3) É possível se solidarizar com os militares como companheiros da classe trabalhadora (mesmo sabendo das condições precárias do trabalho) quando os mesmos se reafirmam manifestação após manifestação (de professores, estudantes…), com balas e muita porrada, como pertencentes a uma outra categoria, que vive sob outro conjunto de leis e privilégios?

4) Existe jornalismo crítico no ES? Até quando a cifra vai valer mais que a vida? Ou que o resultado do problema será mais importante que a causa”?

Emerson Campos é jornalista e doutorando no programa de pós-graduação em educação da Universidade Federal do Espírito Santo. Publicado em www.domtotal.com.

VITOR DE ÂNGELO
“[...] após a entrevista “chapa branca (que esconde a realidade e favorece assuntos com vantagem para o entrevistado) a Miriam Leitão, na Globo News, na quinta à noite, a mídia nacional e capixaba, em particular, incorporaram apenas o discurso oficial sobre os fatos ocorridos no dia de ontem. Pouco ou nenhum espaço foi dado ao outro lado dessa mesa de negociações que está se mostrando farsesca”.

Vitor de Ângelo é doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade de Vila Velha. Publicado em seu perfil no facebook.

JACQUELINE MUNIZ 

BBC Brasil - Como você avalia a atuação do governo do Espírito Santo nessa situação?
Muniz - O governo não pode se colocar como refém, como vítima da polícia. É preciso lembrar que o comandante em chefe das polícias estaduais, de acordo com a Constituição brasileira, é o governador do Estado, não é o comandante-geral da PM e nem o chefe da Polícia Civil.

Então, a primeira pergunta a se fazer é: cadê o plano de contingência?
Mesmo que o governador Paulo Hartung estivesse operado, há um governador em exercício!
Faz-se plano de contingência quando o papa vem visitar, quando Roberto Carlos vai cantar em Cachoeiro de Itapemirim e uma greve te pega de surpresa? Uma secretaria de segurança não sabe planejar uma emergência? Então o que é mesmo que ela faz?

Essas coisas não acontecem de um dia para o outro. Se o governador está sabendo que servidores de segurança pública ameaçam entrar em greve, a primeira coisa a fazer – até para viabilizar uma negociação justa sem tornar a população refém – é um plano de emergência que articule os poderes do Estado, mobilizando os recursos locais e os da União.
Desde o primeiro momento, o governo deveria ter solicitado a mobilização da Força Nacional e das Forças Armadas junto ao ministro da Justiça e ao ministro da Defesa.
Aliás, uma das missões da Força Nacional é ser um recurso para garantir minimamente a prestação de serviço à população evitando o pânico e as práticas oportunistas que sempre ocorrem quando serviços essenciais são paralisados.
O Corpo de Bombeiros é estadual, poderia ir para as ruas orientar a população e evitar pânico, se for necessário. Para estar em portas de escolas e em outros pontos estratégicos para que a vida na cidade não pare. A Polícia Civil também.
É preciso também dialogar com os municípios para mobilizar a Guarda Municipal para os pontos de maior circulação de pessoas. A Guarda é ostensiva e está cuidando dos municipais. Isso é competência dela e ela pode ser mobilizada em emergências.

O governo deve ir para a mídia, as redes sociais, para informar a população sobre a possibilidade de uma paralisação total ou parcial da polícia. Parte do medo é reduzido com uma boa comunicação social.

Era preciso também cobrar do movimento “grevista” o percentual mínimo de prestação de serviços, porque nenhuma categoria de serviços essenciais pode parar completamente.
Isso tem que ser feito para estabelecer uma oportunidade de negociação, e não usar o terror como arma de troca, dizendo: “Olha quantas mortes, vocês perderam a moral com a população”. Deixar mortes e assaltos acontecerem para ganhar na queda de braço não é negociação, é acirramento.
Então a pergunta é: o governo apresentou à sociedade o plano de contingência logo no início ou quis se beneficiar do pânico coletivo?
A impressão que dá é que o governo apostou no “quanto pior, melhor” para ter a população do seu lado. Isso está na conta do governo, sim.
E não estou falando mal desse governo. Seja de esquerda, direita, centro ou lado, é preciso ter um plano de contingência. Isso é capacidade de governar. A gente demonstra que é capaz de governar na emergência.

