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Por favor, escutem o chamado. Não fiquem parados no vão da porta, não congestionem o corredor

As páginas dos jornais estampam cavaleiros seguindo pelo leito seco do Rio Doce. Figuras apocalípticas? Que situação! Aonde chegamos? As águas do grande rio já nem mais conseguem chegar ao mar. Suas forças e majestade se foram. O que estamos fazendo de nós mesmos?

Impossível não voltar no tempo num misto de nostalgia e tristeza. Mas não uma volta que se estenda por séculos ou milênios. Não. Apenas uma volta de algumas décadas atrás. O rio era outro. Eu, um menino. Meu Deus, aquele mar doce, somatório de mil riachos, descia solene pelo seu leito. O menino se encantava. E, ao contrário do pequeno riacho do seu cotidiano que se volteava em remansos de piscinas boas de tomar banho ali nos limites do quintal, o Rio Doce era imenso, poderoso, majestoso em suas águas barrentas determinadas em seguir adiante.

E hoje, Meu Deus! E hoje? Hoje – apenas algumas décadas depois – o majestoso rio já não é senão um espelho enferrujado que nos mostra impiedosamente quem somos: enfeiadores do mundo, gananciosos, consumistas insanos, irresponsáveis, ingratos. E o sentimento já não é senão de perplexidade, de desapontamento e tristeza. Apesar de que, na teimosia, ainda cultivamos algumas esperanças. Quem pode mostrar caminhos novos? Quem pode trazer de longe belezas perdidas? Uma saudade se insinua no coração de todos aqueles que viram ainda outro dia a majestade do Rio Doce, e outras tantas belezas do mundo que se perderam pelo abuso do homem. Ainda outro dia. O mundo era ainda tão bonito… Agora… Meu Deus! Que tristeza!

Do fundo de tamanha tristeza, diante da força da destruição que impusemos à natureza, não dá para esquecer a parábola que Jürgen Moltmann – importante teólogo alemão – conta com um necessário bom humor: dois planetas se encontram no universo. O primeiro pergunta: “Como você está?”. O outro responde: “Muito mal. Estou doente. Tenho homo sapiens”. O primeiro responde: “Sinto muito. É uma coisa terrível. Eu também tive. Mas não se preocupe que passa!”.

Mas, como disse acima, a tristeza ainda deixa vazar dos nossos olhares perplexos uma esperança, até porque precisamos de esperança como condição de sobrevivência. As gerações do futuro dependem de mantermos as esperanças e nos darmos ao trabalho de nos fazermos outros. Não os que enfeiam e destroem, mas os que criam, cuidam e embelezam tudo o que receberam de Deus.

Não haveremos de ser a doença do mundo, mas seu remédio – relutamos na esperança. E isso se dará pela resposta que daremos à vida que por pura gratuidade está em nós e no mundo. Ouçamos o chamado!

Quase seguindo pela calha da oração, os pensamentos se amparam numa música de Bob Dylan, The times they are a-changin: Vamos reunir as pessoas de qualquer lugar por onde andem… Se seu tempo vale a pena ser salvo é melhor começar… Por favor, escutem o chamado… Não fiquem parados no vão da porta, não congestionem o corredor.

Dauri Batisti

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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