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PROFUNDIDADES? QUE NADA! IMPORTA OLHAR AS SUPERFÍCIES.

extra agosto 06Num mundo saturado de complexidades surgem, a toda hora, sedutoras explicações e soluções, tidas como científicas e embasadas neste ou naquele conhecimento, que se vendem como “profundidades”. Até ficou comum dizer quando se quer elogiar um especialista ou palestrante neste ou naquele assunto que ele foi muito profundo! Também, ao contrário, quando se quer diminuir a importância do que foi dito se diz que a pessoa foi superficial ou rasa. Ou seja, a noção de profundidade é empregada como se entendimentos consistentes e verdadeiros viessem de profundidades. No entanto, o cultivo dessa noção de profundidade pode exatamente nos distanciar das questões a serem vistas e entendidas.

Decerto a cada dia se avolumam as informações que nos são derramadas sobre as cabeças, a cada dia se adensam os conflitos de que somos revestidos, a cada dia se impregnam em nossos rostos os medos os mais variados, e por isso, entende-se essa descrença no que está bem diante dos nossos olhos, e a busca por possíveis outras razões que se esconderiam sabe-se lá onde, e que apenas quem é dado às profundidades poderia acessar. Compreende-se também a busca quase desesperada dessas respostas que se nos apresentam como se tivessem sido acessadas lá daquelas dimensões da vida que a nós, pobres comuns, são interditadas.

Cai, então, como uma luva, dada nossas carências e inseguranças, essas explicações que se arvoram em entendimentos profundos, de realidades profundas, que nos colocam em contato com o eu profundo, e etc. e tal. Como nos levam a crer que essas profundidades não nos são acessíveis sem os especialistas (a rede globo usa e abusa de especialistas que confirmam sua linha editorial) depositamos sobre eles nossas mais ternas confianças. Produzimos com eles, para nós, doces verdades que nos enredam. Verdades que afirmam ainda mais as ditas profundidades e nos colocam cada vez mais distantes de nós mesmos, da vida, do mundo e das saídas do labirinto onde nos encontramos. Os muros que nos cercam têm frestas, mas deixamos de procurar neles as saídas porque nos disseram que há saídas secretas, misteriosas, portais escondidos lá nos subterrâneos. Se essas lições de profundidades, destarte, trazem umas receitas aliviadoras de angustias, não nos restabelecerão a visão e a lucidez, nem nos farão mais corajosos nas transformações a que somos chamados, seja as de nós mesmos, ou as do mundo.

Vale a pena pensar que somos constituídos pelo fluxo das forças, energias, tensões e poderes que se dão no mundo e nele circulam o tempo todo. Não somos senão o encontro em movimento constante dessas forças. Assim, não há um dentro que se possa acessar. Só existe um dentro que é na verdade uma dobra do fora, do mundo. (Blanchot, Foucault e Deleuze bem exploram essa questão do fora). Não existe profundidade nas realidades senão aquela que é uma complicação da superfície. A sílaba “pli” de muitas palavras significa exatamente dobra. Dobrado é igual a plissado. Uma coisa complicada não é uma coisa com camadas, umas superficiais e outras profundas. Uma coisa complicada é uma coisa dobrada. Logo, explicar é desdobrar.

Mas, se sobram assessores de profundidades, faltam-nos propositores do fora, do mundo (como Jesus Cristo que nos convidava a olhar as coisas, o tempo, as flores, os campos, os animais, as pessoas…). Propositores que nos chamem à transformação daquilo que não pode mais ser tolerado e que está bem à vista de quem quiser ver (quem tem olhos pra ver…). As coisas não têm fundo, mas superfícies que se dobram sobre superfícies. E se alguém quiser encontrar profundidades, disso ou daquilo, haverá de se treinar na observação do mundo do qual todos são parte, e manter os olhos bem abertos para o que o cerca.

Se são poucas as estratégias seguras, nessa luta de libertação, um substrato precisa estar sempre presente nas mentes e corações, e precisa ser afirmado a cada momento, em cada situação, fazendo de meras atividades cotidianas verdadeiros acontecimentos jubilosos: a ligação (ou religação) autêntica, genuína, vibrante com a vida.

Dauri Batisti
Padre, psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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