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Por quais sentimentos o seu coração é habitado nestes tempos?

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Por quais sentimentos o seu coração é habitado nestes tempos? Os africanos morrem atravessando o mediterrâneo. O Papa exorta-nos com a urgência nas palavras e a ternura na voz para que cuidemos da mãe terra tão irresponsavelmente maltratada. As chacinas nas periferias das grandes cidades brasileiras se sucedem sem que o indignado tinir de panelas ressoe pelas varandas. A política segue como um campo de desafios homéricos para os que acreditam em honradez e dignidade. O capital define nos “impérios do norte” modos de pensar, de acreditar, de sonhar, de ser gente de “bem” e faz com que os habitantes das colônias defendam como próprios os interesses que são sempre e primeiramente deles.

Por quais sentimentos o seu coração é habitado nestes tempos? O mundo é cada vez mais desafiado a ser outro mundo. Tateamos rumos, buscamos luzes. O que se pode dizer, no entanto, é que somos pegos, todos, por um sofrer. Um sofrer que não aceita apenas um nome, mas que é a sensação-experiência de que a vida não está, de fato, sendo vivida. Um sofrer que nos tira – seres de risos que somos desde recém-nascidos – em figuras de olhares opacos, de faces caídas, sobrecarregados de fardos. Quem sabe seja desamparo um dos nomes desse sofrer, ou desesperança, desconforto constante, agonia… Mas certo é… certo é que bem lá no fundo de cada um pousa uma certeza: a vida poderia ser outra coisa. A vida poderia ser outra.

Vai-se pelos caminhos – pois que é preciso ir – massacrado pela rotina, pela quase impossibilidade de fugir das teias das máquinas produtoras de mentes amestradas. Vai-se como quem segue num ônibus lotado em dia de chuva e com as janelas fechadas. Vai-se pelos anos, de uma luta para outra, de um dispositivo eletrônico em bom estado para o último lançamento, de uma sobrecarga de trabalho para o pânico, de dores sem remédio para remédios de dormir. Tudo se perde, se esvai, se evapora: pessoas, poesias, sentidos.

Fica um tédio, uma fenda, uma carência, uma tristeza. E o pior, se não formos capazes de tirar lições de nossas perdas e derrotas, a tristeza azedar-se-á em ódio. E ela se tornará assim, infelizmente, a condutora de nossas ações. É preciso buscar culpados – a tristeza/ódio sugere. É preciso materializar aqui o inimigo que é difuso e distante. É preciso odiar quem adota outros modos de vida e quem expressa pensamentos diferentes.

Torne-se paladino disto e daquilo e seja autocomplacente. Aponte a loucura do outro e você se fartará da sensação de ser “o normal”. E o que se vê, então? Atira-se nos pobres imigrantes haitianos, espanca-se o travesti até a morte, ignora-se o que se passa ali, logo ali em outro mundo, nos morros e periferias.

Caminhos? Antes criar ilhas e inventar travessias entre elas. Ilhas de resistências, de gentilezas, de bondades, de generosidades. Ilhas inventadas dessa ou daquela maneira no oceano do mundo-cão de modo que as pessoas possam retomar as grandes virtudes que um dia foram cultivadas por elas mesmas.

Ser realista sem dispensar o impossível, portanto, e se sintonizar com a oportunidade: o tempo não me endurece, o tempo não é o que vivo, vivo o amor, agora. Então, dizer, quem sabe, como Guimarães Rosa em Grandes Sertões Veredas: porque eu, de tanto viver de tempo, tinha esquecido aquele amor. Recordar o amor, voltar a ele, desapegar-se das durezas dos dias e acreditar nas ternuras dos instantes. Resgatar a coragem suave e a delicadeza corajosa para afirmar jubilosamente a vida. Outra vida. Ser capaz de dizer com atitudes: vivo, vivemos, a vida está em nós, bom é viver, que todos vivam!

Dauri Batisti

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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