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UM LUGAR DE ACONCHEGO QUE AMENIZA OS SOFRIMENTOS DO ABANDONO E INDIFERENÇA

A Casa de Acolhida Irmã Margarida, Instituto coordenado pela Congregação das Irmãs Franciscanas do Senhor, acolhe idosas em situação de risco e vulnerabilidade com carinho, respeito e amor estampados no rosto de quem cuida e se dedica dia e noite para proporcionar uma vida digna a pessoas abandonadas, sem família ou famílias sem condições de mantê-las. Conversamos com a irmã Maria Aparecida Ribeiro (irmã Vicentina) sobre a relação com as idosas e com a família.

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As idosas chegam à Casa de Acolhida de diferentes formas. As famílias aparecem para visitar, ou somem totalmente?

Eu tenho que agradecer profundamente isso a Deus, nós temos um trabalho muito próximo às famílias. Temos o dever de fortalecer os vínculos e para isso criamos um encontro com as famílias e os amigos. É um café partilhado na tarde no último sábado de cada mês. Há sempre uma apresentação das idosas, com temas da atualidade e aproveitamos o momento para falar um pouco sobre o cuidado, o carinho, o chegar perto, o beijo, o abraço nesta ‘vó’, que um dia já foi uma senhora na sociedade, já contribuiu muito, e hoje por alguns motivos veio para a Instituição, mas está viva.

Como as famílias reagem a estas provocações?

Perfeitamente bem. Eles amam vir aqui. E as que não têm família, temos os amigos e benfeitores que apadrinham essas idosas, e eles vêm para fazer a vez dos parentes.

Quantas idosas têm famílias e quantas não tem?

Na realidade hoje estou com a maior parte sem família. São senhoras que foram abandonadas em hospitais e nas ruas. Franciscanas têm que acolher os mais necessitados. Gostaríamos muito de trabalhar com idosas que tivessem famílias. É tão gostoso receber os familiares, mas Deus está mandando para nós as que têm mais necessidade.

Como a senhora avalia essa situação, de tantas idosas sem um respaldo da família, tantos idosos sendo abandonados?

Pelo que a gente vem estudando e vendo, o número de idosos está aumentando muito no Brasil. O abandono familiar é sério e esta questão está muito vinculada à pobreza, ao fato de muitos idosos terem tido poucos filhos e também pelo fato de a sociedade não estar preparada para cuidar dos idosos.

Todos querem sair, querem ter o final de semana livre, querem descansar, e quando tem um idoso para dar conta, principalmente na faixa dos 70 anos, que já não estão dando conta de se cuidarem, fica difícil. As pessoas não estão preparadas para isso, muitas não têm saúde psíquica para isso e acabam adoecendo também.

Os que têm famílias podem receber visitas quando?

Todos os dias temos visitas nesta casa. Pela manhã de 9h as 11h e à tarde de 14h30 às 16h. Isto é para dar possibilidade aos que trabalham e têm uma folguinha. A gente tenta facilitar par que o vínculo familiar não seja perdido, rompido.

Elas perguntam pela família?

Sim, bastante. Família é uma alegria, um presente. Mesmo as senhoras com Alzheimer, e temos várias, se sentem sozinhas e perguntam pelos filhos. Elas têm noção se a família vem, apenas uma das que estão aqui não tem essa noção.

Nesses anos de trabalho com as idosas, o que mais encantou a senhora?

A gente pegar uma vida toda destruída pela situação na sociedade e pouco a pouco, ir devolvendo para essa pessoa, essa mãe, essa senhora, a graça da vida novamente, o gosto de viver. Isto me encanta.

Algum caso que a encantou mais fortemente?

