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Senhor, ensina-nos a “ler”!

Com reta intenção e com toda boa vontade nós usamos expressões fortes e motivadoras em vista de fazer crescer entre nós a fraternidade. Ora usamos expressos como “cultura da paz”, “cultura do encontro” “solidariedade” e tantas outras expressões muito caras para todos os que realmente se preocupam com estes valores por uma sociedade mais fraterna.

Pois bem, neste ano a CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, propõe que, especialmente durante a quaresma, meditemos, divulguemos o lema e o tema da “Campanha da Fraternidade ou seja: “A Fraternidade e a superação da violência”. “Vós sois todos irmãos”!

A Igreja, com esta proposta, aponta-nos e ensina-nos a caminhar em direção à Festa Maior, a Celebração da Páscoa do Senhor. Celebrar a Páscoa é celebrar a vitória sobre a violência e todo o tipo de violência. Celebrar a Páscoa é tornar presente, entre nós, a Páscoa, ou seja, o Amor total entre nós. Este é o nosso sonho: viver como irmãos e irmãs no Senhor! Já, embora saibamos que a plenitude, face a face, será no céu!

Porém, para humilhação de todos os cristãos, embora falemos e creiamos que somos todos irmãos, experimentamos a incoerência, a contradição do que anunciamos. Falamos tanto que somos irmãos, mas quanta violência está presente em nossos lares, em nossas comunidades, em nosso Estado e País cuja maioria da população se diz cristã!

Será que todos entendem o que significa a palavra irmão? É ir em direção ao outro, é dar e estender as mãos, abrir o seu coração em direção do outro, é misericórdia! Ora, o violento não estende as mãos e não vai ao encontro do irmão com mãos estendidas. Não colabora com a cultura do encontro, mas reforça a cultura do desencontro.

A Igreja, contudo, não perde a esperança. Este povo que se diz cristão perdeu a compreensão de sua identidade. Tem necessidade de uma nova aprendizagem, uma nova alfabetização cristã. Esta aprendizagem não se dá apenas com “cursos de formação”.

Só na aprendizagem do voltar a “ser criança” que se poderá saber “ler” o que significa “ser irmão”.

A violência vem desconstruindo o “ser cristão” de muitos que se dizem cristãos: pais, filhos, famílias inteiras caminham para o agnosticismo, o ateísmo e tornam-se analfabetos da fé cristã. Usam palavras e termos cristãos, mas não sabem o que significa ser cristão, desaprenderam a leitura da fé de que o “voltar-se para a criança” lhe será devolvido o “diploma da fé”.

É triste e lamentável esta descristianização de nossa gente que vive bem pertinho de nós! Se todos os cristãos que habitam este país soubessem, de verdade, o que significa “ser irmão” não estaríamos tão humilhados com a roubalheira e desonestidade que avassala este país! Um verdadeiro “pecado social” porque, também, “pessoal”!

Senhor, que na quaresma, reaprendamos a “ler”, a “leitura da fé”, aprendamos a fazermos a experiência do que seja “Vós sois todos irmãos”!

Por isso, mais do que nunca, se justifica a teimosia da Igreja, justamente no tempo litúrgico da quaresma em propor a todos o aprofundamento de nossa fé cristã, que se expressa na fraternidade, ensinado e vivida por Jesus, nosso Salvador. Basta “ler” a Santa Ceia e o Lava-pés.
Ensina-nos, Senhor, a “ler” e a viver como “crianças”, Sinal do Reino!

Dom Luiz Mancilha Vilela, ss.cc.
Arcebispo de Vitória

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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