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Transição e reconciliação

É longa a transição pela qual passa a economia política mundial. Da chamada ‘ordem de Bretton Woods’ – estabelecida pelos vencedores da II Guerra Mundial e construída para favorecer o crescimento econômico baseado em lógica perversa às pessoas e ao meio ambiente – passou-se a uma desordem que já dura mais de quarenta anos. Mais de quarenta anos que presenciaram a crescente crise ambiental; o aumento da possibilidade de uma catástrofe nuclear; a exagerada concentração de renda; e avanço de poderes hegemônicos. Hegemonias econômicas e militares que se impõem a interesses sociais e à convivência; imposição que leva a rupturas em laços históricos entre vizinhos, compatriotas e povos.
Rupturas que geram desencanto com conquistas pretéritas, desilusão com o presente e desconfiança com relação ao futuro. Desencanto, desilusão e desconfiança que demarcam diferenças entre gerações, mas têm em comum o pessimismo acentuado que pode levar à inércia e à passividade.

Passividade que precisa ser superada com o resgate de valores que alicercem a construção de uma outra ordem mundial. Construção que pode ser iniciada em territórios específicos a partir de processo de reconciliação. No Brasil, a reconciliação precisa começar por sua história. História permeada de injustiças sociais, de interesses dominantes que até hoje desconsideram o bem-estar da maioria de sua gente.

Reconciliação que precisa levar em conta as rupturas políticas; as desigualdades econômicas e os desequilíbrios sociais que ainda persistem no Brasil. Reconciliar-se com o passado e com o presente em condições de tensionamentos é tarefa difícil.

Dificuldade que precisa ser superada para que o País possa desenhar um futuro melhor para sua gente e sua natureza. Sem ufanismos, o Brasil necessita reconhecer que, mesmo com todas as mazelas passadas e presentes, é terra onde pode ser semeada a vontade de dias melhores.
Semeadura que no passado recente se fez com a elaboração de uma Constituição que pretendia ser cidadã na medida em que reconheceu o hiato entre avanços materiais e a condição de pobreza da maioria de sua gente. Reconhecimento que precisa ser renovado por processo democrático a ser colocado a serviço da superação do fosso entre os poderes constituídos e as legitimas aspirações populares.

Renovação de complexidade crescente na medida em que a busca do bem comum está cada vez mais sufocada pelo individualismo alicerçado na lógica perversa do ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’, e da ação política míope do ‘cada um por si, Deus por todos’.

Lógica e ação que geram círculo vicioso alimentado por veículos de comunicação de massa e por redes sociais onde predominam o sectarismo e a informação pautada pela pós-verdade. Pós-verdade que tem que ser substituída pelo debate de ideias e embates que delas precisam emergir para a reconciliação precisa.

Arlindo Villaschi
Professor de Economia
arlindo@villaschi.pro.br

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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