Tem muitos, mas o mais bonito é a dona Maria, que hoje tem 104 anos. Ela ficou abandonada na UPA da Serra e não andava, porque quebrou a perna. O filho bebia um pouco e por esse motivo deixou de cuidar da mãe. Os vizinhos acabaram denunciando e ela foi parar no hospital, e lá ela ficou abandonada. O filho também não tinha condições de ir até ela, pois desenvolveu leucemia.  Ela chegou aqui com 28 quilos e nós a acolhemos… (a irmã se emociona) … nós a acolhemos com muito amor… E depois de ter dado um banho naquela senhora, cortado o cabelinho dela, dado uma limpeza nas unhas, começamos o trabalho de alimentá-la. Ela chamava o filho noite e dia sem parar …. (a irmã chora). Eu disse para as meninas (cuidadoras). Sabem o que é isso? Falta de alimentação na hora certa, falta de cuidados. Ela está desnutrida e com saudades. Apesar de tudo ela não esquece o filho. Aos poucos, ela foi melhorando e começou a se adaptar ao ambiente e ao medicamento. Às quatro horas da manhã, ela acordava, chamava pelo filho e pedia café com leite. Falei com as cuidadoras que podiam dar café com leite para ela sempre que ela pedisse, a qualquer hora. Começamos a dar jantar as 17h15, horário no qual todas comem, e às 20 horas o chá para as outras e para ela o café com leite. Se ela acordasse e pedisse novamente café com leite, a orientação era dar. Ela foi se adaptando e se nutrindo. Aquele organismo frágil foi equilibrando os horários de alimentos e ela parou de pedir comida e chamar o filho sem parar.  Começou a engordar e ficar bonita (ela é linda!). Então, fomos à delegacia do idoso conversar com o delegado para saber das acusações contra o filho. O delegado disse: Irmã, a dona Maria Brito, segundo a sentença, foi abandonada pelo filho e está com medida protetiva, pois consta que ele judiava dela (isso não era verdade). Ele não pode se aproximar dela.

Eu escutei o delegado falar e disse: Muito bem, tá tudo certo, ela ficou abandonada sim, ficou no hospital sim, mas eu vou dizer uma coisa: eu não vou obedecer ao senhor. O senhor já imaginou uma mulher de 104 anos, que gerou um filho e chama por ele 24 horas sem parar, não poder ver esse filho? Se ele chegar lá em casa vai ver a mãe sim. Ele perguntou: a senhora garante? Sim, garanto sim. E aí o filho chegou. Ele a estava procurando e não sabia onde ela estava.

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Como foi o encontro?

Não tinha cena mais bela do que aquele filho chegando e aquela mãe abraçando aquele filho. Eu percebi que ele havia bebido e o chamei.  Expliquei que o estava deixando visitar a mãe, mas que o delegado havia dito que eu não podia fazer isso. Então eu disse: vamos combinar que na próxima visita você vai vir de barba feita e sem cheiro de bebida, senão eu não vou deixar, pois estou descumprindo uma ordem do delegado. Ele prometeu que faria o que eu pedi e a partir daquele dia, dona Maria não chamou mais pelo filho. Ela sentiu que eu ia deixar o filho voltar. Daquele dia em diante, dona Maria passou a comer nos horários certos, virou outra mulher, levantou o entusiasmo e quer casar (risos).  É lindo, é lindo. Não tem coisa mais bela.

Ele continua visitando a mãe?

Sim. Vem sempre. Há alguns dias ele ficou internado no hospital e não pode vir. Ela ficou doente, ficou enfraquecida. Pensei que ela fosse morrer. Ele não vinha, eu não sabia onde ele morava. Levei-a na UPA e ela estava com infecção urinária. Levava todos os dias para ela tomar o antibiótico lá e voltava com ela para o Instituto. Demos o antibiótico, mas continuava amuada. Perguntava pelo filho. Perguntava se iria morrer. Aí, eu e a assistente social resolvemos que no dia seguinte a primeira atitude seria ir atrás do filho. Tínhamos o nome do bairro e o nome do filho. Pedimos a ajuda do pedreiro que trabalhava aqui, que foi com mais duas irmãs no nosso carro para procurá-lo. Eles acharam, mas ele estava muito mal e não tinha condições de sair de casa. Trouxeram-no para ver a mãe. Na hora que ele chegou aqui, a gente não sabia quem gritava mais de alegria, se era ela ou ele (risos). No deparamos com outro problema, ele não tinha um grão de arroz dentro de casa. Montamos uma cesta básica e o levamos em casa com os mantimentos. E aí dona Maria se reestabeleceu novamente. O filho vem de 15 em 15 dias, e é muito lindo os dois juntos. Na hora das refeições, ela pede para que a gente dê alimento ao filho também. Ela está sempre preocupada se ele está se alimentando, se está bem de saúde. Ela me pergunta isso diariamente. Na hora da oração ela reza por ele. Isto me encanta. Me encanta ver o filho se aproximar da mãe, me encanta poder ir restaurando essas relações. A maioria delas, que têm filhos, família, lembram-se de todos. Na hora das visitas, quando falta algum familiar, elas ficam tristes.

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Precisa paciência?

A paciência com que temos que cuidar dessas idosas, também me encanta. Porque eu tenho que conscientizar toda equipe que trabalha comigo, para que eles também tenham paciência, pois precisamos esperar que os remédios façam efeito. Na hora em que elas chegam aqui, temos dois trabalhos; o de ir adaptando a idosa ao grupo e de fazer com que o grupo de educadores tenham paciência com a idosa que está chegando. Na hora que chega uma nova idosa, ela tem um diagnóstico no papel, mas depois é que vamos perceber o que realmente aquela pessoa que chegou tem.

