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Plantando água - ‘Olhos d’água’

Projeto do renomado fotógrafo brasileiro, Sebastião Salgado, ajuda a recuperar nascentes do degradado Rio Doce.

O Espírito Santo vive a pior crise hídrica da sua história. A falta d’água e o racionamento forçado em algumas regiões do Estado já são uma realidade. A edição de março deste ano da Revista Vitória destacou o tema e alertava para a gravidade da questão.

Na época, assim encerramos o texto: “Cada um deve agora assumir a parte que lhe cabe para que esta ameaça da falta de água seja, em breve, coisa do passado. É fato que o uso precisa ser equilibrado, seja em nossas casas, na agricultura e pela indústria, e assim garantir que este bem tão precioso não falte.”

Oito meses depois, o quadro se agravou com o poder público adotando medidas emergenciais de proibição de irrigação nas plantações e ameaça de falta d’água na Grande Vitória, situação até então tratada com menor gravidade.

A notícia que parece ter pegado a todos de surpresa, não é novidade no norte do estado, onde se localiza um dos principais rios do Espírito Santo: o Doce. Já são vários anos de relatos de que o rio vem perdendo a vazão e ficando seco em vários pontos, em certos períodos do ano. Enquanto autoridades e órgãos competentes debatem o que deve ser feito, um projeto do fotógrafo Sebastião Salgado ajuda a recuperar e preservar nascentes dos rios.

Tudo começou em meados dos anos 90, quando a esposa do fotógrafo, Lélia Deluiz Wanick Salgado, fez a proposta para que replantassem a área degradada da fazenda deles em Aimorés, interior de Minas Gerais. A ideia era devolver à natureza o que décadas de degradação ambiental havia destruído. Com a mata recuperada, o casal observou que uma nascente existente na fazenda, que se encontrava sem água, havia voltado a jorrar. Daí surgiu a ideia de recuperar as nascentes do rio.

O projeto do casal foi crescendo até que em 1998 foi criado o Instituto Terra, uma iniciativa que busca recursos e parceiros em prol do desenvolvimento sustentável do Rio Doce. Por conta da atuação do instituto, mais de sete mil hectares de áreas degradadas estão em processo de recuperação e mais de quatro milhões de mudas de espécies da Mata Atlântica foram produzidas e plantadas.

A experiência nas áreas recuperadas apresenta um quadro animador: nascentes do Rio Doce voltaram a jorrar e espécies da fauna brasileira, em risco de extinção, encontraram nestes locais um refúgio seguro de berçário e morada. A proposta é, em longo prazo – cerca de 20 a 30 anos, salvar todas as 370 mil nascentes da Bacia do rio.

Como funciona

Em várias fazendas o projeto oferece orientação e material para que os produtores rurais adotem medidas, como isolar a área do gado e replantar as margens do rio. Até agora, mais de 1200 nascentes já foram contempladas com as ações.

Para garantir o futuro do projeto, jovens técnicos agrícolas fazem um curso de reflorestamento dentro do Instituto Terra. Eles têm a missão de continuar a visita aos agricultores e recuperar nascentes. Sebastião Salgado costuma visitar os agricultores que aderiram ao projeto e isso dá a ele a certeza de que é possível salvar o rio.

Hoje, o projeto “Olhos D’Água” é considerado pela ONU um dos 70 melhores do mundo de recuperação e conservação de recursos hídricos.

O rico Rio Doce

A bacia hidrográfica do Rio Doce possui, no total 84 mil quilômetros quadrados, dos quais 86% estão em Minas Gerais e o restante, 14%, estão no Espírito Santo. A bacia é formada por rios e cursos d’água de 228 municípios, incluindo o Rio Doce, que tem uma extensão de 897 quilômetros.

Na Bacia existem 3.600 indústrias e uma população de quatro mil habitantes. Antes de ser povoada, grande parte de sua extensão era uma floresta, com árvores de até 35 metros de altura, e a maior biodiversidade da Terra, que era a Mata Atlântica.

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O Rio Doce nasce na Serra da Mantiqueira, com o nome de Rio Piranga. Sua nascente fica na fazenda Morro do Queimado, no Município de Ressaquinha e deságua no Oceano Atlântico, no Município de Linhares – Distrito de Regência.

O pobre Rio Doce

A seca no manancial chegou ao patamar mais crítico da história. Sem força, o Rio Doce não deságua mais no mesmo ponto de Regência. Considerado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o 10º mais poluído do país, o rio chegou a um estágio tão grave de seca e assoreamento que a foz recuou 60 metros no continente.

Esta situação está levando uma série de prejuízo às cidades, tanto para abastecimento doméstico, como para a agricultura e indústria.

A formação das cidades e povoações ao longo do Rio Doce trouxe a exploração predatória dos recursos naturais, como a extração de madeira no ciclo do ouro. Atualmente, as atividades desenvolvidas nas margens do rio são: agropecuária, mineração, indústria, comércio e geração de energia elétrica.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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