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Quem diz a mídia que os católicos são?

“Quem dizem as multidões que eu sou?”, pergunta Jesus aos discípulos (Lucas 9, 18). Não se trata apenas de uma preocupação egocêntrica com a Sua autoimagem, mas sim um convite aos discípulos para reconhecerem os frutos da missão do Mestre. Hoje, em um contexto fortemente midiático, poderíamos questionar, parafraseando o Evangelho: “Quem dizem os meios de comunicação que a Igreja é?”. Que frutos a Igreja colhe no campo midiático?

A mídia, como afirma o Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil, “transforma a maneira de perceber as coisas: a realidade cede lugar àquilo que é exibido por esses meios” (n. 142). Dizer Igreja, até pouco tempo atrás, era dizer pedofilia ou escândalo financeiro, pois a cobertura de fatos eclesiais e a forma como as notícias eram construídas e informadas fomentavam uma opinião pública desse teor. Hoje, a situação mudou bastante, mas ainda permanece o desafio e a “necessidade de estabelecer diálogo com os meios de comunicação não católicos”, como pedem os bispos brasileiros.

Tal diálogo não é fácil. Especialmente a grande mídia brasileira, historicamente, tem interesses político-econômicos muito específicos e, por isso, veicula principalmente aquilo que lhe favorece. O caráter público, muitas vezes, fica em segundo plano, em nome de interesses privados corporativos. Predomina aquilo que “vende”, sempre em favor das massas de clientes.

Diante disso, a Igreja sempre sai em desvantagem, especialmente quando defende – nas mais diversas situações – os valores evangélicos do amor ao próximo e da pobreza de espírito. Há um choque cultural de fundo. Contudo, os bispos brasileiros recomendam “uma busca constante de discernimento” (n. 144) por parte da Igreja em diálogo com os profissionais da comunicação – muitos deles assumidamente católicos. Só assim será possível “elaborar propostas significativas para a promoção dos valores humanos e cristãos”, defende o Diretório.

O principal desafio, porém, é falar a linguagem do mundo, sem ser do mundo. Falar “catoliquês” para católicos – quase sempre os mesmos – é fácil e, infelizmente, pouco cristão, pois somos chamados pelo próprio Jesus a “ir por todo o mundo”, não só ao “mundo católico”. Em tempos de uma “Igreja em saída”, como deseja o Papa Francisco, a presença da Igreja em mídias não católicas assume uma relevância imensa. Mas tal presença “exige prudência, permanente atenção e competência” (n. 143), aponta o Diretório, para que a mídia possa ser transfigurada em “lugar de testemunho e anúncio do Evangelho” (n. 175), e não de autopromoção pessoal.

Para além da opinião das mídias, contudo, o próprio Jesus desafia a cada um de nós, na nossa comunicação cotidiana: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. É esse “dizer Jesus” com a nossa vida pessoal que realmente importa e faz a diferença.

Moisés Sbardelotto
Jornalista, mestre e doutor em Ciências da Comunicação 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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