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Secas e chuvas

As dimensões naturais que ensejaram desalento e tristeza a tantos capixabas no final de 2013 – com fortes chuvas – e no passado recente – com a estiagem prolongada – outras devem ser acrescidas para que a sociedade capixaba passe a ser efetiva na prevenção de sofrimentos e desalentos. Parte deles se deve às modificações demográficas que ocorreram no Espírito Santo nos últimos cinquenta anos e à forma como elas se deram no espaço capixaba.

De uma população de menos de 1,5 milhão de habitantes em 1960, o Espírito Santo passou a mais de 3,5 milhões em 2010. Enquanto em 1960 mais de 2/3 habitavam em áreas rurais, em 2010 praticamente 80% residiam em núcleos urbanos. Em 1960 sequer Vitória tinha 100 mil habitantes; nos dias de hoje nove cidades capixabas têm população superior a esse número.

Essa rápida modificação demográfica, combinada com especulação financeira, transformaram núcleos urbanos capixabas em foco de substanciais ganhos imobiliários. Assim funciona o mercado, argumentam os pragmáticos. Entretanto, cabe indicar que muito pouco foi feito pelos poderes estadual e municipais para que o crescimento das cidades no Espírito Santo tivesse um mínimo de ordenamento.

Terrenos rurais foram transformados em loteamentos que raramente levaram em consideração questões como sustentabilidade e melhor utilização de água. Áreas de maior declividade foram desbastadas e o material retirado utilizado para aterrar espaços de espraiamento natural das chuvas. Cursos d’água e mangues foram canalizados e aterrados sem qualquer consideração com a sustentabilidade ambiental de atividades humanas. Pelo lado do abastecimento d’água, pouco se faz para reverter os históricos desmatamentos de áreas junto a nascentes e ao longo de córregos e rios.

Revisitar a forma como projetos de loteamentos e de edificações foram aprovados; e o conteúdo de medidas de proteção ambiental em planos diretores municipais, pode ser um bom exercício para que responsabilidades técnicas e políticas sejam verificadas. Afinal, exigências de projetos e planos precisam ir além de seus aspectos burocráticos, para assegurarem vida digna para a população como um todo.

Que os altos custos envolvidos no remediar situações como as vividas quando as chuvas vêm em grande escala ou quando são escassas, ensejem um novo olhar para a forma e o conteúdo do crescimento do Espírito Santo. A sustentabilidade ambiental precisa ir muito além da mera retórica de peças de publicidade de governos e empresas. Há que se buscar uma consciência voltada para o bem comum.

O bem comum precisa estar no centro de ações individuais, empresariais e governamentais de forma preventiva. Reconhecer equívocos cometidos no passado que resultaram em tragédias no presente, pode ser um exercício de humildade necessário à construção de um estado e de cidades melhores para todos viverem.

Arlindo Vilaschi
Professor de Economia e Coordenador do Grupo de Pesquisa em Inovação e Desenvolvimento Capixaba na UFES

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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