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Profetas da esperança

Nossa realidade brasileira faz brotar em meu coração de pastor aquela frase de São Paulo; “Sem esmorecer, continuemos a afirmar a nossa esperança porque é fiel quem fez a promessa” (Hb10,23)!

Vejo muitas pessoas do povo e intelectuais com o semblante preocupado, muitas vezes indignados. Sofrem com tantas notícias ruins e com a situação econômica de nosso país. Outros, entre os quais eu me incluo, sofremos ao perceber a grave crise ética em que está submetido nosso querido Brasil. Ora ficamos com vergonha ao notarmos que os habitantes de outros países comentam negativamente sobre o que se passa entre nós. Ora ficamos indignados ao ouvirmos as noticias das mídias. Ficamos como que parados, como estátuas ao ouvirmos delatores dizerem alto e a bom som que conseguiram desviar mais de um bilhão de reais em propina a favor de políticos, partidos etc… A gente chega a perder a respiração por um momento, tal o calor embrasado no coração do ouvinte ou leitor.

Muitos já não conseguem ligar um canal de TV, pois quando não se noticia a violência mais vil como estupros de menores, assassinatos de idosos indefesos, de bebês… fala-se da prisão de políticos de vários partidos, dando-nos a impressão que estes não passam de verdadeiros ladrões do dinheiro do nosso povo, do imposto que pagamos com dificuldade; e como é difícil cumprirmos a contribuição obrigatória dos impostos!

Tanta gente desempregada, mais de treze milhões desempregados! Indignados, chegamos às lágrimas ao ver tanta roubalheira e tanto desrespeito com os trabalhadores e com as famílias honestas. Cada dia vemos, ouvimos ou lemos sobre as negociatas dos detentores do poder político, a impunidade destes homens do poder.

A desolação, a desesperança são realidades na sociedade brasileira. O gemido do povo clama, ou, na fraqueza de sua pequenez deixa exalar um grito surdo, um murmúrio de indignação. Até quando meu Deus vamos suportar tanta sujeira, tanta impunidade dessa gente que, com o rosto limpinho não se envergonha, nem sequer fica corado com seus discursos e suas reflexões?

Boa parte da elite brasileira pensa que a solução vem somente do econômico. Porém, não se percebe entre nossa liderança a convicção de que o Brasil vive não somente uma crise política e econômica, mas sobretudo uma crise ética e moral.

Aos cristãos não cabe entrar no jogo dos espertos, no time do “vale tudo” para conseguir um objetivo, através de quaisquer métodos. Não! Para o cristão não vale tudo; o cristão não pode participar do coro dos desesperados. Acreditamos num mundo melhor, num Brasil melhor. Anunciamos a todos uma sociedade nova, uma civilização do amor. É fácil denunciar e apontar os erros. Mas, agora é preciso apontar caminhos, construir pontes sobre os rios onde há crocodilos, jacarés e piranhas. O cristão precisa reagir positivamente no meio de tanta desesperança. Jamais a violência, jamais entrar no jogo do vale tudo. Nós cremos no amor, nós cremos na justiça e na verdade!

Aqui vale a recordação dos ensinamentos da Igreja resumidos nos conhecidos quatro princípios:

01 O primado da pessoa humana. Ser pessoa é uma tarefa que cada individuo deve empreender, um desafio a ser enfrentado até chegar ao ponto mais alto de seu ser que é o encontro e abertura com o hiper-pessoal, Deus.

02 O primado da Solidariedade. A pessoa humana só conquista o seu ser pessoal desfiando-se a sair de si mesma e, descobrindo-se na comunhão com o outro, o “nós”, a Comunidade, até abrir-se ao encontro com a sua origem a Comunidade Trinitária, Deus, Pai, Filho e Espírito Santo!

03 O princípio de Subsidariedade. A ajuda ao pequeno, alavanca do ser humano que se comunica e vive em comunidade sem se esquecer de nenhum outro ser humano, sobretudo o menor.

04 O princípio do Bem comum. Entenda-se a justa compreensão deste termo “Bem comum’ que não quer dizer a compreensão liberal ou estatizante, ou seja, há que ter cuidado com o conceito liberal de bem comum e o conceito coletivista de bem comum. Ambos não fazem parte do ensinamento católico. A pessoa humana abre-se para a comunidade realiza-se na comunidade e, a comunidade depende e tem sua realização a partir da pessoa humana. Uma não oprime a outra, mas vive-se o amor.

Portanto, penso que esse é o momento do nosso testemunho cristão por um Brasil melhor com tomadas de posição equilibrada e sábias baseadas no ensinamento da Igreja que bebe na Fonte do Evangelho.

“Abraão esperando contra toda a esperança acreditou e tornou-e pai de muitos povos”! (Rm 4,18) O cristão deve ser o profeta da esperança!

Dom Luiz Mancilha Viela, ss.cc
Arcebispo de Vitória ES

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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