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O que a senhora gostaria de dizer para o leitor da Revista Vitória?

Gostaria de dizer que eles pudessem olhar com muito carinho e atenção para seus familiares e que pudessem dar uma olhada, hoje, como eles estão resguardando este vínculo familiar, como tratam os mais velhos. Como conservam a alegria de estarem juntos, sentados na mesa da refeição, batendo papo, escutando as histórias dos pais, dos avós. Que pudessem ver a questão dos idosos na atualidade não com pena, mas com alegria, tentado fazer algo para atender as necessidades dentro da possibilidade de cada família. Na realidade, o que faz realmente o abandono dos idosos é a perda dos vínculos, e vínculos é algo que se constrói no dia a dia. É um amor, uma amizade, um carinho que se constrói devagar. É isso.

INSTITUTO FRANCISCANO, CASA DE ACOLHIDA IRMÃ MARGARIDA

O que é o Instituto e com que finalidade ele surgiu?

Somos uma instituição filantrópica criada em 1991, que hoje acolhe idosas que estão em situação de risco e vulnerabilidade. O Instituto, que é da Congregação de irmãs Franciscanas do Senhor, nasceu com dois objetivos: o primeiro de ser uma casa de retiros para nós. O segundo era para que famílias que precisassem descansar viessem para cá por uma temporada, pagando uma taxa para isto.

Quando houve a mudança do serviço particular para o atendimento social?

Com o decorrer do tempo, começaram a surgir as necessidades sociais de pessoas que não tinham ninguém. Então, nós fechamos o trabalho particular e partimos para o trabalho social. Mudamos o foco, voltando nosso trabalho para o atendimento ao pobre, ao necessitado, ao abandonado, aqueles sem ninguém no mundo. A gente começa a trabalhar e tem um objetivo, mas de repente, Deus fala que não é por aí.

Como é que funciona o serviço social?

Nós estamos conveniados com a Prefeitura da Serra. A prefeitura tem uma verba que deve ser investida na assistência social dos idosos, mas não tem esse serviço, então as instituições fazem um convênio com ela para dar assistência os idosos do município da Serra. Cada idoso que a família apresenta um problema tem que passar pelo Cras, que faz visita a esta família, e verifica se tem necessidade de ser institucionalizado. A prefeitura da Serra está com um trabalho muito sério nesse sentido, que é de regionalizar as casas que acolhem idosos que são quatro no total. Cada casa atende as áreas próximas e desta forma fica mais organizado e facilita que as famílias visitem os idosos.

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E se surgir uma necessidade aqui do lado? Vocês não podem atender?

Eu posso atender, mas tenho que orientar a família a ir até o Cras de Jacaraípe. É o único caminho, mesmo sendo a minha vizinha porque eu recebo uma verba da prefeitura e tenho que estar dentro das regras do convênio.

Quais são os outros recursos para manter o Instituto?

A nossa sustentabilidade é feita em parte com o convênio, parte com o aluguel do espaço que disponibilizamos para retiros, e das mãos estendidas de amigos e benfeitores que colaboram conosco. Temos muitas pessoas de Jacaraípe, Laranjeiras, Vitória que colaboram muito. Na nossa paróquia, por exemplo, todas as comunidades colaboram. É um grupo de amigos e colaboradores que doam o que podem.

Quais atividades as idosas têm no Instituto?

Nossas idosas têm atividades todos os dias de manhã e à tarde, orientadas por profissionais registrados e pagos pelo Instituto: fisioterapeuta, psicóloga, nutricionista, enfermeira e artesã por conta do Instituto. A lei prevê que quando cuidamos de um idoso, não podemos apenas deixá-lo comer, beber e ver televisão.

Existe uma conta para quem quiser colaborar?

Sim. Temos as contas para doações: Caixa Econômica Federal: agência 3139, conta 1973-8, revista vitoria –– ed maio - entrevista 03operação 003; Banco do Brasil a agência 3137-4, conta 50.500-5 e Banestes, agência 055, conta 22.742.639. Mas também recebemos mantimentos, produtos de limpeza, produtos de higiene pessoal e fraldas de escolas e de grupos de jovens que fazem suas gincanas. Ganhamos roupas, calçados, peças usadas que são colocadas no bazar que fica aberto a semana toda. Fazemos feijão-tropeiro pra vender, rifas, vaquinha e tudo que se pode pensar. A verdade é que as pessoas são solidárias e a coisa acontece. O Instituto hoje vive, em grande parte, de doações.

Maria da Luz Fernandes e Andressa Mian
Jornalistas

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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