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“Sonhamos com um mundo no qual possamos confiar e acreditar”.

“Sonhamos com um mundo no qual possamos confiar e acreditar”Zygmunt Bauman

Ao findar o Século XX, especialmente na passagem do ano 2000, era grande a expectativa das pessoas pelo novo milênio. Um sonho era acalentado em cada pessoa. Parecia que todos estavam cansados de um século marcado por tantas desgraças como as duas guerras mundiais, os regimes totalitários, as crises econômicas e sociais, o esfacelamento das instituições. Como foram marcantes as celebrações e ações “rumo ao novo milênio”! O que temos 18 anos depois?

Entramos no século XXI e as coisas ficaram ainda mais estranhas. Já atingimos o tempo da pós-verdade. Ou seja, aquele referencial seguro que tínhamos como verdade deu lugar a ideias massificadas para a população, fazendo crer que isso seria a verdade; são crenças e até inverdades. Uma eleição não mais se decide com a propaganda eleitoral sobre fatos, mas sobre ideias, crenças, distribuídas ao léu nas redes sociais dando a impressão de termos alcançado o solo do verdadeiro. Criou-se uma coisa chamada algoritmo que numa determinada rede só conecta pessoas que pensam como você e têm o mesmo estilo de vida, dando a impressão que o mundo caminha desta forma. A rede virou dissimulação, enganação, ilusão pós-moderna.

E assim o homem atual sofre cada vez mais de uma ânsia, um desejo de pisar em solo firme. Mas o que lhe acompanha é o medo, a insegurança, a incerteza. A falta de esperança em nosso meio é desesperadora. Morre-se por inanição de utopia. Se tudo virou líquido, só nos resta nadar. Mas para qual direção? Os instrumentos da sociedade que apontavam o norte não funcionam mais. As próprias Igrejas vivem reféns desta angústia. Daí muitos se lançam na direção da autorreferência, da imagem, do status. A Igreja não está isenta deste mundo e nem livre do risco de naufrágio. Por isso fortalecer a esperança das pessoas, os sonhos de um novo céu e uma nova terra precisam ser alimentados.

As pessoas hoje estão fugindo da responsabilidade de pensar a própria situação infeliz. Não nos suportamos mais. E será neste contexto que teremos que encontrar um espaço para ocupar as pessoas, para tornar a incerteza menos pesada e a felicidade mais próxima. É preciso não deixar morrer a esperança. É preciso instituir novas utopias que alimentarão nossos desejos e nossas vidas. Calvino dizia que só há duas maneiras de superar o inferno: acomodar-se a sua existência de modo a dar a impressão que não existe algo diferente deste lugar, ou buscar em seu meio coisas que não são o inferno e fazê-las durar. Talvez seja esta a grande tarefa prática dos sonhadores. Talvez seja esta a grande profecia nestes tempos líquidos.

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião e professor universitário na Ufes

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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