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Religião e Secas

No Espírito Santo, os córregos e riachos já secaram há muito tempo e os grandes rios como Doce, Itapemirim, Santa Maria, Cricaré, estão definhando a cada dia.

A chuva sempre foi em minha vida um sinal da graça de Deus. Ao contrário, as secas sempre marcaram o tempo de grande tristeza, pois expressava a morte do mundo vivo.

Gostaria de apresentar alguns cenários a respeito das secas e como isso se entrelaça com a questão religiosa. Em Afonso Cláudio, católicos e luteranos carregaram uma cruz com dez metros de comprimento e quatro metros de largura, pesando quase meia tonelada, para ser fincada no alto do morro, representando a fé e a esperança dos moradores como forma de pedir chuvas.

Da minha infância tenho a recordação nítida de cena igual a esta. Nos períodos de secas, a comunidade enchia baldes de água e em procissão subia o morro rezando, pedindo chuva. Lá ao pé do cruzeiro, derramavam-se os baldes de água ao final das orações.

O Arcebispo de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, pediu aos fiéis que além de economizarem água, rezem para chover. Ele divulgou uma oração do Papa Paulo VI para pedir chuvas; e diz: “Por isso, como cristãos, somos convocados a agir para ajudar a mudar esta situação”.

Na Arquidiocese de Vitória, Dom Luiz Mancilha Vilela, também fez uma carta de recomendações para os cuidados com a natureza e meio ambiente: “Nossas Comunidades Eclesiais no meio rural têm obrigação moral de conscientizar os irmãos e irmãs sobre o grande problema da seca, desmatamento etc”.

A população brasileira, muito religiosa, vai encontrando diversos tipos de práticas como novenas, tríduos, orações, procissões, sempre na intenção de pedir chuvas.

Rezar é sempre bom e necessário para alimentar a nossa fé e melhorar a nossa vida diária. Por isso, rezar a Deus pedindo chuva, além de ser bom e necessário, implica em mudanças em nosso agir em relação à criação do próprio Deus. A seca é a expressão mais viva e cruel do nosso pecado. Somente uma conversão ecológica, conforme nos convoca o Papa Francisco, de maneira permanente, nutrida de muita oração e penitência poderá nos redimir da tristeza e da dor das secas.

Fazer penitência que nos leve à conversão ecológica implica em mudar nossa forma de agir sobre o mundo, em cada tempo, de chuva ou de seca, de modo a garantir de maneira permanente e duradora a vida de nossas matas e nossos rios. Se foram derrubadas ou se secaram, cabe a cada um de nós retomar ações que transformem o deserto em área verde e verdejante. Nossas pastagens precisam ceder lugar que foi tomado das matas. É preciso replantar o que foi derrubado e queimado. A penitência ecológica implica em restabelecer o equilíbrio ecológico destruído pela ganância. Ou salvamos o mundo assim, ou morreremos juntos com a criação destruída!

Ainda não tinha concluído este texto reflexivo, e comecei a ver uma pequena garoa caindo pelas ruas e pensei: vai chover e o texto que estou escrevendo não terá mais sentido. Mas logo refiz o erro. É preciso, de maneira permanente, recolocar a questão da seca e da devastação do meio ambiente, independente de estarmos com muita chuva ou sem sequer água nas torneiras. A penitência não pode ser uma ação mágica num momento de desespero. A penitência verdadeira nos faz superar a situação de pecado e nos eleva juntamente com a mãe natureza. A penitência ecológica não tem tempo propício para ser praticada. Ela deve ser motivo permanente de nossa fé e intenção de nossas orações em todos os cultos e celebrações.

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião e professor universitário na UFES

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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