BBC Brasil - E o que estaria na conta do movimento das famílias dos policiais, que deram início à greve?
Muniz - A polícia e o movimento das famílias também cometeram erros desde o início. Como todo movimento reivindicatório sabe, ele tem uma curva de ascendência e uma curva de descendência.

Nem o próprio trabalhador quer ficar eternamente em greve porque sabe que perde credibilidade, prestígio, reconhecimento e apoio da população. E quanto mais esvazia o apoio da população, menos chances o movimento tem de conseguir implementar sua pauta.

O movimento grevista pensou nesse mínimo necessário, nos 30% do efetivo policial que deveria estar nas ruas?
Eles deveriam ter convocado todos os policiais de férias, de licença, da reserva, para contribuir no policiamento, porque todos vão se beneficiar das melhorias conquistadas.
Precisavam esclarecer a população, fazer informes, mostrar que os serviços essenciais seriam mantidos. Por exemplo, a pronta resposta do 190 não pode parar.
As porta-vozes do movimento erraram também porque precisam de uma pauta clara e factível. Não posso pedir o infinito porque não vou ganhar.
Precisam esclarecer para a população, desde o início, se o que estão pedindo é viável, é possível. Se o aumento seria aceito dividido em 30 parcelas, por exemplo. Não adianta dizer só “Eu quero 40% porque não tenho aumento há três anos”.
Você tem que demonstrar para a população que está disposto a negociar. E negociar é diferente de fazer pirraça. O grevista não pode parecer um pirracento e o governo não pode parecer que faz beicinho e bate o pé, como se fosse um cabo de força.

Jacqueline Muniz é doutora em Estudos de Polícia, professora do bacharelado em Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense e conselheira do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ela deu aulas no curso de especialização da PM do Espírito Santo. Publicado em www.bbc.com/portuguese

LEONARDO BOFF
“Governo e policiais pecam pelo rigor na virtude ou pela paixão exagerada à sua causa. Governo, pela austeridade a ponto de não compreender que também o investimento na segurança e na polícia é o que justifica ter as contas públicas equilibradas; Policiais, em não compreender que a luta justa só vale quando aplicada em prol também do povo mais sofrido, que sofre e morre ainda mais com ampla paralisação policial”.

“[...] Recebi de um amigo um vídeo que se tornará nos próximos dias parte de um documentário sobre o momento pelo qual passa o Estado. O vídeo captou uma conversa entre uma jovem com seu marido policial e uma cena, em especial, me chamou atenção. Num momento espontâneo, a mulher, que está separada do marido-policial por um gradil, o indaga “vale a pena passar por essa opressão toda”? No gesto e na resposta do policial se revelou a cena que considerei mais significante no vídeo. O jovem fixou o olhar na moça e apontou com os dedos para ela e, no peito, para a farda da Polícia Militar que veste, e disse “minhas paixões estão aqui”.

Leonardo Boff é teólogo. Publicado em seu perfil no facebook

MAURÍCIO ABDALLA
“Um recado para os policiais militares que muitas vezes se incomodam com minhas críticas duras à ação violenta da PM nas manifestações: a PM não agiu com violência contra as manifestantes nas portas do quartel, pois lá estão familiares dos policiais. E se alguém usar de violência contra elas, imagino a sua revolta. Pois é, nas manifestações reprimidas com balas de borracha, bombas de gás, spray de pimenta e cassetete, estavam minha filha e meus alunos (que são como família). Dá para entender que não se deve usar de violência contra quem sai em defesa de seus direitos”?

Maurício Abdalla é professor de Filosofia na UFES. Publicado em seu perfil no facebook. 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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