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Quando a vida consagrada pesa - Considerações de um psicólogo

Para podermos refletir sobre um tema tão importante, é preciso que partamos de um conhecimento básico sobre as religiões, o qual pode ser sintetizado da seguinte forma: se há algo em comum a todas as religiões, independentemente de época ou geografia, é o fato de que elas são constituídas por: a) um sistema de crenças (a maneira de a fé se expressar); b) sistemas de ética (as leis que regulam e orientam o comportamento humano); e c) sistemas de organização (a maneira como a instituição religiosa se hierarquiza). A partir disso, podemos considerar três tipos de peso na vida consagrada, dentre muitos outros.

É preciso acrescentar ao pressuposto colocado acima um outro: o ser humano é um ser em constante formação, nunca está pronto, muda com o correr da vida e com as experiências. Essas mudanças nem sempre se dão na direção reflexivamente desejada – a vida pode nos surpreender com descobertas que questionam e transformam nossos valores e nossa forma cotidiana de viver.

Colocadas essas bases, uma advertência é necessária: o tema é muito complexo, é denso, em parte inescrutável. Por isso, farei aqui como que um sobrevoo, um olhar que busca mais ampliar as perguntas que trazer respostas. As considerações que seguem emergem de minha vivência de muitos anos atendendo religiosos em psicoterapia.

Comecemos pelo tema das crenças. Não é comum se pensar nisso, mas o fato é que a fé evolui, pode amadurecer ao longo da vida, dá saltos na medida em que nossa compreensão da própria vida e do universo adquire novos sentidos. O nosso Deus de criança não é o mesmo Deus de nossa velhice. Esse processo de amadurecimento da fé, como todo processo de amadurecimento, embora enriquecedor e desejável, não é sempre um aclive suave, por vezes é difícil, pode gerar angústias, brigas com Deus, desilusões e perdas, confrontos com o trágico e encontros com o mágico da existência. Cada evolução de nossa fé é fruto de e propicia mudanças no sentido da própria existência e da existência do universo.

Um dos momentos em que a vida religiosa pesa é quando se vive mudanças na fé e é preciso reconstruir-se. Pesa porque a renovação da fé provoca mudanças no cotidiano, muitas das quais exigem coragem para serem praticadas, pois para alcançá-las é preciso passar pela dolorida travessia através do fértil e espinhoso caminho da dúvida.

Como todos, as pessoas de vida consagrada podem manifestar sinais de ansiedade, estresse e depressão quando precisam fazer alguma modificação importante em suas vidas e não conseguem perceber com nitidez suficiente os recursos pessoais e ambientais de que dispõem. Além disso, o ambiente pode incrementar esses sofrimentos, especialmente provocando expectativas que pedem respostas para além do que aquela pessoa pode dar naquele momento, ou demandas que exigem muito cumprimento de papel, em detrimento da espontaneidade e da sinceridade. No caso dos padres, por exemplo, os estressores mais comuns e conhecidos são ligados a expectativas hierárquicas e culturais presentes na sociedade e na formação clerical, os quais dificultam a essas pessoas o devido cuidado com a saúde como um todo e com o amadurecimento pessoal. Uma pequena e não exaustiva lista: excessiva autoexigência, podendo chegar ao perfeccionismo; excessiva exigência por parte dos fieis (e por parte de alguns superiores), que têm dificuldade em perceber que um padre precisa também de lazer, de alegrias, de companhia, de ócio, de ritmo existencial; dificuldade em perceber que a santidade é horizonte, não meta; um machismo que dificulta ao homem pedir ajuda quando precisa; má alimentação; a não aceitação das dúvidas existenciais inerentes à humanidade; moralismo acentuado; competitividade; para alguns, carreirismo voraz; a obrigatoriedade do celibato para quem não tem vocação para ele, embora tenha vocação para a vida religiosa; aspectos institucionais desumanizantes, muitas vezes anacrônicos; dificuldades provenientes da formação familiar (e pessoal) que não são devidamente trabalhados ou que são convenientemente camuflados durante os anos de formação presbiteral. Aqui a questão central é como a pessoa lida com esses estressores. A boa notícia é que esse como pode ser modificado pela coragem e pelo amadurecimento da autonomia. A psicoterapia, feita com bases teóricas sólidas e validadas academicamente, pode ser de grande ajuda.

Tudo isso diz respeito a questões éticas, às escolhas que fazemos no mundo cotidiano. Na medida em que nossa espiritualidade evolui, novas questões nos são colocadas, novos desafios precisam ser enfrentados, novas atitudes precisam ser assimiladas. Isso se dá porque o desenvolvimento humano é caracterizado pela passagem ao longo da vida da heteronomia praticamente absoluta para a autonomia relativa, o que implica em uma ampliação da capacidade de simbolização, de liberdade e da consequente responsabilidade à medida que se amadurece. Abandonar o ninho da heteronomia pode ser muito pesado para alguns, especialmente para aqueles que temem desenvolver a habilidade para responder por si – ainda que não solitariamente – às demandas da existência, os que preferem ir somente onde o rebanho vai, por mais que seu coração lhes diga para não ir por ali.

Por fim, nesse breve sobrevoo, o terceiro peso diz respeito à hierarquia, seja a hierarquia entre religiosos, seja entre religiosos e leigos. Aqui uma obediência acrítica pode vitimar principalmente aqueles que preferem abdicar do próprio poder e o delegar a outro, além daqueles que não têm estrutura para ver outro caminho. Essas escolhas heterônomas podem ser pesos muito difíceis de carregar.

Muitas e muitas vezes a lida com a hierarquia gera uma terrível sensação de não se sentir compreendido, às vezes mesmo de não se sentir considerado, e esse pode ser um peso insuportável para muitos, especialmente aqueles que percebem que a obediência cega não é o melhor caminho, mas não percebem em si forças para tentar outro caminho ou, pior!, não encontram em si a necessária humildade para pedir ajuda.

Ênio Brito Pinto
Psicólogo, mestre e doutor em Ciências da Religião. É membro do Instituto Terapêutico Acolher, especializado no atendimento psicoterapêutico aos religiosos católicos 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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